Este tempo de bolhas (nos BRICs)

Paul Krugman

Então, mais um BRIC caiu. Na verdade, nunca gostei do conceito dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). A Rússia é essencialmente uma economia petroleira e não se enquadra de jeito nenhum ao grupo; e há grandes diferenças entre os outros três. Mesmo assim, é difícil negar que Índia, Brasil e diversos outros países estão agora enfrentando problemas semelhantes. E esses problemas compartilhados definem a crise econômica do momento.

O que está ocorrendo? É uma variante da mesma velha história: os investidores se apaixonaram por essas economias com mais entusiasmo que juízo, e agora estão abandonando os objetos de sua afeição. Há dois anos, os investidores ocidentais – desencorajados pelos baixos retornos nos Estados Unidos e nas nações europeias que escaparam à crise – começaram a despejar grandes quantias nos mercados emergentes. Agora reverteram o curso. Como resultado, a rúpia indiana e o real brasileiro estão despencando, acompanhados pela rúpia indonésia, o rand sul-africano, a lira turca e outras moedas.

Essa reversão de fortuna representa uma grande ameaça para a economia mundial? Não acredito que represente (mas estou torcendo ao afirmar isso). É verdade que a perda de confiança dos investidores e as quedas de câmbio resultantes resultaram em graves crises econômicas em boa parte da Ásia em 1997-1998. Mas o ponto crucial, então, era que, nos países em crise muitas empresas tinham pesadas dívidas em dólares, e a queda da taxa de câmbio fez disparar o valor de suas dívidas, criando perturbações financeiras generalizadas. Esse problema não está totalmente ausente desta vez, mas parece muito menos sério.

TAXAS DE JUROS 
Na verdade, podem me incluir entre aqueles que acreditam que a maior ameaça no momento é a de uma reação exagerada de política econômica nos mercados emergentes – que seus bancos centrais elevem as taxas de juros acentuadamente em uma tentativa de sustentar suas moedas, o que não é o que esses países ou o resto do mundo necessitam no momento.

Mesmo assim, ainda que as notícias da Índia e outras paragens não sejam apocalípticas, não são aquilo que você gostaria de ouvir quando as economias mais ricas do planeta, ainda que estejam se saindo um pouco melhor do que há alguns meses, continuam profundamente deprimidas e enfrentando dificuldades para se recuperar. E as mais recentes turbulências financeiras acarretam uma questão mais ampla: por que temos achado tantas bolhas?

Pois está claro que o fluxo de dinheiro aos mercados emergentes – que, por curto período, causou alta de quase 40% na moeda brasileira, uma alta que agora se reverteu completamente – foi mais uma da longa lista de bolhas financeiras que vimos nas duas últimas décadas. Houve a bolha da habitação, claro. Mas, antes dela, tivemos a bolha da internet; e, antes disso, a bolha asiática da metade dos anos 90, e ainda antes a bolha dos imóveis da década de 80. Esta última bolha, aliás, impôs pesados custos aos contribuintes norte-americanos, que tiveram de socorrer as instituições de poupança e crédito imobiliário.

Mas o fato é que nem sempre foi assim. Os anos 50, 60 e até os problemáticos 70 não foram tão propensos a bolhas. O que mudou, então?

A CULPA É DO FED?

Uma resposta popular é atribuir a culpa ao Fed, – às políticas monetárias frouxas de Ben Bernanke e seu predecessor, Alan Greenspan. E é decerto verdade que, nos últimos anos, o Fed se esforçou para baixar as taxas de juros, por meio de políticas convencionais e por meio de iniciativas heterodoxas como a compra de títulos de longo prazo. As taxas de juros baixas assim obtidas ajudaram os investidores a buscar outros lugares nos quais aplicar seu dinheiro, entre os quais os mercados emergentes.

Mas o Fed estava apenas fazendo seu trabalho. O banco central tem o dever de forçar baixa dos juros quando a economia está deprimida e a inflação é baixa. E quanto à série de bolhas anteriores, que a essa altura já se estendem por uma geração?

Sei que há pessoas que acreditam que o Fed vem mantendo os juros baixos demais, e imprimindo dinheiro demais, nos últimos anos. Mas as taxas de juros dos anos 80 e 90 na realidade eram altas do ponto de vista histórico, e mesmo durante a bolha da habitação elas estavam enquadradas às normas históricas. Além disso, o sinal de que o banco central está imprimindo dinheiro demais não é uma alta da inflação? Tivemos toda uma geração de bolhas sucessivas – e a inflação é menor agora do que no início do processo.

DESREGULAMENTAÇÃO

Certo, o outro culpado óbvio é a desregulamentação financeira – não apenas nos Estados Unidos mas em todo o mundo, o que inclui a remoção da maior parte dos controles sobre o movimento internacional de capital. Bancos descontrolados tiveram posição central na bolha dos imóveis comerciais dos anos 80 e na bolha da habitação que estourou em 2007. O fluxo internacional de dinheiro teve papel central na crise asiática de 1997-1998 e na crise que está irrompendo agora nos mercados emergentes – e também na crise europeia que continua.

Em resumo, a principal lição desta era de bolhas – lição que a Índia, Brasil e outros estão aprendendo de novo – é que, quando o setor financeiro é deixado livre para agir como quiser, fica cambaleando de crise a crise.

 

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5 thoughts on “Este tempo de bolhas (nos BRICs)

  1. O prêmio Nobel de economia, o Sr. Krugman, faz uma análise muito generalista e mais voltada a sua economia – economia americana – que, propriamente a do BRICS. Neste sentido, incorre em muitos erros, especialmente em relação ao Brasil.

    O sistema financeiro nacional está extremamente regulado. O Brasil acertou o seu sistema antes mesmo do acordo de Basileia. O PROER de FHC garantiu hedge (segurança) e liquidez ao setor bancário. Apesar de terem ocorrido falências como o Banco Votorantim e o Panamericano, que foram logo assimiladas pelo sistema financeiro nacional de modo a não conduzirem a uma crise no setor. É claro que o dinheiro público entrou em cena. Mas, não houve crise como ocorreu na economia americana. Ademais estes dois casos ocorreram pelo fato do mercado de crédito estar extremamente aquecido e por descuido dos bancos nos critérios de segurança em sua política de empréstimos. Emprestaram dinheiro a quem não podia pagar.

    Como o sistema financeiro nacional é muito seguro, os bancos têm altíssima liquidez e das mais altas margens líquidas do mundo, situando-se em torno de 35% quando nos empréstimos ao público!

    Aliás, isto é uma distorção, já que os bancos não deveriam lucrar tanto como aqui lucram. É um setor oligopolista, pois, falta a concorrência salutar. Apenas oito bancos detêm mais de 80% das carteiras de crédito. É de apenas 3,3% o índice de inadimplência num universo de crédito que atinge 55,1% do PIB, ou, R$2,546 trilhões.

    Estamos muito distantes de uma bolha financeira.

    No Brasil vivemos uma crise econômica delineada pelo baixo crescimento e a alta inflacionária. O que provoca mais distorções em uma sociedade que já tem grandes diferenças em suas classes sociais. É diferente da economia americana.

    Por outro lado, faltou Krugman dizer da falta de espaço que a economia americana vem perdendo no mercado internacional por conta do crescimento das outras economias, principalmente da sua principal concorrente – a China.

    Neste sentido a atuação do FED, Banco Central Americano, é de tentar estimular a economia induzindo o mercado de crédito. O problema é que a concorrência não parou para deixar passar a economia americana. E os estímulos financeiros que deveriam servir para o aumento da produtividade naquele país, encontram barreira, tanto na produção internacional, quanto no próprio esgotamento do seu mercado consumidor – a baixa inflação dos EUA, apesar do FED estar entulhando US$85,0 bilhões na economia todos os meses, é o indicativo claro da falta de demanda e da limitação do seu mercado. A conclusão é que muito desse dinheiro não passará da simples liquidez de seus próprios bancos, abarrotados que ficarão sem atingirem o fim a que se destinam.

    Os mercados emergentes estão em crescimento, isto é, ampliando a sua produtividade, fazendo aumentar a concorrência. Há uma ampla margem de mercado consumidor interno a conquistar. A lição e os desafios para o Brasil e todas as economias do BRICS são estes: aumentar a produção nacional “paripassu” com a ampliação do seu próprio mercado consumidor, isto é, melhor distribuição de rendas, além de conquistar o mercado externo com produtos com alto valor agregado e commodities exclusivas.

    A questão é de espaço econômico. Enquanto o Brasil se debruça no problema de como ocupar o excesso de espaço, os americanos se preocupam em como ampliar o seu.

  2. Correção: Por outro lado, faltou Krugman dizer do espaço que a economia americana vem perdendo no mercado internacional por conta do crescimento das outras economias, principalmente da sua principal concorrente – a China.

  3. Brasil precisa avançar em reformas estruturais para melhorar competitividade, diz o economista

    Brasília – Com o preço das commodities em queda, os bens primários com cotação internacional, e o acesso ao crédito mais difícil por causa do aumento dos juros, o Brasil precisa avançar em reformas estruturais para tornar-se uma economia mais competitiva. A avaliação é do economista sênior do Fórum Econômico Mundial Benat Bilbao, especialista em América Latina e um dos autores do Relatório de Competitividade Global 2013–2014, divulgado hoje (3).

    Segundo Bilbao, a mudança das condições que impulsionaram a economia brasileira nos últimos anos reforça a necessidade de ações para resolver os principais desafios que impedem o país de crescer mais. Entre as medidas que o economista julga necessárias está a flexibilização dos mercados de bens e de trabalho, além de uma ampla reforma tributária.

    Em relação ao mercado de bens e de serviços, o economista defende medidas de liberalização, que resultem na alocação mais eficiente de recursos. “A liberalização é essencial para aumentar a concorrência e permitir que os recursos sejam canalizados para os setores mais produtivos da economia”, explicou.

    Sobre o mercado de trabalho, Bilbao é favorável à redução de encargos trabalhistas, principalmente os tributos e as contribuições pagas nas demissões, além da flexibilização dos salários para refletir a produtividade do empregado. Ele, no entanto, reconhece que essas medidas são impopulares. “A reforma do mercado de trabalho é bastante necessária, mas enfrenta resistência. É justamente o receio de enfrentar essas questões que atrasa as reformas necessárias para o país”, disse.

    O especialista recomenda ainda que o Brasil simplifique o sistema tributário e diminua o peso dos impostos sobre a economia para aliviar as distorções. “A complexidade do sistema tributário é uma das principais queixas dos empresários que investem no Brasil. Além disso, o alto nível de taxação cria distorções e impede que as companhias se tornem mais lucrativas e invistam em inovações”, ressaltou.

    De acordo com o relatório do Fórum Econômico Mundial, o Brasil caiu oito posições em 2013 e ficou no 56º lugar no ranking internacional de competitividade, de um total de 148 países analisados. Entre os países do Brics, grupo das principais economias emergentes, o país perdeu a segunda posição para a África do Sul. Na América Latina, o Brasil ficou em quinto lugar, perdendo uma posição para o México.

    O relatório destaca que a deterioração de fatores macroeconômicos, principalmente das contas públicas e da taxa de poupança, contribuiu para a queda do Brasil no ranking. O economista diz que o aumento de gastos públicos posto em prática pelo governo nos últimos anos ainda não afeta a estabilidade da economia brasileira, mas recomenda moderação da equipe econômica no médio e no longo prazo.

    “As ações do governo precisam ser vistas num quadro mais amplo. A expansão dos investimentos e dos gastos públicos está tentando conter um ciclo de baixo crescimento da economia. No curto prazo, essa política pode até ser eficaz, mas o governo precisa ter cuidado para não confiar demais no aumento do déficit nominal e no endividamento público. Se essa tendência continuar, o crescimento da economia brasileira no longo prazo estará prejudicado”, adverte Bilbao.

    Outros fatores que contribuíram para a posição do país no ranking de competitividade, acrescenta o economista, são comuns aos países latino-americanos, como instituições fracas, baixa qualidade da educação e defasagem na infraestrutura. Ele, no entanto, considera que o Brasil leva vantagem sobre os países da região porque tem bolsões de inovação e ambiente sofisticado de negócios.

    “Se fizer as reformas necessárias e investir nesses pontos fortes, o Brasil tem um potencial de crescimento fantástico nos próximos anos”, avalia o economista. Ele ressalta que a África do Sul só superou o Brasil entre os países do Brics por causa da liberalização do mercado de bens. “Em termos de inovação, o Brasil tem uma economia mais complexa e sofisticada que os sul-africanos”, completa.

    (transcrito da Agência Brasil)

  4. Wagner Pires, saudações
    Segundo li, foi graças ao derramamento de muito dinheiro aqui no Brasil – vindo de quem fugia da crise dos Estados Unidos – que conseguimos crescer e consequentemente produzir a sensação de que atravessávamos um momento de extraordinário desenvolvimento. Outros analistas já haviam visto o cenário da mesma forma. Agora … o dinheiro vai sendo retirado daqui e … a situação é esta que vemos. Mas a parte mais elucidativa de tudo isto, vem no final: “a maior lição disso tudo é que quando o setor financeiro é deixado livre para agir, fica cambaleando de crise em crise”. Como seja. Os danos provocados pelo “setor financeiro livre”, são historicamente imensos, e quem paga tudo, no final, é a sociedade, são os povos através dos Estados. John M Keynes disse que “cabe ao Estado reger a Economia”, linha obedecida por Roosevelt em 1932 e “nesta recente crise” por Obama. Não há novidade no front, caro Wagner. Dinheiro na mão do “setor privado” … desaparece e … fica tudo bem (para os mesmos de sempre, é claro)
    Analisei corretamente? Gostaria de saber sua opinião. Abraço, Wagner.

  5. Corretíssimo meu caro Almério – não há novidade no front. Como sempre diz aqui o nosso Mestre Bortolotto: economia boa é aquela em que o mercado é bem regulado pelo Estado; com normas bem definidas e em favor do crescimento sustentável.

    Sobre os recursos estrangeiros, eles continuam chegando. O Brasil continua atraindo mais de US$60,0 bilhões em investimento estrangeiro direto (IED) todo ano. Poderia atrair muito mais se o governo ousasse lançar mão de aumentar a dívida com o fim único de pavimentar mais estradas e traçar o país de norte a sul e de leste a oeste com ferrovias. Nosso país tem um potencial incrível!!!

    Um dia chegaremos nesse patamar de incrível expansão econômica. Espero estar vivo até lá.

    Grande abraço.

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