Euforia demais é um perigo

Carlos Chagas

É preciso tomar cuidado com essa história de que o Brasil ultrapassou o Reino Unido e agora passou à sexta economia do planeta. Euforia demais é um perigo. Ninguém esquece os tempos do “milagre brasileiro”, do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Deu no que deu, até na Comissão da Verdade. Ainda bem que o governo e o Congresso estão de recesso, senão já teria começado a maratona de discursos e pronunciamentos celebrando o anúncio.

Começa que devemos desconfiar de quem anuncia. São eles mesmo, as empresas e institutos americanos que de vez em quando entram em parafuso, até em falência, acostumados a dar notas para todo mundo, menos para eles. Depois, porque a produção não é tudo. Indústrias, comércio, agricultura e serviços vão bem, mas nem tanto a ponto de evitar que o crescimento do PIB congelasse no último trimestre. A explicação é de que outros cresceram menos, ou não cresceram.

Claro que a notícia surge positiva, nos enche de orgulho, mas seria bom atentar para nossos índices de pobreza e até de miséria. Na palavra da própria presidente Dilma, o Brasil tem 16 milhões de miseráveis. Festejar o sexto lugar será prematuro enquanto a distribuição da renda nacional não chegar a patamares muito mais justos. Os potentados de nariz em pé deveriam olhar para o fim da fila.

A propósito, continua sempre oportuno buscar no passado lições capazes de nortear nosso futuro. Voltaire, no imperdível “Ensaio Sobre a Moral e o Espírito das Nações”, puxou as orelhas da França ao escrever que nenhum país possuía o tal “destino manifesto” de que se vangloriavam as elites francesas. Muito pelo contrário, ridicularizou o Estado, a nobreza, o clero e negou o direito divino dos reis ao prever sérias dificuldades para o país envolto na ilusão. Felizmente para ele, morreu antes da Queda da Bastilha.

Poderia até clamar pela Revolução, mas jamais concordaria com o terror, a ditadura e o império de Napoleão. Ignoramos o que acontecerá caso o mundo continue mergulhado na crise, mesmo se nós permanecermos crescendo. Boa coisa não será.

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SEM CREDENCIAIS

Por falar em Voltaire, não dá para resistir à tentação de contar mais uma de suas ironias. Depois de passar a vida criticando a Igreja, seu comportamento e seus privilégios, com o refrão de “écrasez l’infame” (esmagai a infame), com mais de 80 anos, às portas da morte, o velho filósofo recebeu um padre que tentou prepará-lo para a outra vida. Indagou do visitante: “Quem o enviou?” Como resposta, ouviu: “Deus em pessoa!” E a réplica: “Então vejamos suas credenciais!”

Guardadas as proporções, tem muita gente falando em nome da presidente Dilma Rousseff, em especial sobre a reforma do ministério. Mas credenciais, mesmo, andam em falta…

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OS CAVALOS E OS ASNOS

Para registrar que a verve de Voltaire não foi característica de sua longa experiência, vai uma de sua juventude. Recém-chegado a Paris, com vinte anos, surpreendeu a capital francesa com seus artigos e comentários ferinos. O Regente, Felipe de Orleáns, que governava em nome do jovem Luís XV, resolveu fazer economia e mandou cortar pela metade a despesa com as cavalariças reais. Vendeu mais de 500 corcéis. Voltaire não perdeu a oportunidade e escreveu que em vez dos cavalos, o Regente deveria livrar-se dos muitos asnos que evoluíam em torno do trono. Irritado, Felipe encontrou-se com o jovem no Bois de Boulogne, onde a nata da sociedade costumava passear. E falou: “Monsieur Arouet, vou proporcionar-lhe uma visão de Paris que o senhor jamais viu.” No dia seguinte Voltaire estava preso na fortaleza da Bastilha, onde ficou por onze meses.

Arrependido, o Regente mandou soltá-lo e ainda concedeu-lhe a pensão anual de algumas centenas de francos. O incorrigível gênio escreveu de volta: “Agradeço a Vossa Majestade preocupar-se com minha alimentação diária, que aceito, mas quanto às minhas acomodações, pode deixar que eu mesmo cuido.” Perdeu a dotação e precisou refugiar-se em Londres, para não ter que voltar à Bastilha…

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A VEZ DE RICHELIEU

Vamos ficar na França imortal e retroceder um século. O Cardeal Richelieu governava com mão de ferro, como primeiro-ministro do rei Luís XIII, fraco e hesitante. Tinha como princípio que, em qualquer circunstância, o interesse público deveria prevalecer sobre o interesse privado. Um dia, no entanto, desabafou: “Muitas vezes tenho mais dificuldade em governar o rei do que o reino.”

De novo guardadas as proporções e com todo o respeito, vamos colocar a presidente Dilma no papel do Cardeal e imaginar se ela, de quando em quando, não encontra mais dificuldades em controlar o Congresso do que em gerir o país…

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