Exame do Enem traz Tia Zulmira de volta

Gaudêncio Torquato

O que diria Tia Zulmira, a engraçada personagem criada por Stanislaw Ponte Preta, ao enxergar, numa dissertação sobre movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI, uma receita de Miojo e um trecho do hino do Palmeiras? Acharia razoável as notas 560 e 500 obtidas? E que nota daria ao Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, que orienta os corretores da prova a “aproveitarem o que for possível”? A velha senhora da família Ponte Preta enquadraria seguramente os personagens em questão no Festival de Besteiras que Assolam o País, sempre muito farto por ocasião do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Em todos os anos, o Enem produz extensa crônica de besteiras previsíveis. O Brasil continua a ocupar um vergonhoso 88º lugar entre 127 países no ranking de educação da Unesco. Seis anos atrás, tinha melhor posição (72ª). Há 6 milhões de alunos no ensino superior, mas 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita.

A considerar o denso programa de avaliações em todos os níveis de ensino e as campanhas que fazem loas à nossa educação, deveríamos ser um território livre de todas as categorias do analfabetismo. Se o número de analfabetos diminuiu nos últimos três anos, o percentual de analfabetos funcionais tem permanecido o mesmo.

Os dados continuam desanimadores. Cerca de 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente; dessas, 68% são analfabetas funcionais e 7%, consideradas analfabetas absolutas.

O que mais impacta, porém, é o contraste entre o avanço de uns setores e o atraso de outros. Veja-se a situação de renda das margens, que tem aumentado a ponto de se trombetear, a todo o tempo, a inserção de 30 milhões de brasileiros na classe C e a “salvação” de outros tantos que saíram da miséria absoluta. Se a desigualdade diminuiu, não seria lógico imaginar, em sua cola, a melhoria de padrões educacionais?

PONTOS OBSCUROS

Há muitos pontos obscuros no discurso que trata da educação. Não é um paradoxo constatar que quase 50% dos brasileiros são usuários da internet e quase 70% possuem celular, mas o Brasil, com 401 pontos, está numa das últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa)?

O que trava o sistema? Na educação básica, há a Prova Brasil e o Enem. No ensino superior, o Enade, aliado ao Censo Escolar, a par de avaliações feitas por comissões de avaliadores. Na pós-graduação, nada funciona sem o endosso da Capes. Faltam mais recursos? Os programas de formação de professores são precários e insuficientes?

As respostas não são fáceis. Enquanto os ciclos governamentais cultuam a si mesmos, o fato é que o edifício educacional apresenta rachaduras em todos os andares. Da competição desvairada por vagas em escolas de baixa qualidade, não é de surpreender o besteirol que sai desses polêmicos exames de avaliação.

Tia Zulmira garante que a receita de Miojo no mais recente Enem trouxe, sim, elevada contribuição ao verbo destes tempos tresloucados. (transcrito do jornal O Tempo)

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3 thoughts on “Exame do Enem traz Tia Zulmira de volta

  1. Finge-se valorizar o professor.Se ao longo da minha vida profissional não consegui o que um policial consegue em poucos anos, então a propaganda governamental é evidentemente uma mentira. Para o meu aluno o conhecimento dos professores não se reflete em um bom padrão de vida. Ele apenas consegue ver milicianos e criminosos de todos os tipo em posição de destaque social.

  2. Para entender o que acontececom o ensino no Brasil!!!
    De Maquiavel Pedagogo ou o Ministério da reforma psicológica/Pascal Bernardin – Ed. Ecclesiae

    “…Enfim,gostaríamos de nos dirigir a todos aqueles que, seguros de possuir a verdade e cegos o bastante para não duvidar da nobreza de sua causa, colocam tanto ardor revolucionário em lavar o seu cérebro de seus semelhantes, em pôr fogo na mente dos homens, em neles incutir a revolta e em ultimar a revolução psicológica: estão seguros de que não fazem o jogo do adversário? Estão seguros de que ele não os conduzirá aonde não querem ir?”

  3. Muita gentileza entitular a educação como edifício, mesmo com rachaduras. Se quer saiu do pau a pique…

    O leão restitui mais na aposentadoria privada, plastica ou doação pra partidos políticos, que educação própria ou com dependentes.

    Nem meus bisnetos irão ver este país com uma educação valorizada. O imediatismo assola e contamina como praga!

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