Fernando Pessoa é pessoa, como imaginava que era

Cristovam Buarque

Comece a ler o livro “Fernando Pessoa, uma quase autobiografia” pela frase: “Assim se contou, com suas próprias palavras, a vida gloriosa de meu amigo Fernando Pessoa”. Porque ela traz um resumo das características inéditas desse livro escrito por Jose Paulo Cavalcanti Filho quase integralmente com as palavras do próprio biografado. E pelo fato de ser um livro de amor, que, como dizia Pessoa, são todas ridículas – e grandiosas, eu acrescentaria. Afinal, para o desavisado parece sem sentido concluir falando da amizade entre duas pessoas que não se conheceram, e grandiosa a percepção de que eles sempre se conheceram e se amaram.

Depois leia o que vem acima dessa frase: um texto com quatro parágrafos, pelos quais Jose Paulo transcreve Pessoa, como se este se despedisse de si próprio.

As últimas páginas são concisas, como no “Aleph” de Borges, em todo o estilo da obra, no qual o autor da biografia parece pedir desculpas por intrometer-se ao escrever sobre a fala do biografado que conversa conosco 77 anos depois de sua morte.

Depois da última página, leia os capítulos anteriores, “Desalento” e “Fim”, nos quais o autor dá sua contribuição passando o máximo de emoção na descrição da despedida final de quem não morreu. Jose Paulo mostra sua grandeza de escritor ao escrever com sua pluma e ao escrever com a pluma do seu amigo biografado.

A partir daí, vá para o início e leia o livro do princípio ao fim. Veja a vida de um poeta que se inicia com a possibilidade de aventuras, com sua viagem inicial acompanhando mãe e padrasto para viver em terras tão distantes, na África do Sul. Mas que se transforma em uma vida cuja única aventura foi unir palavras, compor pensamentos que transmitissem sentimentos, quase sempre livres, surgidos do nada, vindos das distantes “terras” de outra dimensão que ele tentou entender pela iniciação em crenças místicas e iniciáticas, mas cuja metafísica se confunde com a própria vida, misturando o que chamamos de real e o que também é real sob o nome de criação literária, como são reais todos os seus 127 outros heterônomos.

Décadas atrás, quando descobri Fernando Pessoa, pensei que o seu sobrenome fosse um heterônomo também, significando que ele não era Pessoa, era pessoa. Afinal, o nome genérico de pessoa é tão oportuno para um poeta do seu tipo que a realidade nos surpreende ao fazê-lo nascer chamado Pessoa. Ao ler a quase autobiografia, tantas décadas depois, descobri por intermédio do seu “heterônomo” Jose Paulo que de fato Pessoa era muito mais do que um sobrenome.

Obrigado, Jose Paulo, não apenas pelo prazer que nos dá ler o livro; nem pelo que me permitiu conhecer da vida do poeta, nem por mostrar a genialidade de uma biografia escrita com as palavras do biografado; nem pela admiração pelo esforço imenso de suas pesquisas; mas, sobretudo, por me confirmar que Pessoa é pessoa, como eu imaginava que era.

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