Estresse no trânsito: saiba como superar esse perigoso inimigo

Milton Corrêa da Costa

Não se pode mais deixar de correlacionar os constantes engarrafamentos de trânsito, face o crescimento da frota de veículos e a consequente diminuição dos espaços viários, ao que se convencionou chamar de ‘estresse no trânsito’.

Além disso, a violência gera na população a síndrome do pânico e o medo concreto e presumido do crime (ninguém se sente seguro num sinal de trânsito em local ermo), também contribuindo para o estresse no trânsito, uma grave doença social dos tempos modernos.

O estresse é causa de hiperagressividade no trânsito. E o pior é que se verifica que o volante de um carro também tornou-se uma forma disfarçada de descontar nossas frustrações em relação a outros problemas do cotidiano. É o que a psicologia chama de “transferência”. Ao invés de expressar nossos sentimentos a quem está nos causando irritação, acabamos extravasando os problemas no volante de um carro.

A Psicologia de Trânsito, ramo que estuda o comportamento humano na condução veicular, não consegue explicar o que faz com que pessoas de convívio social pacífico transformem-se em hiperagressivos estressados do volante, pretensos donos dos espaços das vias públicas.

Uma simples discussão no trânsito, o arranhão ou amassado no veículo (nunca achamos que a culpa é nossa) ou uma fechada durante o deslocamento, tudo pode ser a gota d’água para uma tragédia. Para superar os problemas inerentes ao estresse ao volante veja o que escreveu a respeito do tema a consultora norte-americana M. J. Ryan, autora do livro “O Poder da Paciência” e outros títulos.

Ryan conta que sua amiga Sylvia Boorstein, certa ocasião, falou-lhe sobre um motorista com quem ela uma vez ficou presa em um engarrafamento quando estava indo participar de um programa (ao vivo) de televisão. O motorista trabalhava para a emissora e, portanto, sabia o quanto era importante cumprir o horário. No entanto, embora estivessem praticamente parados, ele não perdeu a calma uma única vez e conseguiu fazer com que ela chegasse pontualmente. Quando Sylvia perguntou o que lhe dava capacidade de ficar tranquilo apesar das enervantes circunstâncias em que se via envolvido todos os dias, o homem explicou: “O que faço poderia se tornar uma dor de cabeça pra mim se eu permitisse que assim fosse”, disse.

Ryan diz que este motorista sabia algo que muitos de nós precisamos lembrar: podemos escolher a maneira pela qual reagimos às situações em que nos encontramos. “Passamos muito tempo no trânsito, o trajeto de ida e volta do trabalho é o horário ideal para se praticar a paciência. A paciência fará com que não causemos acidentes ao ficarmos mudando de pista o tempo todo, a manter a distância necessária do carro da frente no anda e para e não darmos cortadas nos outros veículos. E quando os outros motoristas se comportarem mal conosco, a paciência nos permitirá evitar uma confrontação cujo resultado pode ser desastroso. Olhe a paisagem em volta, descubra uma excelente estação de rádio ou ouça CDs. Note a diferença que a escolha de manter a calma faz em seu percurso e na maneira como você se sente ao chegar”, completa a escritora americana.

Outro ensinamento interessante é sobre o controle da respiração, citado pelo escritor alemão Eckhart Tolle em seu livro “O Poder do Agora”. Tolle lembra que, nessa situação, respirar fundo é fundamental. “Observe atentamente a sua respiração, sinta o abdômen inflar e contrair-se levemente, a cada inspiração e expiração. Em alguns segundos entre em contato com o seu corpo interior e tome consciência da serenidade”, diz o escritor.

Há um perigoso exército de homens-bombas e mulheres-bombas, prontos a explodir a qualquer momento, acometidos da grave doença social do estresse ao volante. Se considerarmos, por exemplo, que três em cada dez habitantes da capital paulista apresentam algum transtorno mental, como mostrou o Hospital das Clínicas, e se observarmos que muitos deles são condutores de veículos, concluímos que o perigo do estresse no trânsito é ainda muito pior.

A paciência, como estratégia do bom senso, até que se prove em contrário, continua sendo o melhor remédio. É melhor perder um tempo, com calma, ao volante de um veículo, do que ser dominado pela fúria e pelo estresse do trânsito. É uma simples questão de escolha. Uma linha às vezes muito tênue entre a vida e a morte.

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