FHC compara Dilma ao Doutor Fausto e condena a reforma

Pedro do Coutto

Enquanto a presidente Dilma Rousseff não conseguia consenso no PMDB na escolha de nomes do partido para integrar o governo (reportagem de Júnia Gama, Simone Iglésias  Washington Luiz, em O Globo), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso numa entrevista a Ricardo Balthazar, Folha de São Paulo, comparou-a ao Doutor Fausto, personagem central da Peça de Christopher Marlowe, encenada por volta de 1590, e baseada em contos esparsos alemães sobre mistérios de ciências ocultas. Wolfgang Goethe viria a reescrever a história em 1794. Doutor Fausto, na obra original, vendeu sua alma ao diabo em troca de uma juventude eterna. As duas partes descumprem o pacto.

Fernando Henrique recorreu à literatura e à arte (Fausto virou também uma ópera) para dizer a Ricardo Balthazar que Dilma tentava um compromisso com o demônio para salvar seu governo. Mefistófeles, no caso, seria o PMDB. Por isso, ele sustentou não acreditar no resultado positivo da negociação, pois o problema, disse com razão, não se encontra somente na esfera partidária, mas sim com uma atuação eficiente do Poder Executivo com reflexo direto na população. Oferecer posições ao PMDB, isoladamente, não resolve.

Tampouco o impeachment, em relação ao qual formulou sérias reservas. “Os que desejam o impedimento não construíram até agora uma narrativa convincente. Não só para o Congresso, mas – acrescentou – para o povo”.

CONTAS PÚBLICAS

Se não houver perspectiva de reorganização das contas públicas, não tem solução. O problema é a angústia do tempo. FHC, em certo trecho da entrevista, afirmou que o caminho seria Dilma Rousseff comprometer-se a renunciar dentro de um ano. “Mas – frisou – seria uma utopia”, reconheceu.

Utopia. FHC tem razão. Colocou bem o tema de forma geral e, se a entrevista à FSP fosse um dia depois, como prova de falta de orientação, poderia citar a escolha inicial do deputado Manoel Júnior para o Ministério da Saúde pelo líder da bancada do PMDB, Leonardo Picciani. Manoel Júnior há pouco mais de um mês sugeriu que a presidente da República renunciasse. Como poderia, assim, vir a ser indicado para o posto?

Erro triplo: de Leonardo Piciani, do próprio parlamentar que se considerou apto, e, acima de tudo, da própria presidente Dilma que não conseguiu informações prévias a respeito da sugestão e do sugerido. Onde estava sua assessoria? Onde se encontrava sua equipe no Palácio do Planalto? São perguntas obrigatórias sobretudo no meio da tempestade.

MORO NÃO CAI NA ARMADILHA

Em São Paulo, quinta-feira, em almoço com empresários promovido pelo grupo Lide, o juiz Sérgio Moro evitou qualquer pronunciamento a respeito da decisão do Supremo tribunal Federal que pode funcionar para dividir, pelo menos uma parte das investigações da Operação Lava-Jato. Revelou serenidade e firmeza que se refletem na certeza de que está correto em sua atuação. O Globo publicou esta matéria também na edição de sexta-feira.

Assim agindo, deixou evidente que não está disposto a, pela emoção, deixar-se cair numa armadilha. Não se irritou. Sua resposta ao STF foi feita através de seu comentário sobre a lentidão da Justiça. Tal lentidão é um fato, caminho para tornar inócuos muitos julgamentos e, com isso, absolver culpados pelo passar do tempo.

9 thoughts on “FHC compara Dilma ao Doutor Fausto e condena a reforma

  1. A “justiça” é lenta porque interessa ao sistema, logo ao poder dos jogos de interesses empresariais. Contra os pobres geralmente é mais rápida.

  2. FHC não é tratadista para ser citado. Saiu no segundo mandato com índices baixíssimos de popularidade, fruto de um governo neoliberal e privatista.

  3. A presidente da República fez um discurso em que afirma que o Ceará inaugurou o Brasil. O Ceará foi onde o Brasil começou, disse ela.

    Atenção, MEC: reimprimam-se todos os livros escolares: a primeira capital do Brasil foi Fortaleza.

    O discurso foi feito em abril. Há uns quatro meses. Só fiquei sabendo dele agora, esta semana. Augusto Nunes colocou o vídeo no blog dele.

  4. Febeapá da Dilma mostra que Lula estava meio certo

    Lula vivia a repetir que ter diploma universitário não era requisito para ser um bom presidente da República. Mas qualquer pessoa de bom senso sabe que é, sim, do mesmo modo como acontece com todas as funções que exijam alguma competência em lidar com números, expressar-se com clareza e resolver problemas práticos. E as gestões dele confirmaram que sua competência estava apenas em fazer aquilo que qualquer populista faz, com ou sem diploma: falar besteiras, esbanjar demagogia, fingir que cumpre promessas, aplicar a lei de forma casuísta, atacar a imprensa independente, atribuir-se méritos e feitos que não são seus, difamar os inimigos, perdoar aliados pegos com a boca na botija, desconversar sobre o enriquecimento de seus parentes diretos e distribuir cargos públicos na base do mais primitivo “é dando que se recebe”.

    Mas não vou fazer aqui uma antologia de bobagens ditas pelo Lula – como aquela conversa de que a poluição atmosférica não seria problema se a Terra fosse quadrada (!) – , pois a internet já está bem servida disso. Vou apenas lembrar algo que também não é mistério nenhum, qual seja, que nem por isso tudo seria correto achar que um diploma universitário é prova suficiente de competência para exercer um cargo tão importante.

    É justamente aí que entra a contribuição de Dilma Rousseff ao Festival de Besteiras que Assola o País – Febeapá. Ela se formou em economia pela UFRGS em 1977, mas a sua incapacidade de articular pensamentos, o vazio de ideias inteligentes em seus discursos e as besteiras que diz são tão constrangedoras que, como conclui o jornalista Celso Arnaldo Araújo, permitem avaliar que ela realmente não domina os assuntos dos quais trata. Para mostrar isso, preparei uma pequena seleção de besteiras da Dilma, acrescidas de alguns comentários impagáveis desse jornalista. As falas da Dilma estão em itálico, e o link para os artigos dos quais tirei essa coletânea está aqui.
    “O meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável”. Bom, essa dispensa comentários.

    “Estamos aqui torcendo para que essa Olimpíada que vai começar, que já começou, que nós, aliás, começamos com o pé direito, muito bem começado, e estamos agora, inclusive, continuando esse começo de vitória”. Essa também dispensa comentários.

    “Em primeiro lugar, vai olhá pro seu povo, pra suas, pra suas, pra sua população, pro seus brasileiros e pra suas brasileiras. Um abraço no coração. E um beijo também”. Nunca antes na história deste país uma presidente falou desse jeito.

    Se você deu uma sapeada na Rio+20 e saiu com a mente poluída, preste atenção na minipalestra que antecede a coletiva da presidente – e se ilumine. Aprenda, entre outras coisas, que a conferência “avançou até onde estamos”. Que cada país “é diferente de outro”, e que, “introduzindo a questão dos fundos, o Brasil põe o que quer, cada um põe o que quer” .

    “É assim: a parte francesa fala uma coisa, a parte brasileira fala outra”; “A conferência das partes é uma conferência entre nações e países”. Coincidentemente, a ONU é mais ou menos isso. Vivendo e aprendendo: e você que pensou que conferência das partes só era realizada nos Países Baixos?
    Ao falar sobre o financiamento ambiental de países economicamente mais frágeis por parte das nações mais desenvolvidas ela lamenta que nessa condição estejam alguns países da África, as pequenas ilhas “e os países que estavam ameaçados de consequências danosas por desastres naturais, inclusive alguns que ficavam submersos em alguns momentos”. Dilma não declinou os nomes desses países anfíbios, provavelmente no Pacífico, e vítimas ocasionais do derretimento das calotas polares.

    “A gente quando sai deste país fica muito triste, mas, é, porque o Rio e o Brasil são, é um país muito bonito. Mas quero te assegurá que a América Latina também, e o México, porque eu tive em Los Cabos, é um lugar, tem hora que cê olha assim e fala é por isso que temos essa proximidade, porque praias lindas, etc. E eu tenho certeza que Mendoza é um lugar desses também”. A cidade de Mendoza, na Argentina, fica ao pé da Cordilheira dos Andes…

    “Nós sabemos que tem várias coisas que o governo federal tem o poder de fazer no plano federal”. No discurso feito na XV Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, tentando mostrar que, aos 16 meses de governo, já descobriu para que serve uma presidente da República.

    “Eu acredito que a questão da casa própia (sic) é uma questão muito importante na vida das pessoas. Ela reúne a relação que nós temos com os nossos filhos, com a nossa família e com os nossos amigos. Então ela é um espaço onde a gente constrói o lar e a proteção. E ao mesmo tempo ela mostra a nossa capacidade de viver e de morrer “. É o caso de perguntar: seria exagero incluir esse parágrafo naquelas antologias de pérolas do ENEM ou do vestibular que circulam na internet? Seria exagero concluir que a presidente Dilma não tem a mais remota noção do que está falando? O ponto mais assustador dessa falação sem nexo é nos mostrar que, dentro da casa, somos mortais. Quererá isso dizer, por linhas tortíssimas, que muitos inscritos no Minha Casa, Minha Vida morrerão antes de poder viver nela?

    “É uma questão de um compromisso de estado do meu governo com as crianças de 0 a 6 anos desse país, principalmente as de 0 a 3, porque as de 4 a 5 é obrigação a universalização. Onde qui não é obrigação? Não é obrigação as de 6 a 3”. Buscando aplausos ao tentar descrever as crianças etéreas, de idades indefinidas, que frequentarão as creches por enquanto fantasmas de seu governo.

  5. FHC é uma cara de pau, decrépito e senil. Não pode criticar Dilma, porque também vendeu a alma ao Diabo para comprar a emenda da reeleição, praticou o mesmo estelionato eleitoral que Dilma cometeu em 2014, ao afirmar na campanha de 98 que não desvalorizaria o câmbio. Ele não tem autoridade moral nenhuma para criticar quem quer que seja. Devia ficar calado e fazer o que Raul Seixas disse sobre esperar a morte chegar.

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