Eu não sei nada sobre Amy Winehouse (a filha de Janis)

Ricardo Caulfield

Foi-se Amy Winehouse, legítima representante do pop retrô, de um som delicado, algo jazzy. Acho que Amy Winehouse vai deixar muitas saudades, principalmente porque sua vida estava tão devassada aos olhos do publico que ela já nos “parecia da família”. Ela acabou se tornando um ícone dos tempos da internet, seus escândalos tinham vida própria e interagiam com os fãs. Ela nem precisava do talento que tinha.
Falar de Amy ou Angelina Jolie ou Britney Spears faz parte de nossa marcante pretensão. Não raro vejo as pessoas se referirem a um artista atual, com tanta autoridade, que assusta. “Ela era apaixonada pelo Blake (ex de Winehouse), mas foi ele que a levou a usar crack, desde então ela….”. Começam assim, citando o que saiu nos jornais e depois acrescentam sua visão (ou análise) particular: “Ela era a típica inglesa, que parecia liberal, mas era conservadora ao extremo, inclusive ela era do tipo que…” E tome blá blá blá.

Não dá para não questionar: ora, se a gente convive com amigos (ou parentes) e muitas vezes, depois de anos bem intensos, nos surpreendemos ao descobrir que não os conhecíamos de verdade; se mesmo uma convivência não é garantia de nada, como é possível que alguém acredite conhecer a Amy só por linhas que saem no jornal?
“Ela bebe e depois se droga, não aceita criticas e começa a ficar alucinada…” – posso ouvir a voz cheia de autoridade de alguém que fala como se tivesse tomado suco de laranja com a cantora durante as manhãs dos últimos sete anos. Da minha parte, sei que ela “enfiava o pé na jaca”, o que não é novidade. O resto das digressões, se ela aceitava criticas ou se era uma típica canceriana ou geminiana ou escorpiana, não faço a menor idéia.

Diante de um milhão de matérias “jornalísticas” que saíram sobre ela nos últimos anos e, quase todas falando dos escândalos, me orgulho de dizer que não sei nada sobre Amy Winehouse. Sei apenas o que saiu no jornal, mais especificamente, o que dava para aproveitar. Que ela não conseguiu completar um show no determinado dia. Que ela morreu.

Sua morte foi um choque. Para alguns, pela música. Para outros (uma legião imensa), porque ela havia se tornado uma espécie de personagem de todos. Ela era um bem comum. Dando vexames, errando a letra, tropeçando, aparecendo doidona por aí. As pessoas se lamentavam, mas, no fundo, ela era uma personagem tão real quanto qualquer um desses participantes de reality show.

“Não era para ter morrido, levou a sério demais o personagem”, alguém pensou. Conectar-se a um site e ler sobre o último vexame de Amy tornava menos medíocre a vida de muitos de nós. Acho que a sociedade é assim: precisa rir de alguém como ela. Que é mulher, tem a aparência diferente e, principalmente, é um artista de talento e bem sucedida.

Existem milhões de mulheres parecidas (fisicamente ou pela maneira intensa) com Amy, mas pouquíssimas obtiveram o mesmo êxito artístico, então são só……… – preencha aqui com algum adjetivo pejorativo. Amy vendeu musica e ganhou dinheiro, então o desprezo vinha em forma de riso. Às vezes era de escárnio (dos moralistas), às vezes era um riso carinhoso. “Olha, a Amyzinha aprontou mais uma”.

Acho que não sabemos muito sobre Amy, apenas sobre o personagem, temos algumas pistas. Sei que ela não teve tempo de gravar mais CDs, o que diminui o tamanho do legado, lançou Franc (em 2003) e Back to black (em 2006) e só. Janis Joplin, que também viveu intensamente, mas de 67 a 70, lançou 4 albuns de estúdio e um ao vivo. A diferença é que na época era interessante (financeiramente) para artistas gravar discos, enquanto que hoje ninguém sabe o que vai acontecer com a industria fonográfica. Sem discos, restaram as excursões e o personagem que não era dela, mas de todos.

Durante uma época achei que as loucuras de Amy eram uma espécie de marketing, pensei que em um futuro, ela fosse se tornar uma velhota, sobrevivente aos anos de abuso, algo como uma versão feminina de Keith Richards. Mas não aconteceu. E agora, quem vai suceder a filha de Janis Winehouse?

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