Falsas indignações

Carlos Chagas

Qual o resultado da indignação da presidente Dilma diante das denúncias de que os Estados Unidos montaram em Brasília um núcleo de espionagem empenhado em monitorar nossas comunicações telefônicas e eletrônicas para o exterior e internamente?

Zero. Absolutamente zero,   quer dizer, cairá no vazio o estrilo da presidente, como caiu o pedido de explicações a Washington, feito pelo chanceler Antônio Patriota. Da mesma forma como reações candentes no Congresso, na mídia e na torcida do Flamengo.

A espionagem vem de tempos imemoriais. Para  vencer a batalha de Kadesh, Ramsés II mobilizou falsos comerciantes egípcios para informá-lo dos planos dos hititas. Napoleão não dava um passo sem ler os relatórios de seus informantes. Aqui no Brasil, um comandante da Marinha dos Estados Unidos planejou a abertura do rio Amazonas à navegação internacional através da divisão do Império em cinco ou seis países independentes. Nos tempos de João Goulart, quando o então ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, estava internado no Hospital Central do Exército, todas as suas conversas iam parar na mesa do coronel Wernon Walters, chefe da CIA no Brasil.

Sobre o assunto, vale alinhar três  episódios que seriam cômicos se não fossem trágicos.

Acometido de um derrame cerebral, no Rio, o então presidente Costa e Silva estava impossibilitado de continuar governando. O vice-presidente Pedro Aleixo, em Brasília, teve imediatamente seu apartamento invadido por parlamentares, ministros e jornalistas, todos eufóricos com a perspectiva de o velho professor de democracia assumir o governo. Ele recebeu inúmeros telefonemas, um deles de José Maria Alckmin, secretário de Educação do governador Israel Pinheiro, de Minas. Já se prenunciava seu impedimento e, de Belo Horizonte, a velha raposa felpuda utilizou metáforas para exortar Pedro Aleixo a dirigir-se à capital mineira, em vez de ir ao Rio.

“Desça aqui para nos dar notícias da saúde do presidente” na verdade queria dizer  “venha para tomar posse em Minas que nós  garantimos”. O vice-presidente não foi, deixando-se levar preso para a antiga capital.  Lá, convocado pelos três ministros que haviam usurpado o governo, viu o almirante Augusto Rademaker acionar um gravador e repetir toda a conversa dele com Alckmin, ocorrida poucas horas antes. Era mais uma razão de não poder assumir: estava conspirando…

A outra: ao chegar a Brasília, no tempo do general Médici na presidência, aluguei um apartamento mobiliado, com telefone. Muitas vezes, quando soava a campainha, eu ia atender e ninguém ouvia os meus sucessivos “alôs”. Em contrapartida, eu escutava o senador Filinto Muller, presidente do Senado, atendendo ligações de correligionários. Não resisti à tentação de permanecer na escuta e pude dar furos homéricos no “Estadão”, cuja sucursal dirigia. Como estamos no Brasil, a eletrônica apresentava defeitos e os donos do poder vigiavam-se entre si.

A terceira: o general João Figueiredo era presidente e seus áulicos decidiram promover ampla reforma em seu gabinete, substituindo os velhos lambris. Ao retirá-los, na parede próxima de sua escrivaninha, um operário deparou-se com sofisticada parafernália eletrônica. Deu com língua nos dentes, a imprensa publicou, seguindo-se silêncio sepulcral por  parte da presidência da República. Ficou claro ter sido o próprio general a concordar com seus arapongas sobre todas as suas conversas telefônicas ou individuais serem gravadas, dizem que  para a História…

Repetem-se até hoje as gravações e interceptações cada vez mais sofisticadas de comunicações entre políticos, administradores, empresários, jornalistas, artistas e até religiosos. É a repetição milenar  do princípio de que quem detém a informação já ganhou metade da guerra.

Sendo assim, quando vez por outra os espiões são flagrados ou denunciados como tal, sucedem-se gestos de indignação e protestos de violação dos direitos humanos e até da soberania das nações. Puro jogo de cena, como  se um governo ignorasse a ação dos outros ou mesmo sua própria ação.

Acresce que os americanos não estão nem aí para as reclamações. Continuarão fazendo a mesma coisa, sempre aprimorando sua tecnologia. Como dizia Tancredo Neves sobre os telefones, e agora diria também sobre a internet e penduricalhos, esses meios só se usam para marcar encontros; e mesmo assim, no lugar errado…

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3 thoughts on “Falsas indignações

  1. Espionagem? Eu hein! Quem não deve não teme e cobra quem tem poder.
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    Talvez você não concorde com o que irá ler. Infelizmente é o que hoje e ainda, penso.
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    A única privacidade e propriedade universais que o homem possui, usufrui e goza é a de pensar. Ao descer deste nicho metafísico, socializar-se, o homem perde o poder sobre esta privacidade e a propriedade dele. Nos dias atuais, então, com a avalanche multiplicadora da técnica mais ainda fica minimizado o íntimo, o pessoal, o privado. Embora a jurisprudência pretenda resguardá-lo.

    O pensar está ligado ao expressar e nesta exposição pública é que se completa. Tolher por qualquer modo, motivação (mesmo em nome do bem), quantidade e/ou intensidade o expressar é castrar a natureza humana que somente ganha sentido no social.

    Também ,esconder, mascarar, alterar ou inverter o pensado é opção única e exclusiva individual, indevassável. Privado é o pensado. Além disso, tudo é público, interessa ao social e se impõe como dever às autoridades públicas.

    A liberdade de pensar é intocável.

    As palavras não são fatos, são versões e indícios de verdades. Embora a liberdade de expressão seja o melhor, por vezes único, caminho para se chegar à verdade.

    Mais exatamente os incisos X (dano material e moral) e XII da CF que tratam da intimidade e sigilo da correspondência e das comunicações são postulações ontológicas, pouco realistas principalmente em face as relações externas de um Estado. Nas internas, na vigência do regime do capital, da propriedade tais prescrições deixam excluídas, de pronto, a maioria despossuída porque sem acesso à Justiça. A espionagem nestes é fofoca ou lídima e legal ação do Estado; nos poderosos, grave atentado à intimidade que cabe ao Estado preservar.
    Não será isto que se pretende espionando, bisbilhotando? Conhecer o não sabido?

    No tocante à relação entre Estados a análise se insere no campo da soberania instrumentada pela diplomacia. Em últimos termos a soberania somente se realiza seja pela força, seja pelo respeito. O que, em nenhum desses campos relacionais o Brasil tem se feito impor; não tem Poder.
    Portanto, espiona quem pode; quem não pode, cala; bota o rabo entre as pernas.
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    Por mais:
    “A busca da verdade não é moral em si mesma e por si mesma; tudo depende do objetivo com que é perseguida. A busca da verdade só é verdadeira e plenamente moral quando a ciência é amada por causa dos efeitos benéficos que deve ter para a sociedade, para a humanidade – Émile Durkheim”

  2. Prezado Chagas : Você esqueceu de dizer que Tancredo Neves, quando governador de MInas, ao receber quaquer pessoa com que precisava sigilosamente trocar idéias, levava o convidado para a varanda do seu gabinete alegando ser um local mais agradável para conversar. Muitas vezes esse local mais agradável era o jardim do Palácio da Liberdade onde, seguramente, ele sabia que não era vigiado ou ” gravado “. Isto sim, é sabedoria !

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