Famílias sofrem aperto duplo, neste país pobre

O Brasil é PobreFernando Canzian
Folha

A grande maioria da população brasileira é pobre e está sofrendo profundamente (e rapidamente) os efeitos da atual crise.

A pirâmide social é útil mais uma vez para contextualizar o tamanho do aperto pelo qual grande parte da população está passando.  Ela mostra que 61% das famílias vivem com menos de R$ 2.364 ao mês, ou R$ 77,50 ao dia. E que quase 40% (a base da pirâmide), com até R$ 1.576, ou R$ 51,60 ao dia.

Lembrando que esses são totais por família, que tem em média 3,3 pessoas no Brasil. Na base da pirâmide, portanto, as pessoas vivem individualmente com R$ 15,60 por dia. Na faixa acima dela, com R$ 23,50/dia.

Dilma conseguiu a proeza de combinar inflação muito alta com recessão forte. Isso provoca um massacre, vindo de duas frentes, em cima da maioria da população.

A FGV-RJ calcula desde 2004 a inflação para famílias mais pobres, que ganham até 2,5 salários mínimos (R$ 1.970). No acumulado de 12 meses, nunca esse índice foi tão elevado: 10,37% de alta até agosto.

CORROSÃO DIÁRIA

Essa inflação de dois dígitos corrói diariamente a renda dos que já vivem com pouco. Na outra ponta, há uma forte queda no poder de compra por causa do desemprego e do corte que os bancos vêm praticando no crédito concedido às famílias, principalmente às de menor renda.

Economistas da Tendências Consultoria projetam que a alta do desemprego, mais a informalização e a substituição de salários maiores por trabalhadores “mais baratos” levem a uma queda da renda real (já descontada a inflação) de 4,4% neste ano.

Soma-se a isso o fato de a concessão de crédito às famílias (imobiliário incluso) ter caído mais de 7% reais no primeiro semestre, sem perspectiva de aumento.

SEM PODER DE COMPRA

Assim, a projeção de queda do poder de compra das famílias chega a 8% neste ano. Como é difícil parar de gastar a maior parte da renda com itens essenciais como alimentos, transporte e energia, a redução no poder de compra para outros bens de consumo e serviços pode chegar a 12%.

No comércio como um todo, que vinha sendo o motor da economia, as vendas no primeiro semestre tiveram o pior desempenho em 12 anos (-2,2%). O grave agora é que os próprios supermercados passaram a registrar retração (por enquanto leve, de 0,2% até julho) nas vendas de alimentos e produtos de higiene e limpeza.

Esse aperto duplo (via inflação e queda no poder de compra) deve piorar e durar. Reduzindo o dia a dia das famílias à simples sobrevivência.

Nos últimos dias, ensaiou-se a volta da CPMF, do imposto sobre combustíveis e agora o aumento do IR para pessoas físicas. Todas medidas que agravariam ainda mais o aperto das famílias

6 thoughts on “Famílias sofrem aperto duplo, neste país pobre

  1. Para sabermos qual é o padrão econômico do brasileiro, ou da família brasileira é preciso cruzar os dados da Pesquisa Nacional de Amostra em Domicílio contínua (PNAD contínua) e cruzá-los com os critérios da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP).

    Fazendo isso identificamos que o Brasil é um país de gente pobre, mas não extremamente pobre.

    Portanto, a afirmação do articulista de que a grande maioria da população brasileira é de gente pobre é bastante acertada.

    Veja a tabela que nasce do referido cruzamento de dados:

    Unid. da Federação/Rendimento nominal mensal domiciliar per capita/Estrato Social segundo a ABEP
    ———————————————————————————————————————————————-Brasil………………………….R$1.052,00…………………….pobre, mas não extremamente pobre
    ———————————————————————————————————————————————-
    Rondônia…………..…………R$762,00…………………..…….extremamente pobre
    Acre……………………..……..R$670,00…………………..…….extremamente pobre
    Amazonas……………………R$739,00…………………..…….extremamente pobre
    Roraima…………………..….R$871,00………….………..…….pobre, mas não extremamente pobre
    Pará…………………………….R$631,00…………………..…….extremamente pobre
    Amapá…………………………R$753,00……………………..….extremamente pobre
    Tocantins……………………..R$765,00…………………..…….extremamente pobre
    Maranhão…………………….R$461,00…………………..…….extremamente pobre
    Piauí…………………………….R$659,00………………..……….extremamente pobre
    Ceará……………………………R$616,00………………..……….extremamente pobre
    Rio Grande do Norte….….R$695,00…………………..…….extremamente pobre
    Paraíba………………………..R$682,00……………………..….extremamente pobre
    Pernambuco…………………R$802,00…………………..…….extremamente pobre
    Alagoas………………………..R$604,00…………………..…….extremamente pobre
    Sergipe………………………..R$758,00…………………..…….extremamente pobre
    Bahia…………………………..R$697,00…………………..…….extremamente pobre
    Minas Gerais………………..R$1.049,00………………..…….pobre, mas não extremamente pobre
    Espírito Santo……………….R$1.052,00………………..…….pobre, mas não extremamente pobre
    Rio de Janeiro……………….R$1.193,00………………………vulnerável
    São Paulo……………………..R$1.432,00……………..………vulnerável
    Paraná………………………….R$1.210,00…………….….…….vulnerável
    Santa Catarina………………R$1.245,00…………….….…….vulnerável
    Rio Grande do Sul…………R$1.318,00……………..….…….vulnerável
    Mato Grosso do Sul……….R$1.053,00…………….……….pobre, mas não extremamente pobre
    Mato Grosso…………………R$1.032,00……………………..pobre, mas não extremamente pobre
    Goiás……………………………R$1.031,00……………………..pobre, mas não extremamente pobre
    Distrito Federal……………..R$2.055,00……………………..baixa classe média
    ——————————————————————————————————————————-
    Fonte:IBGE – PNAD Contínua 2014 / ABEP.

    Critérios da ABEP (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa):

    – Renda média familiar até R$854,00 é considerado extremamente pobre;
    – Renda média familiar de R$854,01 até R$1.113,00 é considerado pobre, mas não extremamente pobre;
    – Renda média familiar de R$1.113,01 até R$1.484,00 é considerado vulnerável;
    – Renda média familiar de R$1.484,01 até R$2.674,00 é considerado baixa classe média;
    – Renda média familiar de R$2.674,01 até R$4.681,00 é considerado média classe média;
    – Renda média familiar de R$4.681,01 até R$9.897,00 é considerado alta classe média;
    -Renda média familiar de R$9.897,01 até R$17.434,00 é considerado baixa classe alta;
    – Renda média familiar acima de R$17.434,00 é considerado alta classe alta.

    Conclusão: o Brasil é um país de gente pobre, mas não extremamente pobre. Não é um país de classe média. Nunca foi!!!

  2. Para sabermos, bem aproximadamente, o padrão de aperto que a família brasileira está passando, temos que cruzar duas informações. Uma é sobre o grau de comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas junto ao sistema financeiro. Quem oferece esse dado é o Banco Central. A outra é sobre o grau de comprometimento do rendimento das famílias com o pagamento de tributos, a carga tributária suportada pelas famílias. Quem oferece esse dado é o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).

    Já mostramos isso aqui na TI. Vamos aos números novamente:

    (+) comprometimento da renda das famílias com o sistema financeiro….46%
    (+) comprometimento da renda das famílias com a carga tributária………41%
    ————————————————————————————————————
    (=) comprometimento total da renda das famílias…………………………………87%

    Incrivelmente, da renda das famílias, sobram apenas 13% do montante anual para elas pagarem suas contas e fazerem suas despesas de manutenção com habitação, saúde, vestuário, transporte, lazer, comunicação, alimentação e educação.

    Se alguém duvida dessas firmes informações, lembre-se de que ninguém escapa da carga tributária, pois, ou ela incide na fonte – caso do imposto de renda, PIS e COFINS -, ou ela incide sobre o consumo – caso do ICMS, IPI e, indiretamente o IOF.

    Em relação às dívidas com o sistema financeiro, é bom lembrar do consignado como exemplo, que também não se escapa, pois é debitado na fonte.

    Então, se quiser, por uma questão de curiosidade, saber quanto estes 13% que sobram do orçamento das famílias, é só multiplicar por cada faixa de remuneração per capta encontrada na PNAD contínua do IBGE para cada unidade federativa na tabela logo acima para se ter uma ideia de quanto as famílias estão apertadas e o porquê a demanda brasileira contraiu fortemente e seguidamente, já, por quatro trimestres consecutivos; o que, obviamente, fez derrubar o PIB brasileiro, jogando a economia em recessão.

    E é olhando este quadro e entendendo essa sistemática de comprometimento do rendimento das famílias que se compreende a atual recessão de dificílima solução na qual Dilma e Mantega enterraram o Brasil.

    E ainda tem picareta desse governo e da mídia dizendo que a atual situação econômica, aproveitando-se da ignorância do brasileiro, alegando que a recessão ocorre por causa do ajuste fiscal.

    • É preciso considerar, ainda, a pressão inflacionária sobre esses 13% restantes. É preciso aguardar para saber quanto a inflação corroeu do rendimento das famílias. Isso só será possível verificar no final do ano.

      Então, temos três pontos básicos de pressão sobre o rendimento das pobres famílias brasileiras: a carga tributária, o endividamento junto ao sistema financeiro e o efeito corrosivo inflacionário.

      É por isso que não há mais espaço para se aumentar a carga tributária no Brasil.

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