Ex-chefe da Lava Jato diz que diálogos são normais e critica ministros do STF

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Objetivo é destruir a Lava Jato, diz procuradora Thaméa Danelon

Wálter Nunes
Folha

Chefe durante três meses do braço paulista da Operação Lava Jato, a procuradora da República Thaméa ​Danelon diz que, se verdadeiras, as conversas divulgadas do ex-juiz Sergio Moro com integrantes da força-tarefa em Curitiba são “absolutamente normais” e fazem “parte do mundo jurídico”.

Thaméa, 45 anos, deixou a Lava Jato em janeiro alegando compromissos familiares. Hoje, atua na 6ª Vara Criminal especializada em crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro.

“Não vi nenhuma ilegalidade nas conversas mostradas até agora. O que querem é derrubar a maior operação contra a corrupção do mundo”, diz Thaméa, que é próxima do colega paranaense Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa.

Ela também diz que ministros do Supremo Tribunal Federal que criticaram Moro e os procuradores querem polemizar e deveriam “aplaudir de pé” a Lava Jato.

Sem citar nomes, faz críticas a integrantes do STF. “Já testemunhamos envolvimento de fato íntimos e irregulares com juízes das mais altas cortes do Brasil. Ligações entre juízes do Supremo com investigados e, nesse caso, não houve uma repercussão tão grande”, afirma.

Como a senhora viu esse episódio do vazamento de conversas entre Sergio Moro e procuradores da Lava Jato?
É um episódio criminoso [vazamento das mensagens]. O fato realmente que importa é esse ataque cibernético de que foram vítimas os operadores de direito, pessoas que realizam seu trabalho de investigação e processaram aqueles que praticaram atos de corrupção.

Há a crítica de que procuradores e o ex-juiz Sergio Moro estavam agindo em conjunto contra o ex-presidente Lula e um grupo político.
Não é possível afirmar que todas aquelas conversas são verdadeiras, se houve algum tipo de fraude, manipulação ou se foi extraída do contexto. Agora, algumas conversas que eu li, caso de fato tenham sido faladas pelos interlocutores, são absolutamente normais. Fazem parte do mundo jurídico.

Os procuradores conversam com os juízes, assim como os próprios advogados. É normal despachar pessoalmente com o juiz, seja a acusação ou a defesa. Claro que os procuradores têm uma proximidade um pouco maior com os juízes do que os advogados, por conta do próprio trabalho, onde semanalmente nos reunimos com os juízes para fazer as audiências. Sempre o mesmo juiz da causa. Então as mensagens trocadas por aplicativos são para facilitar esses contatos. Para não ter que ir pessoalmente despachar com o juiz.

Acho que estão exagerando [com a repercussão do vazamento]. A ideia é desviar a atenção de fatos criminosos praticados que causaram prejuízos absurdos não só à Petrobras, mas a diversas estatais. Então é uma tentativa através de contato criminoso e completamente ilícito para tirar a atenção.

E não podemos esquecer de todo o valor que foi devolvido aos cofres da Petrobras. Mais de R$ 2 bilhões. Investigados e réus que confessaram que pagaram e receberam propina. Então a ideia [com vazamento das mensagens] é tentar desconstruir a maior operação anticorrupção do mundo.

Esse tipo de colaboração entre procuradores e juiz não pode ser considerado ilegal?
Não tenho conhecimento de que essa troca de mensagem realmente existiu. Ou que de fato partiu do então ministro Sergio Moro.

Supondo que seja uma conversa verdadeira, não me parece que há qualquer tipo de ilegalidade. O juiz da área cível vai se contentar com o que as partes trouxerem para os autos. No processo penal é um pouco diferente. Tanto que há a possibilidade de se ouvir as testemunhas do juízo. Ou seja, ainda que a acusação não tenha indicado uma testemunha, nem a defesa, o juiz poderá ouvir a testemunha.

Se chegou ao conhecimento do juiz a existência de que uma pessoa teria conhecimento sobre aquela causa, não há problema algum que ele queira ouvir essa pessoa. Se, de fato, houve essa troca de mensagem, de sugestão de ouvir uma pessoa [Moro aparece em uma mensagem indicando uma testemunha a Deltan], não há problema algum que ele queira ouvir essa pessoa.

Mas as mensagens não mostram uma parceria indevida entre Procuradoria e magistrado, que podem macular a imagem da operação?
Macularia se forjassem provas, se tivesse um conluio para que testemunhos falsos depusessem, aí é diferente. Agora, todas as provas foram apresentadas em todos os processos. E quando eu falo as provas eu não me atenho a um caso específico. Eu digo os processos da Lava Jato como um todo. Onde os réus tiveram a assessoria de excelentes advogados, tudo foi investigado, processado e julgado da maneira mais lícita possível.

Mas o processo não fica desequilibrado quando o juiz do caso, que deveria se manter neutro, participa de uma maneira indevida do trabalho da Procuradoria?  Moro comenta com Deltan que a Lava Jato estava havia muito tempo sem operação, indica testemunha…
Eu não vejo problema. Qual seria o problema? Ah, faz tempo que não tem operação. Que proximidade indevida se viu aí?

É importante lembrar que tem muitas pessoas com grande poder político, com grande poder econômico e jurídico, que não foram divulgados os nomes. Então me parece que essas pessoas estão se unindo para tentar enfraquecer a operação. Porque nós já testemunhamos envolvimento de fato íntimos e irregulares com juízes das mais altas cortes do Brasil. Ligações entre juízes do Supremo com investigados e, nesse caso, não houve uma repercussão tão grande.

Se de fato houve esse questionamento do magistrado para um procurador no sentido de que fazia tempo que não havia uma operação, em hipótese alguma isso tem qualquer conteúdo irregular, ilícito, que não poderia ser objeto de uma conversa.

Os ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, do STF, fizeram críticas a integrantes da Lava Jato e, sobretudo, a Sergio Moro. Eles viram problema na proximidade de Moro com a força-tarefa e chamaram a atenção para a necessidade de imparcialidade do Judiciário.
Nenhum membro do Ministério Público e do Judiciário tem viés político. Pelo que eu sei, nenhum integrante da Lava Jato foi advogado de algum partido político, foi advogado de criminosos, então não tem nenhum viés político que envolva o ministro Sergio Moro ou os colegas.

Evidentemente o direito não é uma ciência exata, é uma ciência humana onde os operadores têm vários entendimentos. Temos que respeitar, ouvir e permitir que cada um se manifeste como queira. O que não pode ser feito é juízes emitirem opiniões sobre casos que nem em apuração estão. Então isso é mais preocupante. Onde ministros da Suprema Corte criticam a maior operação anticorrupção da humanidade. Era para que estivessem de pé aplaudindo a Lava Jato e o excelente trabalho desempenhado pelos colegas e pelo ministro Moro.

​Os procuradores, em mensagens, fizeram comentários demonstrando temor que o candidato petista vencesse a eleição presidencial. Isso não faz entender que a força-tarefa estava contaminada com uma pauta político-partidária?
Reitero que não tenho conhecimento de todas as mensagens e não podemos afirmar que as trocas de mensagens são verdadeiras e que partiram dos interlocutores. Mas qualquer operador do direito utiliza aplicativos para troca de informações profissionais e também pessoais.

Em relação à entrevista [procuradores comemoram a decisão do STF de impedir a entrevista do ex-presidente Lula à Folha por receio de ela ajudar Fernando Haddad na eleição], uma pessoa que está presa tem a liberdade cerceada. Não só a liberdade, outros direitos que são atribuídos para qualquer cidadão são tolhidos. Nenhum condenado tem esse direito de dar entrevista. Não é porque é o A, porque é o B, porque é um ex-presidente da República, porque é uma outra pessoa qualquer. Então, se houve esse tipo de comemoração, nós temos que comemorar quando a lei é cumprida, quando a Constituição é observada.

Em relação a uma suposta conversa que demonstraria que o operador do direito não gostaria que o candidato A ou candidato B fosse eleito, é uma conversa particular. Nós todos temos um entendimento político, uma preferência, embora não podemos nos mover com base em eventuais preferências. Evidentemente que, se temos convicção, se temos provas de que determinada pessoa praticou atos ilícitos, é natural que não queiramos que esta pessoa volte à atividade pública.

Uma troca de mensagens indicaria que Deltan tinha dúvidas sobre a prova contra Lula no caso do tríplex. Como a senhora vê isso?
Quando nós trabalhamos em equipe, não é possível que todos os membros da força-tarefa tenham conhecimentos profundos sobre todos os casos. É normal, até para otimizar o trabalho, que haja uma divisão dos casos. Então nem sempre todos, nem mesmo o próprio coordenador, tem o conhecimento completamente aprofundado de todos os casos. Na força-tarefa a ideia é dividir as tarefas.

Como o Deltan já se manifestou, claro que ele tinha preocupação, não só neste caso específico, mas em todos os outros casos, em todas as outras apurações, que haja provas robustas. A preocupação dele era se de fato havia provas robustas para que sustentasse uma acusação. E não só tinha provas robustas como houve a condenação do ex-presidente nesse caso, houve a manutenção da condenação na segunda instância, onde a pena foi elevada, e houve a condenação em terceira instância.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG“Não vi nenhuma ilegalidade nas conversas mostradas até agora. O que querem é derrubar a maior operação contra a corrupção do mundo” – esta frase sintetiza o que está acontecendo contra a Lava Jato, em estratégia semelhante à adotada na Itália contra a operação Mãos Limpas. (C.N.)

14 thoughts on “Ex-chefe da Lava Jato diz que diálogos são normais e critica ministros do STF

  1. A ladroagem morria de medo do juiz Moro, continuou com medo quando ele virou Ministro da Justiça, agora trabalha para impedir que que ele vá para o STF, a ordem é fazê-lo sangrar.
    A ladroagem está acuada.

  2. Bom dia leitores (as):

    Senhor Wálter Nunes ( Folha ) e Senhor Carlos Newton .
    Não seria o caso de enquadrar a ” Ordem de Advogados do Brasil – OAB ” pelo crime de RECEPTAÇÃO de produtos sabidamente roubados , uma vez que essas grandes bancas de advogados recebem de seus constituintes , seus honorários com DINHEIROS ROUBADOS dos cofres públicos ? Isso é público e notório .

  3. Lula teve ampla defesa. Não acredito que tenha havido algum criminoso que impetrou tantos recursos como em defesa do ex-presidente.
    Lula foi condenado por vários juízes da primeira, segunda e terceira instância e suas dezenas de recursos foram negadas, inclusive pelo STF, dizer que isso é perseguição política, só na cabeça de fanáticos.
    O PT conta com a simpatia de alguns personagens importantes Têm ministros do STF contra a prisão dos condenados em segunda instância, não importa que os presídios fiquem vazios, o importante é que os dos colarinhos branco fiquem impunes.
    Sérgio Moro e os procuradores fiquem atentos, porque a quadrilha de corruptos não vai parar enquanto não acabar com a Lava Jato.
    .O chefe está preso, mas a quadrilha dos corruptos está em ação.

  4. NR diz tudo, o artigo bem explicado, mas…a canalhada continua ativa nos 3 poderes. o pior de tudo é esse STF que está stf, estupradores da Justiça,nos envergonhando no Mundo, mas…a uma Justiça que faz justiça, no pós túmulo.

    • Aos olhos de Deus, o Verdadeiro, te garanto que a coisa aqui está mais para Sodoma e Gomorra, do que para a rendição pela redenção, e se vc se considera de fato Justo melhor pegar a sua família e puxar o carro para outro país menos indecente, porque aqui o Bicho do novo de verdade vai ter que pegar, senão nada irá mudar.

  5. O fato é que o sistema político podre, a Geni, continua intocável, talvez até pior do que antes da Lava Jato, com os políticos do tal PSL, partido do presidente eleito, beneficiário dos fatos, chafurdados em malfeitos, e o pior de tudo com o Moro aderindo ao partido e fazendo parte do time de Bolsonaro, da família Bolsonaro, do Queiroz e CIA, partido esse que tudo indica tão ou mais censurável do que o PT e os demais. E, a exemplo das tais reformas, como a da previdência, p. ex., de nada adianta o Moro e seus agregados brandirem as tais “medidas contra a corrupção” de dentro para fora do seu governo, só para inglês ver, até porque não é de mais placebos, sofismas e panaceias que o Brasil está necessitando, mas, isto sim, de Solução que ponha fim a essa maldita e infeliz guerra tribal primitiva, permanente e insana, por poder, dinheiro, promoções, vantagens e privilégios, inclusive corporativos, que contaminou tudo, inclusive as instituições. Ademais, que mal eu pergunte, por que a mídia entrevista tudo e todos os componentes do velho continuísmo da mesmice, há décadas, inclusive os da Lava Jato, mas até hj ainda não entrevistou o contraponto a tudo isso que ai está com prazo de validade vencido há muito tempo ?

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