Exaltado, o outrora tranquilíssimo Pimentel exibe as notas fiscais, mas se recusa a mostrar os relatórios que teria feito para os clientes.

Carlos Newton

Depois de afirmar que estava “tranquilissimo” quanto à legalidade dos serviços da P-21, sua empresa de consultoria, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, acabou se exaltando numa entrevista ao repórter Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo.

As explicações do ministro são muito curiosas, para dizer o mínimo. Com as notas fiscais na mão, ele disse que só teve quatro ou cinco clientes, mas não permitiu que as notas fossem xerocadas.

A parte mais interessante da entrevista é a que se refere à “consultoria” que teria sido prestada à fábrica de refrigerantes ETA, que nem atuava em Minas Gerais. Pimentel alega que tinha esquecido esse cliente, que lhe pagou R$ 130 mil, embora estivesse quase falido.

Pimentel estava com as notas fiscais dos pagamentos (R$70 mil e R$60 mil), cobrados por “Consultoria para aprimoramento da gestão empresarial com elaboração de projeto na área econômica e tributária”, mas se recusou a mostrar o trabalho que teria feito para uma empresa que estava em má situação e ele nem sabe se foi ou não à falência.

Sua justificativa é de que não poderia mostrar o trabalho, apesar não existir a exigência de sigilo entre cliente e consultor (que Palocci sempre alegou para não revelar seus “clientes”). “Não é que tem cláusula de confidencialidade. Tem é uma relação comercial”, desculpou-se Pimentel, com se a ética fosse uma des suas preocupações.

Vamos, então, transcrever a parte da entrevista referente à empresa quase falida que pagou R$ 130 mil por uma “consultoria para aprimoramento da gestão empresarial com elaboração de projeto na área econômica e tributária”, um trabalho que nem foi muito extenso, segundo o próprio Pimentel.

***
Como o senhor chegou até a empresa de bebidas ETA, de Pernambuco?

Eu prestei a eles um serviço finito no tempo e eles me pagaram R$ 130 mil, em dois pagamentos no início do ano de 2009. Eles fazem tubaína. Eu não os conhecia.

Como eles chegaram ao senhor?

Um deles tinha um amigo que era empresário em Minas. Ligou para mim o advogado que era o contabilista deles, que se chamava Luís Carlos. Fez um contato. Eu conversei por telefone com os diretores algumas vezes.

O que o senhor fez para eles?

Está aí na nota fiscal [lendo]: “Consultoria para aprimoramento da gestão empresarial com elaboração de projeto na área econômica e tributária”. Essa nota é de 9 de julho de 2009, de R$ 60 mil. A primeira foi em 15 de maio, de R$ 70 mil. Eu mandei um diagnóstico de mercado, uma análise, e um diagnóstico de possibilidades, pois esse negócio de refrigerantes é complicado. Eles iriam entrar em um mercado em que se enfrenta gigantes, como a Ambev. Então eu fiz um trabalho para eles, não foi muito extenso, mandei e nunca mais tive contato.

Mas na firma muitos não se lembram do trabalho…

O que aconteceu. A firma foi vendida. Ou quebrou. Eu não sei o que aconteceu. Eu mandei o trabalho e nunca mais tive contato. Um dos sócios se mudou para os Estados Unidos.

Mas o senhor não poderia especificar mais como foi o contato inicial com essa ETA?

Eles me procuraram de maneira direta. Telefonaram para mim na consultoria. Tinha telefone…

Mas como eles o descobriram?

Não sei… Pergunte para eles, Fernando Rodrigues.

Vamos deixar clara essa história. Eu vou te falar o meu sentimento. Nada do que eu estou falando aqui eu precisava falar. Nada. Nada! Sabe por quê? Eu não cometi nenhum crime. Está tudo legal, documentado [mostra os papeis à sua frente]. Eu prestei serviço como consultor econômico. Não tem nada errado. E não tem nada a ver com o governo federal. Não tem nada a ver com este ministério. Nada, nada, [soletrando] N-A-D-A. Nada!

Eu estou falando porque eu acredito na liberdade de imprensa. Ainda que a imprensa exagere. Ainda que a imprensa às vezes cometa erros absurdos. Eu acredito na liberdade de imprensa. Então eu acho que eu estou em um cargo público e eu explico o que aconteceu, ainda que tenha sido num período que não tenha nada. É a vida privada.

Mas a pergunta era só sobre como a ETA chegou ao senhor…

Eu não sei como eles chegaram… O cara me ligou e falou ‘sou de uma empresa de bebidas e conheço fulano…’ Sei lá quem ele conhecia. Alguém que era diretor da Federação das Indústrias lá de Pernambuco o tinha indicado… Eu vou lembrar do nome? Três anos atrás. Nós estamos no final de 2011. Eu tive de achar os caras. Me deu um trabalho do cão. Agora, pronto, já saiu a nota (da empresa ETA, confirmando o contrato, depois de os sócios terem negado), o serviço foi prestado, tá aqui, tá tudo bonitinho.

No caso da ETA, não teria havido o contato porque o senhor tinha bom relacionamento com o PSB, por meio do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda. Como o PSB é forte em Pernambuco, teria sido um contato político?

Não tem nada a ver com Márcio Lacerda. Nada a ver com o PSB. Foi uma empresa que me procurou que eu nem conhecia e prestei um serviço finito, de maio para julho de 2009. E acabou. Pagaram, eu entreguei e eles foram embora. Nunca mais eu tive notícia. Agora descubro que mudou, fechou, mudou o dono. O ex-dono está nos Estados Unidos. Mas dizem ser um crime, não pode. Prestou o serviço? Prestou. Pagou o tributo? Pagou. Tirou nota fiscal? Tirou. Mas não, está errado. É suspeito. Tem alguma coisa.

Mas não parece um pouco fora da curva que alguém abra uma empresa de consultoria e já consiga os contratos que o senhor conseguiu, inclusive esse de Pernambuco que veio de maneira tão inusitada?

Fernando, deixa eu te abreviar. Não tem isso não. Não vem com essa conversa fiada para cima de mim… Fernando, a curva é suspeita, fora da curva é suspeito, tudo é suspeito. A Convap é suspeita. A QA é suspeita. Fiemg é suspeita. A ETA é suspeita… Tudo é suspeito. Que curva, Fernando? Que bobagem é essa? A curva é normal. Tem uma semana que alguns órgãos de imprensa estão me infernizando a vida com isso que seria a curva normal. Falam que tudo é suspeito e vou te dizer: é tudo regularíssimo. Não tem nada de errado, nada. Está tudo com imposto pago, está tudo com nota fiscal, está tudo comprovado.

Para recapitular: o senhor só prestou então serviços de consultoria, de 2009 a 2010, para cinco clientes?

Só. E todas as notas estão aqui.

Em algum momento desde o início da atual polêmica o senhor foi perguntado para quantas empresas prestou serviço?

Eu é que falei tudo.

Mas há uma impressão de que o senhor não teria revelado o nome de todas as empresas, como essa de Pernambuco, a ETA…

Não… Sendo justo, a empresa de tubaína eu não falei antes porque eu tinha esquecido. O negócio foi tão ocasional que eu tinha me esquecido. Sinceramente. Ficou aquela coisa de Fiemg e Convap, que eram contratos volumosos, e a QA, que eram os maiores, eu nem me dei conta. E aí falaram da empresa do Nordeste e eu disse, ‘nossa’, é mesmo. Aí eu fui atrás e hoje esclareceu tudo, já saiu a nota da empresa.

Para todas as consultorias há relatório do serviço prestado. Pelo que eu entendi, em alguns casos é por escrito. Em outros, não. É isso?

Exato. E vou te dizer mais: relatório é do cliente. Não é seu. Ele te pagou, é dele. Se ele quiser mostrar… Mas eu não posso fazê-lo. Não é que tem cláusula de confidencialidade. Tem é uma relação comercial.

***

Bem, este é apenas mais um capítulo da novela. Outros se seguirão. Os telespectadores não perdem por esperar. O ministro tem muito a explicar, como o caso da construtora que entra em licitação e ganha, mesmo com débito tributário de R$ 500 mil com a Prefeitura, e que Pimentel diz pertencer a um velho amigo de seu pai.

Vamos aguardar, mas em jornalismo há um ditado que diz: “Quando a pessoa leva mais de 30 segundos para dar uma explicação, é porque não há como explicar”.

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