Fadas madrinhas não existem

Carlos Chagas

Vive-se um momento em que todo mundo parece satisfeito com o governo Dilma. As  pesquisas iniciais assim indicam,  tanto quanto, mais do que os números, sopra  no ar uma espécie de tranquila expectativa.  Só que nada como o tempo para passar e reverter sentimentos. Cada categoria, cada classe, cada agrupamento social, político e econômico manifestam na aprovação do governo a esperança de melhoria de suas condições e a realização  de seus anseios.   Por isso fazem fé na presidente da República, aguardando que sua administração venha a satisfazer-lhes desejos e necessidades.

Aqui as coisas  podem enrolar, primeiro por conta dessa ilusão de que tudo depende de um único fator ou de  uma só pessoa. Não existem fórmulas mágicas,  como também não existem  mágicos. Nem fadas madrinhas.

Logo as elites financeiras darão demonstrações de que aguardavam mais, já que a prometida desoneração das folhas de pagamento das empresas continua na gaveta, além de crescerem as  suposições a respeito da maior  taxação  dos ganhos de capital e do aumento já praticado do Imposto de  Operações Financeiras. O Custo Brasil permanece o mesmo. Se vicejar a má vontade   registrada no governo a respeito do excessivo lucro nos bancos, muito do apoio do andar de cima começará a arrefecer.  Em especial se a Receita Federal começar a movimentar-se em ritmo mais veloz, como já lhe foi determinado.

Passando ao  oposto, o povão que Fernando Henrique repudiou espera iniciativas tão rápidas quanto profundas. O ínfimo reajuste do salário mínimo conseguiu ser ofuscado pela ilusão do  aumento dos índices de emprego, mas  as estatísticas não chegam à massa de miseráveis  nem entram no barraco de cada um. É  natural que  esperem mais, tanto no dia-a-dia quanto nas políticas públicas, pois os transportes coletivos continuam um horror, o atendimento no SUS, lamentável, e,  por falta de sorte, as escolas viraram campo de extermínio. O andar de baixo é egoísta, exigente e mal-agradecido. Caso não receba novas benesses, adotará no mínimo  aquela postura de dar de ombros, ante-sala dos resmungos, amuos e protestos.

Entre os dois extremos, a classe média, agora cortejada por um tucano anacrônico  e isolado, mas com raro  potencial de reação a tudo o que  se passa à sua volta.  Ou não se passa. Sucessivos aumentos no custo de vida atingem  o cidadão comum na moleira, tanto os que já integravam esse patamar quanto  os recém-chegados, egressos do milagre-Lula.  Votaram, em maioria, em Dilma Rousseff, contrariando  as previsões e as esperanças  do sociólogo. Não será por conta da bola-fora de FHC que poderão demonstrar frustração diante do atual governo, mas pela falta do cumprimento de promessas que não foram prometidas, ainda que imaginadas. Diminuição da carga de impostos, crédito pessoal mais fácil, juros menos  abusivos, salários descongelados – tudo conduz a classe média a anseios irreais e ao  vácuo capaz de ser preenchido pela desilusão.

Em suma, deve cuidar-se dona Dilma. O céu parece de brigadeiro, mas as nuvens de tempestade poderão estar em gestação no  horizonte, caso nenhuma dessas  três categorias básicas venha a ter seu ego inflado. E com a necessidade de não esquecer de que exageros para um dos ângulos do triângulo desagradará os outros.

PANTOMIMA VELHA

Vietnam, Afeganistão, Iraque. Tanto faz qual ou quais as grandes potências invasoras, se Estados Unidos ou a ex-União Soviética, França ou Inglaterra. Destinam-se todas ao fracasso, obrigadas a sair com o rabo entre as pernas.

Encena-se agora na Líbia  outra farsa,  melhor seria dizer, pantomima. Mobiliza-se o que há de mais moderno na indústria bélica, bilhões são gastos em mísseis,  aviões de caça, porta-aviões e o resultado já se prevê. Vão  perder outra vez para povos pobres e mal-armados, mas donos de sua terra. Pode levar anos, até décadas. Centenas de milhares vão morrer,  milhões sofrerão o insofrível e a gente pergunta quais os interesses e as ideologias que valem tanto?

CASA DE MARIMBONDOS

O Congresso deverá aprovar ainda este ano a  Comissão da Verdade,  mas não será apenas para apurar a responsabilidade de agentes do poder público na repressão dos anos de chumbo. O outro lado também será  investigado e denunciado, conforme tendência já detectada entre deputados e senadores.   Está afastada a possibilidade de punição  para os que torturaram e mataram em nome do regime de exceção, tanto quanto  para os que diante dele assassinaram, explodiram e seqüestraram.

A lei da anistia tornou-se irrevogável.  O problema é que a farta literatura referente àquele período já identificou a imensa maioria dos  implicados de um lado e de outro. Reviver desatinos do passado  poderá complementar a memória nacional, mas em termos de futuro  adiantará muito pouco.    

REDIVISÃO TERRITORIAL

A proposta vem em ondas, como o mar. Fala-se da redivisão territorial que parlamentares do Amazonas, Pará, Maranhão e Bahia pretendem ressuscitar. Gostariam de dividir esses  estados,  cada um  em dois ou três, sob a alegação de poder desenvolver regiões senão abandonadas, ao menos pouco privilegiadas pelos governos atuais. Novas oportunidades surgirão para minorias, mas o diabo serão os  custos. 

Mais governadores, senadores, assembléias legislativas, tribunais de Justiça e de Contas, sem falar em novas capitais.  O bom senso indica, por enquanto,  a rejeição desse desmembramento, ainda que a experiência demonstre ter sido bom para Goiás e Mato Grosso, assim como no sentido inverso, a fusão do Estado  do Rio com a Guanabara. Melhor seria evitar açodamentos mas estar o país preparado para um dia criar outras  unidades federativas.

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