Falta a senha na política

Sebastião Nery

Numa noite de chuva, no Ouro Preto do século XVIII, o poeta Alvarenga Peixoto conversava na casa de João Rodrigues de Macedo, quando chegou Vicente Vieira da Mota com um bilhete fechado: “Alvarenga, estamos juntos e venha vosmecê já etc. Amigo Toledo”.

Toledo era o padre Carlos Gouveia de Toledo, chamando para uma reunião na casa do coronel Francisco de Paulo Freire de Andrade. Alvarenga Peixoto deixou a chuva passar e foi. Aquele “etc” era a senha da Inconfidência Mineira, a conspiração libertária contra a prepotência, a violência e a sangria nacional imposta por Portugal contra o povo e as riquezas do Brasil.

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PARTIDOS

A crise política e institucional do País, hoje, onde os partidos já não valem nada, foram reduzidos a meras siglas de compra ou aluguel, apenas para inscreverem candidatos às eleições, sem qualquer compromisso com eles e muito menos com a população, é esta: faltam senhas. Os partidos perderam, venderam ou alugaram suas senhas. Faltam senhas, faltam programas.

Sem senhas, sem programas, os partidos lançam ou apóiam candidatos com os quais nada têm a ver, senão o preço do acordo, o negócio do apoio. E o eleitorado fica sem uma senha, um programa, uma distinção para escolher. São todos iguais no balaio de caranguejos. Nem pelas patas se reconhecem.
A queixa dos jornalistas, de muitos políticos e sobretudo da população, é que não têm a menor idéia em quem vão votar, porque os acordos de partidos não são partidários são financeiros, as alianças não são de programas, são de dinheiro.

Os candidatos um dia são candidatos, no outro já não são mais, porque as legendas em que iam disputar foram negociadas de madrugada e dadas a outros. Se ainda fosse a outros do mesmo partido, tudo bem, ou menos mal. Mas em geral a legenda vai para outro de outro partido ou partido nenhum.

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LULA E FHC

De quem é a culpa dessa androginia dos partidos, que os transformou em entidades emasculadas, sem programa, sem caráter, sem senha, sem “etc”?

De Lula, mas não só de Lula. Do PT, mas não apenas do PT. Nos dois últimos mandatos, Lula e o PT “mensalaram” os partidos, comprando-os e os desmoralizando. Lula e o PT nasceram como esperança, hoje são culpa.

Mas já vem muito lá detrás. Com Sarney, piorou. Com Fernando Henrique, abriram a cancela da probidade pública, da moral republicana. Para comprar a reeleição, Fernando Henrique ensinou como se compra o Congresso. Mas nunca se negocia o voto de todos. Há sempre os que resistem.
Na véspera da convenção nacional do PMDB, em 97, que ia decidir se o partido apoiava ou não a emenda da reeleição, Fernando Henrique chamou ao Palácio da Alvorada o deputado Paes de Andrade, presidente do partido:

– Paes, presida a convenção como um magistrado.

– Como magistrado, não, porque não sou magistrado. Vou presidir com a paixão das convenções do partido, que você bem conhece.

– Paes, como vai ser a convenção? Me ajude, venha governar comigo.

– Não vou ajudar, presidente. Sou contra a reeleição. Só garanto que não vai haver nenhuma irregularidade ou ilegalidade. Mas você vai perder.

Perdeu. Dois terços ficaram contra a reeleição. Mas no plenário, FHC comprou os votos.

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