Fantasias e iluses

Carlos Chagas

Comea hoje a temporada de esperana para uns, de frustrao para outros e de mistificao para a imensa maioria da populao. No adianta mascarar de contribuio para a democracia esse horrio de propaganda eleitoral gratuita e obrigatria no rdio e na televiso, que se estender at 30 de setembro.

Podem os candidatos, os marqueteiros, os partidos e os institutos de pesquisa imaginar que vo manipular a opinio pblica, mudar o eixo das preocupaes nacionais ou definir o futuro do pas. Ledo engano. Estaro mesmo abusando da pacincia do eleitorado e criando fantasias por conta de falsas e exageradas mensagens de transformao da vida do cidado comum. No mudaro nada, na medida em que vendero iluses e perturbaro a rotina do eleitor.

Dos pretendentes presidncia da Repblica aos governos estaduais, ao Congresso e s Assemblias Legislativas, poucos acreditaro na prpria capacidade de mudar o mundo. No mximo, conseguiro alterar alguns votos, mas nada capaz de inverter tendncias j esboadas faz muito. Um ou outro candidato a deputado, por exemplo, ter condies de amealhar algum apoio adicional depois de aparecer nas telinhas ou ser ouvido pelos microfones, excees geradas pela excentricidade,o histrionismo ou, quem sabe,o valor de sua pregao. O resto, porm, ser mera perda de tempo e enganao.

Razes que a razo desconhece

Com todo o respeito, mas a pergunta no quer calar. O que pretendem, lanando-se candidatos presidncia da Repblica, Rui Pimenta, Z Maria, Jos Maria Eymaiel, Levy Fidelix e Ivan Pinheiro? Muita gente acrescentaria Marina Silva e Plnio de Arruda Sampaio, apesar do respeitvel vis ideolgico desses dois. Ser que acreditam na possibilidade de eleger-se? Menos pelas pesquisas, mais pelo papel por eles exercido na realidade nacional, desde que se apresentaram sabiam da inviabilidade de suas escolhas pelo eleitorado.

No se cometer a injustia de supor os candidatos referidos atrs de alguns momentos de glria e de discutvel exposio nacional. Tero seus motivos, mas perderam o senso de realidade. Ouvi-los no perodo de propaganda eleitoral obrigatria e gratuita pelo rdio e a televiso ser no mximo curioso.

Plebiscito mesmo

Por sorte, capacidade ou instinto, a verdade que o presidente Lula acertou. A sucesso presidencial transformou-se numa espcie de plebiscito entre o governo dele e a experincia passada dos tucanos, no perodo de governo de Fernando Henrique. Dilma Rousseff, com satisfao, Jos Serra, nem tanto, acomodam-se a essa realidade. As tentativas do ex-governador de So Paulo de levar o debate para o futuro tm-se revelado infrutferas. Interessa menos, nos debates, saber o que os candidatos prometem, mas comparar o que foi feit o. Nesse particular, ganha o Lula, at porque o antecessor j se transformou em lembrana esmaecida do passado. As pesquisas reveladas ontem do a tnica das tendncias. Caso no sobrevenham inusitados ou fatos novos, a eleio est decidida em sua forma plebiscitria.

A corrida j comeou

Fala-se da movimentao verificada tanto no PT quanto no governo, sem esquecer os movimentos subterrneos que emocionam o PMDB. Muito j se especula sobre o governo Dilma Rousseff, caso as previses da vitria da candidata se confirmem.

Entre os companheiros, a expectativa de um ministrio basicamente composto pelo partido, no obstante declaraes da ex-ministra a respeito de ampliar alianas e governar com todos os aliados. O problema que paralelamente ao PT existe um outro valor, seno mais forte, ao menos igual: o governo Lula, quer dizer, aqueles que j ocupam o poder e pretendem preserv-lo. Imaginar os dois grupos unidos em torno de um s objetivo equivale a desconhecer a natureza humana. Tem-se a impresso de um daqueles bailes de gafieira, perto da chegada da polcia: quem est fora no entra, quem est dentro no sai, mxima que contraria pelo menos a metade dos companheiros.

Enquanto isso, o PMDB j define planos, metas e objetivos, em silncio e sem alarde. O resultado das eleies seria outro, na hiptese de o partido ter apoiado Jos Serra, como aconteceu em 2002, ou tivesse lanado candidato prprio. Como maior partido nacional o PMDB prepara suas faturas, que apresentar assim que definido o perfil do novo Congresso.

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