Falta alguém em Nuremberg

Carlos Chagas

 Em 1945, o restabelecimento da democracia no Brasil aconteceu pouco depois do término da Segunda Guerra Mundial. Na Alemanha e no Japão iniciaram-se os julgamentos dos derrotados, responsáveis por crimes hediondos. Aqui, passou-se uma esponja no derrotado Estado Novo e ninguém foi à barra dos tribunais por haver participado dos excessos praticados desde 1937.

O tribunal que mais atenções despertou reuniu-se em Nuremberg, com os principais líderes nazistas sendo condenados à forca, prisão perpétua e penas variadas. Aqui, tolerância e a leniência foram oferecidas aos derrotados, até porque, não perderam o poder. O general Eurico Dutra, sustentáculo militar da ditadura, foi eleito presidente da República. O ditador, Getúlio Vargas, viu-se eleito senador por dois estados e deputado federal por seis.

Levantou-se uma voz, na imprensa, escrevendo na revista “O Cruzeiro” uma série de reportagens sob o título “Falta Alguém em Nuremberg”. David Nasser, polêmico jornalista, dedicou-se a levantar os horrores praticados durante o regime anterior, centrando as denúncias em Filinto Muller, ex-chefe de polícia e também bafejado pelas urnas, eleito senador por Mato Grosso. A campanha deu em nada, em termos penais, mas emocionou a opinião pública.

Por que se faz essa lembrança? Porque, guardadas as proporções, algo parecido está acontecendo. O julgamento de Nuremberg, versão brasileira e atualizada, já atingiu Antônio Palocci, Alfredo Nascimento e Wagner Rossi. E mais uma centena de altos e baixos funcionários e associados. Só que falta gente para ser denunciada e punida pelo menos com a demissão. Outros ministros e assessores encontram-se na alça de mira da Polícia Federal, do Ministério Público, da CGU e entidades afins. Sem falar da imprensa, funcionando como fator maior de investigação. Falta alguém em Nuremberg, cidade, aliás, com excepcional estrutura de Turismo…

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ESTRATÉGIA CORRETA

A presidente Dilma tem revelado compreensão para com os ministros afinal defenestrados. Demitir, mesmo, só Nelson Jobim, de quem ela exigiu carta de demissão. Quanto a Antônio Palocci, Alfredo Nascimento e Wagner Rossi, ela assistiu o desmonte de suas estruturas políticas e morais sem sugerir que se demitissem. Deixou o leite azedar sem mexer no fogão, até manifestando apreço e confiança em cada um, mas sabendo de antemão que não se aguentariam.

Acresce que as investigações, as denúncias e as prisões aconteceram na esfera do Executivo, do Ministério Público e até do Judiciário, responsável pela autorização de prisões, congelamento de bens e apreensão de documentos.

Alguém cometerá a ingenuidade de afirmar que Dilma desconhecia as investigações? O fato dela ter-se insurgido contra excessos, como algemas e fotografias nas operações, não afasta sua participação em todo o processo.

Na medida do possível, procurou evitar crises partidárias e poupar aliados, mas deixou que a natureza das coisas seguisse o seu curso.

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JOGADA DE RISCO

Arriscou-se o vice-presidente Michel Temer quando na noite de quarta-feira, a pedido da presidente Dilma Rousseff, aceitou indicar o novo ministro da Agricultura. Tirando Mendes Ribeiro da bancada do PMDB, demonstrou que a pasta permanece na cota do partido, até porque, o novo ministro é figura ilibada e competente. O problema é se surpresas sobrevierem, não da parte do deputado gaúcho, mas de assessores que ele levará ou deixará nos cargos. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, diz o refrão popular, desmentido pela física. Seria o que de pior poderia acontecer ao vice-presidente, já preocupado com a evidência de ser muito difícil manter Pedro Novais no ministério do Turismo.

Michel não pode queixar-se de haver sido atropelado por Dilma, mas se ficar no meio da rodovia, em especial em algum cruzamento, corre o risco de receber trombadas.

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TIRO NO PÉ DE QUEM?

O ex-presidente Lula não levou 24 horas para reagir à arapuca armada por seu ex-ministro do Planejamento e atual ministro das Comunicações de Dilma Rousseff. Paulo Bernardo, em entrevista à televisão, levantou dúvida sobre quem seria o candidato do PT ao palácio do Planalto, em 2014, se o antecessor ou a sucessora. Sabe-se lá por que meteu a mão em casa de marimbondo, talvez por ingenuidade, quem sabe pela importância de posicionar-se. Lula acusou a impropriedade do assunto ao afirmar que considerá-lo agora equivaleria a um tiro no pé.

Resta saber no pé de quem. Mesmo em período de alta e explícita exposição política, o ex-presidente não pode dar a impressão de ser candidato, ainda que possa vir a ser. A atual presidente precisa cuidar-se para evitar comparações entre o governo dela e o anterior, um desastre daqui a dois anos e meio, imagine-se agora. Importa evitar que fique todo mundo mancando, não obstante os pés que vem saindo dos sapatos.

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