Exportações e reservas cambiais disparam, mas qual é a parte do povo?

Pedro do Coutto

É absolutamente inegável o êxito do comércio externo brasileiro ao longo dos oito anos do governo Lula e agora no início da administração Dilma Rousseff. Basta examinar e comparar os números. O período FHC fechou, em 2002, com as exportações atingindo 70 bilhões de dólares e as importações 68 bilhões na moeda americana. Dando sequência à escalada que começou no exercício de 2003, agora, 2011, revela a reportagem de Martha Beck e Vivian Oswald, O Globo de terça-feira 3, as exportações fecharam com nada menos que 256 bilhões (de dólares) e as importações no patamar de 202 bilhões.

Quadro estatístico a cores elaborado pela editoria de arte do jornal torna ainda mais fácil a visualização da dança dos números. Sendo que as exportações, em 2011, cresceram 26% em relação às de 2010. E as importações em 24,5% no mesmo espaço de tempo. O saldo comercial foi 47% maior no ano passado em relação ao ano atrasado.

As exportações e as importações projetaram-se assim numa velocidade impressionante de algo em torno de 350% em nove anos. Muito mais do que a inflação do IBGE que assinala aproximadamente 70% no período e várias vezes a taxa demográfica que ficou em praticamente 11%. A economia brasileira no plano externo bateu recorde. Tanto assim, como destacam Martha Beck e Vivian Oswald, que, no final de dezembro, alcançaram um total acumulado de 352 bilhões de dólares. Cerca de 15% do PIB do país.

Em 2001, quando se fechavam as cortinas do governo FHC, as reservas somavam apenas 37,8 bilhões de dólares. Cresceram quase dez vezes, o equivalente a mil por cento. De 2010 para 2011, o avanço foi de 25%. Eram 288 bilhões, saltaram para 352 bilhões (de dólares). Impressionante o ritmo. Dilma Rousseff manteve o sucesso de seu antecessor na área comercial externa.

Entretanto, na área social interna, qual o reflexo positivo? Muito pouco. As favelas, na década, como escrevi há poucas semanas, com base no Censo de 2010 do IBGE, avançaram 75% para um crescimento populacional da ordem de 12,7%. Os recursos orçamentários destinados à Saúde aumentam este ano de 75 bilhões (de reais) para 82. Os remetidos à Educação, de 65 bilhões para 72 bilhões.

No país, um terço das habitações não contam com rede alguma de esgotos. Cinquenta por cento são atendidos por rede de tratamento civilizado, 18% através de fossas sépticas, incrível. Faltam 300 mil professores no sistema de ensino público nacional. As exportações e importações elevaram-se firmemente, mas no ano passado o consumo interno perdeu para o índice inflacionário de 6,7%. Qual pode ser a explicação?

Não adianta apelar para o papel e, como em Casablanca, mandar prender os suspeitos de sempre. É necessária uma tradução lógica para encontrar o ponto de fratura que separa a ponta entre a economia e a sociedade. Tem-se a impressão, pois o que existe aparece, como definiu o cientista Enrico Fermi, que os resultados concretos da arrancada econômica estão sendo depositados no exterior.

Não se encontra outra explicação. Já que os saldos existem e se acumularam através de nove anos de sucesso, eles têm que se encontrar em algum lugar. Não evaporaram, tampouco desapareceram como num passe de mágica. O saldo final acumulado, de 352 bilhões de dólares, como dizem os dados do Banco Central por Beck e Oswald, só pode estar dormindo em bancos internacionais.

Um colchão de segurança contra qualquer crise. Macio. Contrastando com a falta de colchões decentes para embalar o sono de pelo menos 30 milhões de favelados. Assim, a economia vai bem, mas o povo vai mal. Quem foi que disse isso antes? Exatamente o general Médici, em 70, quando Delfim Neto era o ministro da Fazenda. A realidade mudou para melhor na economia. No plano social, não.

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