Extrair petrleo ou comprar opinio?

Carlos Chagas

No mundo moderno, em s conscincia, ningum pode ser contra a propaganda e a publicidade. Essas atividades fazem parte do complexo que vai do planejamento produo, da comercializao ao consumo. Mercadolgicas ou promocionais, so responsveis pelo sucesso ou fracasso de quase todas as atividades humanas. Alm de criarem empregos e contriburem para o desenvolvimento da economia.

O que no d para aceitar o super-dimensionamento da publicidade, muito menos a distoro da propaganda, quando em vez de atingirem sua finalidade e seus objetivos, servem de biombo para encobrir formas de enganar o consumidor, de um lado, ou de comprar a opinio dos veculos onde se apresentam.

Feito o prembulo, vamos passar ao principal. A finalidade da Petrobrs, glria nacional, encontrar, extrair e abastecer a sociedade de combustvel. Mostrar-se, claro, na demonstrao de suas qualidades, bem como promover seus produtos.

Como empresa bem sucedida, deveria voltar-se para sua atividade maior, mas faz muito que vem sendo utilizada como mecanismo de promoo dos governos aos quais se subordina. De mandato em mandato dos detentores do poder, porm, a Petrobrs transformou-se num instrumento de manipulao e at de controle da opinio pblica. Com objetivos bvios no apenas de demonstrar sua eficincia, mas de dominar a informao recebida pela sociedade.

Tome-se os principais telejornais, noticiosos radiofnicos, revistas, jornais e toda a parafernlia da comunicao social. Atravs de propaganda muito bem elaborada, a estatal tornou-se seno a maior, uma das maiores anunciantes do pas.

Est presente nas diversas classificaes da mdia, ficando para outro dia demonstrar que tambm subsidia mil outras formas de seduo do meio social: festas de So Joo, de Natal, celebraes patriticas, edies de livros variados e de CDs de msica popular, ONGs srias e ONGs fajutas, congressos, seminrios, cursos, escolas, feiras internacionais e prefeituras recebem o patrocnio, quer dizer, dinheiro vivo, dos cofres da Petrobrs.

Tudo angelicalmente destinado a aumentar o consumo de seus produtos ou a melhorar suas condies empresariais na concorrncia com competidores?

Vale ficarmos na mdia. Se recebem vultosas verbas, em boa parte responsveis pelo sucesso de seu faturamento, dos jornales aos pequenos semanrios, das mega-redes televisivas s cadeias radiofnicas e s revistas de circulao nacional, todos os veculos de comunicao pensaro duas vezes antes de informar a respeito de investigaes, denncias e acusaes de irregularidades envolvendo a Petrobrs e seus dirigentes. Se fosse s isso, ainda seria deglutvel, pois as empresas privadas fazem o mesmo.

O problema que gerida e dirigida pelos governos, no s do Lula, mas da quase totalidade de seus antecessores, a Petrobrs tornou-se uma gazua capaz de arrebentar com a liberdade de imprensa e de expresso. Porque quem criticar os governos corre o risco de perder a publicidade da estatal. Essas coisas esto implcitas, no precisam ser ditas entre as partes.

Argumentaro os cticos que essas prticas fazem parte do sistema capitalista, valendo acrescentar que nas ditaduras de esquerda ou de direita pior ainda. Quem ousar desafiar os interesses e as verdades absolutas dos donos do poder, alm da falncia pela falta de anncios, corre o risco de parar na cadeia.

O governo Lula usa e abusa dos recursos publicitrios da Petrobrs, numa simbiose trgica onde o sacrifcio maior atinge a liberdade. No primeiro mandato do companheiro-mr havia at um japons mal-encarado para conduzir o sistema. Mesmo catapultado pelos abusos cometidos em favor de interesses pessoais, viu-se sucedido pela impessoalidade mais malfica ainda.

Estarrecido, o pas assiste fantstica invaso de slides, filmes, mensagens e patrocnios de toda espcie jorrando das burras da Petrobrs para as telinhas, os alto-falantes e as folhas impressas, promovendo a estratgia do pr-sal.

A grosso modo, nem precisaria, por tratar-se de uma iniciativa favorvel afirmao da soberania nacional, aplaudida pela nao quase inteira. Parece que o governo no confia nele mesmo, nem em seus bons propsitos, se necessita desviar recursos da extrao de petrleo para convencer o pblico da certeza de seus atos.

O risco de se, amanh, os monarquistas ganharem as eleies, assistirmos a Petrobrs dedicada a convencer a sociedade de que um imperador ou um rei resolvem todos os nossos problemas. Opinies se compram, mas a que preo?

Em suma, no a Petrobrs, como empresa, a responsvel por essa abominvel farra publicitria que nos assola. Nem as agencias encarregadas de produzir to elogivel material. Sequer os veculos vidos de sustentar-se com a propaganda. Culpado o sistema que permite tamanha distoro.

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