Exatamente como Palocci fez, Pimentel diz estar ‘tranquilo’ sobre denúncias e considera superado o episódio.

Carlos Newton

Na sexta-feira, em Buenos Aires, o ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, repetiu as palavras de seu amigo Antonio Palocci e disse que está tranquilo com relação às denúncias feitas contra ele sobre tráfico de influências.

O ministro contou que, em reunião com a presidente Dilma Rousseff, quinta-feita, tinha dado as explicações necessárias e que considera “superado” o episódio. “Estou tranquilíssimo”, afirmou.

E ainda tirou uma onda, como dizem os jovens, ao dizer que, se o Congresso o convocar para dar explicações, ele irá, pois considera “uma obrigação de ministro”, quando todos sabem que na quarta-feira a base aliada teve de se virar até conseguir rejeitar um requerimento de convocação do ministro na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara.

Mas não deveria estar nada tranquilo. Hoje, O Globo mostra que uma das empresas que receberam consultoria de Pimentel, a construtora Convap, assinou dois contratos com a Prefeitura de Belo Horizonte que somam R$ 95,3 milhões, apesar de estar devendo R$ 474,7 mil.

A decisão de não exigir um certificado de quitação de débitos com o município de Belo Horizonte é um indício de favorecimento à empresa, na avaliação do promotor de Defesa do Patrimônio Público do Ministério Público de Minas Gerais, Eric Nepomuceno. Ele abriu inquérito para apurar as circunstâncias em que ocorreu a contratação do consórcio.

Em Buenos Aires, assediado pelos correspondentes, Pimentel não quis entrar em detalhes sobre as acusações, que estão se avolumando. Prefeito de Belo Horizonte até 2008, Pimentel tem sido alvo de reportagens que associam seus negócios como consultor, antes da campanha de 2010, a empresas ligadas à prefeitura da cidade.

Mas sua assessoria seguiu tentando responder as denúncias. Em mensagem publicada sexta-feira no site do ministro, sua equipe reafirma ele que exerceu o serviço de consultoria no período em que não ocupava cargo público, entre 2009 e 2010, e diz que forneceu à imprensa todos os documentos que compravam a legalidade do negócio.

Como se sabe, durante a semana, Pimentel disse que a P-21, sua empresa de consultoria, prestou serviços para a Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), Convap e QA Consulting. Quinta-feira, porém, reportagem do jornal “O Globo” mostrou que a empresa também recebeu R$ 130 mil da ETA Bebidas do Nordeste para fazer uma “análise econômico-financeira e mercadológica”.

Ainda segundo o jornal, os sócios da ETA afirmaram que não tinham condições para contratar uma consultoria nesse valor, que era incompatível com o negócio. Após a divulgação da reportagem, no entanto, a ETA Bebidas divulgou uma nota para afirmar que o “trabalho foi regularmente prestado”.

Em dois anos, a empresa P-21, de Pimentel, faturou R$ 2 milhões, sendo R$ 400 mil apenas da QA Consulting, que tem entre os sócios um filho de Otílio Prado, sócio do ministro na consultoria e que deixou cargo na Prefeitura de Belo Horizonte após as suspeitas.

Segundo o ministro, que nega o tráfico de influência, a empresa não manteve, nestes dois anos, qualquer contrato com os governos municipal, estadual ou federal. No texto publicado em seu site, ele afirma que “é preciso cautela para que o jogo político não termine por contaminar o livre exercício de um direito. Para que esse direito não seja usado para atingir biografias respeitáveis”.

Mas a biografia de Pimentel nem é tão respeitável. O Ministério Público de Minas Gerais abriu mais uma investigação contra ele, por irregularidades em obras do consórcio Camargo Corrêa-Santa Bárbara. O Ministério Público já vinha investigando também a HAP Engenharia, por causa de suspeita de superfaturamento em obras da Vila Viva, neste caso no Morro das Pedras, na região oeste da capital.

Conforme a denúncia, o contrato com a HAP para a construção de 778 apartamentos teria sido reajustado de R$ 90 milhões para R$ 120 milhões, o que elevou o custo de construção para os cofres públicos de cada apartamento para R$ 154 mil.

A empresa pertence a Roberto Giannetti Nelson de Senna, que possui estreita relação com Pimentel. Tanto o ministro quanto a empresa e seu proprietário já são réus em outro processo movido pelo Ministério Público. Na ação, eles são acusados de fraude na construção de casas populares com recursos municipais com dispensa de licitação, superfaturamento e utilização de uma entidade filantrópica (Ação Social Arquidiocesana ou ASA) para justificar a dispensa indevida de concorrência pública.

Segundo o Estadão, a Justiça já determinou o bloqueio de bens dos acusados no valor de R$ 5 milhões e o processo tramita na 4ª Vara da Fazenda Pública na capital.

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