Fascinado pela política externa, Trump acabou enfraquecendo o papel de xerife do mundo

Donald Trump vs. Kim Jong-un - YouTube

Charge do Leandro Franco (Arquivo Google)

Mathias Alencastro
Folha

Para um presidente que se define como ultranacionalista, Donald Trump se mostrou sempre muito interessado, e por vezes até fascinado, pelas tramas de política externa. A sua atitude de desprezo pelas instituições internacionais, tratadas como burocracias decadentes, contrasta com a forma apaixonada com que lidou com outras agendas diplomáticas.

Aos trancos e barrancos, ele redesenhou os jogos de poder em certas regiões do mundo e redefiniu o debate da política externa nos Estados Unidos.

CONFRONTO COM A CHINA – A forma como estabeleceu os termos do confronto entre os Estados Unidos e a China será, sem dúvida, o maior legado do seu primeiro mandato. Pouco importa que a guerra comercial seja inócua ou até contraproducente.

Feito notável, Trump deixou claro para o cidadão médio norte-americano a maneira pela qual os planos de Pequim impactam a sua existência. Daqui para a frente, a identidade dos EUA se construirá em função da China.

O Oriente Médio é outro espaço transformado pelas suas iniciativas. Washington encerrou o ciclo iniciado pela Primavera Árabe com a transferência de poder regional do Egito, transformado em prisão a céu aberto, e da Síria, arrasada pela guerra civil, para a Arábia Saudita e as petromonarquias do Golfo Pérsico.

 

NOVAS LIDERANÇAS – Causa espanto o entusiasmo de alguns com o potencial transformador dessas novas lideranças, mais conhecidas por decepar jornalistas, perseguir mulheres e chacinar populações inteiras, como no Iêmen. Mas deve-se reconhecer que as relações entre Israel e seus vizinhos saíram da inércia depois de décadas.

Em outros casos, Trump destacou-se pela inconsequência ou desinteresse. A diplomacia tela quente na Península da Coreia trouxe pouco mais do que manchetes de jornais sobre cimeiras tão bizarras como fúteis.

Para a desilusão dos teóricos do imperialismo, Trump tratou a América Latina como uma terra insignificante. Até a questão da Venezuela, de alto potencial eleitoral, acabou terceirizada para o senador Marco Rubio e o secretário de Estado, Mike Pompeo.

CONSEQUÊNCIAS – O declínio da influência americana na Eurásia trouxe consequências inesperadas. A União Europeia acabou reforçando sua coesão interna, como se viu nas negociações pelo pacote econômico de luta contra a pandemia. Os charlatões do brexit, que viram ruir o sonho de uma grande aliança com os Estados Unidos, tentam se virar com Canadá e Austrália. No mediterrâneo, os atores regionais já operam em modo pós-Otan, com a Turquia emergindo como a principal antagonista política e militar dos europeus depois da Rússia.

Muitos pensam que, numa eventual derrota de Donald Trump, a ordem internacional irá se reconstituir num estalar de dedos do novo presidente Joe Biden. Isso seria subestimar as consequências dos últimos quatro anos.

A ruptura da diplomacia dos Estados Unidos abriu um espaço inesperado para potências médias consolidarem a sua autoridade. A questão não é saber se os Estados Unidos conseguem retomar o protagonismo, mas se a figura de xerife do mundo, criada por Washington, voltará um dia a existir. ​

7 thoughts on “Fascinado pela política externa, Trump acabou enfraquecendo o papel de xerife do mundo

  1. Não voto naquele antro construído e nutrido com sangue e patrimônio das nações indefesas. Contudo, daqui, fico irradiando as minhas vibrações pandemônicas, a fim de direcionar um Lee Harvey Oswald para o miolo do pirata nuclear, Donald Trump!

  2. Enquanto os EUA tem tropas ou aliviam autoridades pelo mundo todo, a China vem comendo pelas bordas fazendo comércio sempre vantajoso para os dois lados.
    Isso está mudando o mundo e terá consequências. Quais?

    • Se é que a humanidade nasceu condenada a viver sempre sob um jugo macrossistêmico, nada mais “democrático” do que exigir a rotatividade e alternância dos encabrestadores.EUA foi-se; agora, chegou a vez dos chineses.
      Daqui a 70 anos, decerto, já haverá telefonia 5G no inferno. De lá, ligarei aos meus netos e bisnetos, querendo sabe deles: como é ser uma cobaia, vivendo num biotério, sob os cuidados da China?

  3. O demagogo midiático se meteu em muitas roubadas e não saiu vitorioso em nenhuma delas. Disse que acabaria com a Guerra da Criméia e ficou só na promessa. Meteu-se com a China e só prejudicou as empresas americanas. Delegou ao genro um plano de paz que só pode ter sido obra de um lunático, pessoa que parece desconhecer a realidade do conflito. Em fim o demagogo midiático vai sair de cena, espero que o velho senil não meta os pés pelas mãos como o antecessor.

  4. Para entender a realidade dos fatos:

    1) Trump questionou bilhões de dólares que os EUA aplicam na OTAN. Na verdade,os EUA,carregam a OTAN nas costas.

    2) União Européia-Nada mais é do que um ensaio da satânica e insana Nova Ordem Mundial (governo único ditatorial e totalitário mundial-China na proa).
    ONU,OMS,(…),tudo a serviço da NOM.

    PS-Vejam os vídeos no youtube sobre as mordomias que os membros da UE tem em Bruxelas (sede da UE).

    3) Trump prometeu e cumpriu que os EUA deixariam de ser os “xerifes do mundo”.
    Diferente de Bush ,Clinton e Obama que levaram
    à morte milhões de pessoas,com suas guerras (vide Iraque,Afeganistão,Isis,Estado Islâmico,Síria,…)
    Milhares de soldados americanos tiveram suas
    preservadas vidas e milhões de civis também).

    4) América Latina-não somente Trump,mas todos os presidentes anteriores não deram a mínima para a região.Com isso,a China está entrando com tudo.

    5) E os acordos de paz recentemente executados entre Israel e Árabes.Ponto para Trump.

    (…)

    E por aí vai.

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