Falsas soluções para a dívida, tipo Larry Summers, devem ser evitadas pelo governo do Brasil

Sem saúde não há economia", diz Larry Summers – Marília do Bem

Summers, ex-Harvard,mostra-se complacente com a dívida

Eurípedes Alcântara
O Globo

Atribui-se, sem comprovação, ao economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946) a frase que por décadas vem servindo de desculpa para a falta de coerência de muitos teóricos: “Se a realidade muda, mudam minhas convicções”. Isso não é sempre um problema, pois demonstra sabedoria quem aprende e muda a cabeça pela força dos fatos. Keynes, na verdade, disse algo nessa linha, mas foi bem mais exato: “Quando alguém ou algo prova que estou errado, mudo de ideia”.

Problema mesmo surge quando um economista que é a referência em economia política para toda uma geração muda suas convicções, crendo talvez que, magicamente, mudará a realidade. Falo de Larry Summers, ex-presidente da Universidade Harvard, que pensava bem diferente quando o entrevistei no cargo de secretário do Tesouro dos Estados Unidos, no segundo governo de Bill Clinton.

DÍVIDA SEM FIM – Defensor de políticas fiscais responsáveis, Summers escreveu um artigo recente em que parece ter baixado a guarda ao afirmar que “políticas fiscais expansionistas podem muito bem reduzir os encargos de financiamento da dívida de longo prazo”. Deu um susto em muita gente boa, pois essa guinada equivale, em linguagem que todos entendem, a acreditar que três doses a mais melhoram uma bebedeira ou que, quando se está em um buraco, a solução é continuar cavando.

Para evitar reduzir questão tão complexa a disputas ideológicas entre esquerda e direita, vamos ao contexto. Summers disse isso no momento em que os Estados Unidos bateram um preocupante recorde histórico, com a dívida pública ultrapassando os 100% do PIB.

Sua intenção, na análise benigna de economistas, pode ter sido dar tranquilidade aos detentores de títulos da dívida, evitando, assim, contribuir para a instalação do pânico nos mercados. Summers é economista, mas tem longa história de atuação política, e não seria surpresa se esse foi mesmo seu objetivo.

E O BRASIL? – Para nós, brasileiros, o ponto crucial a levar em conta é que a discussão de gastar mais quando a dívida pública em relação ao PIB já passa dos 100% só faz algum sentido, mesmo que puramente especulativo, no contexto do “excepcionalismo americano”— do país que emite dólares, nunca declarou moratória e para cujos títulos os investidores correm em momentos de insegurança.

Mesmo para os Estados Unidos existe um limite de endividamento público a partir do qual a confiança dos investidores evapora. Exige muita coragem — ou loucura — pagar para ver qual é esse limite.

De toda forma, esse modelo, definitivamente, não é recomendável para países emergentes com histórico de hiperinflação e de sustos no mercado. Como reconheceu o velho e bom Larry Summers pré-pandemia, em artigo no jornal “Washington Post” no ano passado.

DISSE SUMMERS – “Ao contrário do que afirmam os teóricos monetários modernos, não é verdade que os governos possam simplesmente criar dinheiro novo para pagar todas as obrigações a vencer e evitar o calote. Como demonstra a experiência de vários mercados emergentes, depois de certo ponto, essa abordagem leva à hiperinflação”.

O Summers 2020, apesar da aparente concordância com a lassidão fiscal, faz questão de se distanciar dos proponentes da MMT, a sigla em inglês para Teoria Monetária Moderna, que teve seus cinco minutos de glória na voz das candidatas mais à esquerda durante as prévias do Partido Democrata nos Estados Unidos.

A MMT propõe, em resumo, que, se um país emissor da própria moeda conseguir manter sua taxa de crescimento sempre acima da taxa básica de juros, pode se endividar à vontade que não quebra. Se conseguir…

PERGUNTAS – Duas questões então: 1) Caso a dívida de um país possa ser saldada simplesmente imprimindo moeda, por que não dar dinheiro para todos os cidadãos pagarem suas dívidas pessoais?; e 2) O que acontece com uma economia onde a competição e a disciplina de mercado são banidas?

A MMT atrai muitos estudiosos, mas, por falhar em responder às duas perguntas acima e por não ser passível de experimentação prática, aliena a maioria dos economistas sérios.

One thought on “Falsas soluções para a dívida, tipo Larry Summers, devem ser evitadas pelo governo do Brasil

  1. O Economista LARRY SUMMERS, ex Secretário do Dpto do Tesouro EUA e Reitor da Universidade de Harvard – EUA, etç, influente Pensador Político-Econômico, sempre defendeu a Disciplina Fiscal e Monetária.
    Agora com a emergência da Recessão induzida pelo Covid-19, recomenda Política Fiscal e Monetárias expansivas ( aumento do Endividamento Público) para ativar o EMPREGO.

    Nós também estamos fazendo isto com o rompimento do Teto de Gastos e Lei de Ouro, da ordem de +- R$ 700 Bi/2020, para salvarmos o que pudermos de Empresas e EMPREGO.

    Essa é a Política certa nesta Emergência Sanitária, passada a crise, devemos voltar a melhor Disciplina Fiscal/Monetária possível.

    Um País como o Brasil que tem seu Banco Central e emite sua própria Moeda, pode se endividar nessa Moeda, não em US$ Dollar,
    até altos Valores, até atingir o Pleno Emprego.
    Depois do Pleno Emprego a continuação desta Política é fatal, Híper-Inflação.

    É claro que tem que haver perfeita coordenação nas Políticas Fiscal. Monetária, Cambial, etc, e o Governo criar um Clima de CONFIANÇA.

    A China é o melhor exemplo de um País com ótima Política Fiscal, Monetária e Cambial voltadas a CRIAR EMPREGOS PRODUTIVOS. Apesar do seu altíssimo Endividamento Público em Yuan, nunca vai quebrar.

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