Flamengo atrasa salários: desrespeito com os atletas e a torcida

Pedro do Coutto

Realmente, como revelou a reportagem de Marluci Martins, em O Globo de terça-feira 17, o Flamengo infringe a lei e, ao mesmo tempo desrespeita a sua imensa torcida e os próprios atletas profissionais, atrasando por vários meses o pagamento de seus salários e direitos de imagem.

A presidente do clube, Patrícia Amorim, na entrevista embutida na matéria, reconhece a situação alarmante, ao dizer que a folha de dezembro será depositada até o próximo dia 25. A folha de dezembro, mas e as outras folhas que se encontram à espera de quitação? Ronaldinho Gaucho, Alex Silva e Deivid, entre outros, são vítimas de um processo de dasadministração.

A torcida do Flamengo, única torcida nacional do país, merece, além de uma explicação, maior consideração. Ela, efetivamente, é a base do marketing usado pelo Flamengo para firmar os contratos que conseguiu. Mas não soube administrá-los de forma eficiente. Tanto não soube que Patrícia Amorim sustentou que a empresa Traffic, de forte presença no plano comercial do futebol, não paga há cinco meses a maior parte dos salários de Ronaldinho. Sua dívida, acrescentou, já atinge 3,7 milhões de reais.

Como pode acontecer uma coisa dessas? No primeiro mês de atraso, a presidente do Clube já deveria ter começado a agir. Atrasar salários é sintoma clássico de situação difícil de recuperar.

A Traffic certamente assumiu o compromisso de pagar a maior parte dos vencimentos mensais de um milhão de dólares contando com o retorno publicitário. Claro. A empresa não tem, tampouco poderia ter, caráter beneficente. Ela tem o lucro como objetivo. Até aí tudo bem. Só que as atuações do Flamengo, como time, e de Ronaldinho como estrela principal do elenco da Gávea, não motivaram os verdadeiros patrocinadores que, a meu ver, até o momento são ocultos.

A Traffic executa tarefa de intermediação. Ela não banca o risco. Em síntese: não põe o dinheiro dela no fogo. No futebol, em particular, e na vida, de modo geral, as intermediações têm vida curta. Surgem, dão lucros a alguns espertos, e se evaporam. Voláteis deixam sempre em seu rastro nuvens de dívidas. E dúvidas, muitas. No fundo não  se tornam transações claras, e legítimas.

Ao contrário. São marcadas pela ilegitimidade e, não raro, pela ilegalidade. Tanto assim que são realizados contratos milionários. Mas os clubes permanecem mergulhados num endividamento impossível de recuperar. O Flamengo deve em torno de 300 milhões de reais. O Fluminense até pouco mais. Uma dívida de 300 milhões é irresgatável. Vamos supor, por baixo, juros mensais de 2%. São seis milhões apenas para girar o débito. Porém falar em 2% é apenas para acertar a impossibilidade. Pois aos juros tem que se acrescentar a folha mensal – que no caso do Flamengo está atrasada – tem que se considerar o IPTU que não é pago, o INSS e o FGTS que não são recolhidos, os direitos de imagem dos jogadores que não são levados em consideração.

Não me refiro aos direitos específicos da publicidade apenas. Há outros direito estabelecidos.A própria Dilma Roussef sancionou uma lei no início de seu governo envolvendo o esporte profissional, em que está prevista a participação dos atletas na percentagem de 3% sobre a receita proporcionada pela televisão. Esta lei espera regulamentação, creio. Já que, pela lógica, os 3% deverão ser divididos pelos que atuaram nas equipes, incluindo os que entraram no meio das partidas no lugar de outros.

São questões todas essas a serem levadas em conta. Principalmente pelo rubronegro que está ocupando com destaque páginas dos jornais pelo fato de não cumprir contratos trabalhistas que assumiu que empresas firmaram com o clube. O que fez e faz uma bela e eterna história no futebol brasileiro.

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