Franceses vaiam o primeiro-ministro, por afirmar que o atentado era “inevitável”

Ao chegar à cerimônia fúnebre, Valls foi vaiado pela multidão

Carlos Newton

O noticiário vindo da Europa relata que os franceses prestaram uma homenagem nesta segunda-feira às vítimas do massacre de Nice e fizeram um minuto de silêncio diante do Monument Du Centenaire, próximo à Avenida Promenade Des Anglais, onde ocorreu a tragédia. Líderes franceses, prefeitos e representantes diplomáticos compareceram à cerimônia. O primeiro-ministro da França, Manuel Valls também foi ao evento, mas recebeu vaias do povo ao chegar ao local e gritos para que ele “trocasse de emprego”, por ter afirmado que o ataque era inevitável.

É esse o ponto principal da questão. No dia seguinte ao atentado da festa do 14 de Julho, o jurista Jorge Béja escreveu um artigo aqui na Tribuna da Internet mostrando justamente o contrário – o ataque do terrorista islâmico poderia ter sido evitado e jamais teria acontecido aqui no Brasil em evento de muito maiores proporções, que é o Rèveillon em Copacabana.

No artigo, Béja responsabilizava o governo da França pelo ocorrido, justo pela falta de segurança preventiva, com críticas frontais à polícia e às forças armadas do país. O jurista, que há décadas tem residência no Rio de Janeiro e em Paris, explicou que a polícia e o serviço de inteligência da França são muito fracos, com falta de rigor no cumprimento de normas báscias de segurança e excesso de gentilezas.

Lá é tudo é ‘merci”, s’il vous plâit, pardon… délicatesses et plus délicatesses. Cependant, la défense de la population… rien… rien…” – ironizou Béja.

E o fato é que aora o povo da França começa a reagir. Os dois artigos que Béja escreveu a respeito aqui na Tribuna da Internet foram vertidos para o francês e enviados ao jornal “Le Monde”. Não sei se foi publicado. É possível que sim. É possível que não. Vamos aguardar.

9 thoughts on “Franceses vaiam o primeiro-ministro, por afirmar que o atentado era “inevitável”

  1. Que esse ataque foi primário foi, mas o fator surpresa muitas vezes ajuda.
    Quanto a evitar ataques , isso depende muito do dinheiro que está envolvido. No Rio mataram o filho de um bicheiro ao invés de matar o pai, simplesmente porque ele resolveu dirigir no lugar do pai.
    Esse bicheiro estava em um carro blindado, mas a explosão veio do assoalho do carro e arrancou somente o lugar do motorista. Foi um ataque reverso com C3, coisa que nem os nossos militares sabem fazer.

    • Ajuda sim, e muito. Pense no ataque de 11 de setembro -quem esperava que aviões de passageiros fossem usados como bombas? O do caminhão, se não tivesse sido feito antes na França, alertando agora as forças de segurança, funcionaria no reveillon do Rio – ninguém estaria esperando esse tipo de ataque, e as barreiras da polícia não conseguiriam deter um caminhão em disparada. E se ele ultrapassasse as barreiras não haveria ninguém dentro da multidão capaz de atirar e matar o motorista antes que muita gente tivesse morrido.
      A única maneira de evitar um ataque terrorista é saber dele antes que seja feito. Existe um dito muito conhecido das forças de segurança que diz que é quase impossível evitar um assassinato quando o assassino estã disposto a morrer.
      E quanto à polícia francesa, presenciei dois incidentes de suspeita de bomba, um em Paris e outro em Marselha, na Copa do Mundo de 98, e a ação das forças especiais francesas não teve nada de gentileza, muito pelo contrário, foram bem truculentos. Isso já naquela época.

      • Concordo, o fator surpresa é muito importante. Não dá para se comparar a realidade do Rio, ou de outra cidade do Brasil com o de lá.
        Na Bélgica, antes do ataque aquela escola, a polícia usava os armamentos pesados no porta malas do carro, pois não utilizavam nunca.
        Agora mesmo nos EUA os ataques a policiais estão pegando a todos de surpresa, sem contar com o fator fundamental, quem acha que a morte é uma ‘glória’, arrisca tudo.

      • Wilson, nada a fazer contra quem está disposto a morrer, também acho. A não ser matar o agressor antes que ele faça alguma coisa.

        No 11 de Setembro eu estava dentro da C&A. Era de manhã. Já se comentava que um avião tinha ‘batido’ em um prédio nos EUA.

        Cheguei em casa, liguei logo a TV. E com meu pai vi o horror em sequência que todos viram.

        Não acredito, Wilson, que o terrorismo possa ser evitado. Não mais. Mata-se um terrorista, surgem dezenas deles.

        Contra esses gestos homicidas não há solução. Eu diria que não são extermináveis, todos. Não são.

        E obrigada por seu comentário mais atrás, sobre o abraço. A faxineira veio hoje e passei o dia todo por conta da presença dela.

        .

  2. Confirmado: os franceses não confiam mais no presidente Hollande nem no primeiro-ministro Manuel Valls e querem a renúncia dos dois. A notícia antecipada ontem aqui na Tribuna da Internet, em artigo do nosso editor, jornalista Carlos Newton, é matéria de grande destaque hoje no mundo. “Há uma fúria no país, com a sensação de que o Executivo não está à altura e que o presidente autoproclamado protetor da nação é, na realidade, incapaz de protegê-la”, disse o cientista político Frédéric Dabi ao “Le Figaro”.
    Para o ex-presidente Nicolas Sarkozy, “não existe risco zero, mas tudo que deveria ter sido feito ao longo dos últimos 18 meses, não foi feito. Serão eles ou nós. É preciso uma guerra total contra os inimigos da França”.
    Quando o assunto é o terrorismo não existe mesmo risco zero. E é justamente pela falta dessa garantia que as forças de segurança de todos os países precisam estar prevenidas com pessoal, tecnologia, inteligência e o melhor dos armamentos, dia e noite, noite e dia, em todos os lugares, permanentemente, sem cessar, a todos visíveis, sem intervalo e para sempre. A paz, mesmo que razoável e relativa, está muito distante de ser alcançada nos quatro cantos do mundo.
    MAU EXEMPLO – E lá na França, o serviço de inteligência e toda a polícia nacional não servem de bom exemplo. Em dois artigos anteriores, aqui recém-publicados, foram expostas, de forma sucinta, as razões dessa conclusão. Não se sabe se é porque aprendemos que a França é o berço da cultura, da civilidade, do saber, da igualdade, da fraternidade e das liberdades — princípios e práticas que se opõem a lutas e combates e que retratam e se harmonizam com a paz — ou se é porque o que lá existe é frouxidão mesmo. Frouxidão e inteligência zero.
    É por causa dessa “bobeira”, “apatia” e “pasmaceira”, numa inação que parece agora que os franceses não aguentam mais, que França e Bélgica são irmãs gêmeas univitelinas. Permanece vivo na memória o ataque ao Charlie Hebdo. Um dos terroristas foi perseguido por cerca de 30 mil policiais (e militares) franceses até ser encontrado dentro de uma fábrica desativada nos arredores de Paris. As televisões mostraram. Ao vivo e em cores. Estava sozinho. A energia elétrica foi desligada e a água cortada. Nada mais fácil do que prender o terrorista, sem disparar um tiro. Ele não resistiria muitos dias. Ou se entregaria, ou cometeria o suicídio, ou morreria por desnutrição. Durasse o tempo que fosse, o inteligente era a sua captura. E a burrice, matá-lo.
    É MUITA BURRICE – Afinal, eram 35 mil policiais contra um só bandido, localizado, cercado e rendido por um exército de homens fortemente armados. Ele não oferecia mais perigo. Mas a “inteligência” francesa não entendeu que apanhá-lo vivo é que era o importante, para dele obter informações e submetê-lo a julgamento. Mas prevaleceu a burrice. O tal sujeito foi metralhado. E assim morreu. Eis o serviço de “inteligência” da França.
    Chora-se a morte de muitas e muitas vítimas, resultantes dos últimos atentados, em Paris e agora em Nice. “Nunca mais volto aqui”, declarou Maria Inês, a brasileira e carioca do bairro de Olaria, que mora na Suíça e estava entre a multidão no Passeio dos Ingleses em Nice, na noite do 14 de Julho. Maria Inês perdeu a filha, casada com um suiço e a pequena neta. “Tiraram meu tapete. Agora vou ter que recomeçar tudo de novo. Arrancaram um pedaço de mim”, disse Maria Inês.
    Eu também. Nunca mais volto lá.
    PÁTRIA DOS GÊNIOS – Lá, a pátria do professor Rivail (Kardec), de Jeanne D’Arc, de Victor Hugo, de Cesar Franck, de Camille Saint-Saëns, de Racine, Voltaire… de Piaff e tantos e tantos outros vultos que deram continuação ao rumo da Humanidade. A pátria que o polonês Frédéric Chopin adotou quando tinha 19 anos, dela nunca mais saiu e nela morreu com apenas 39 de idade. Eu também não volto mais lá.
    A propósito: por falar em voltar à França (Paris, no caso) me veio à mente uma viagem singular. Corriam os anos 70. Foi quando sugeri ao museólogo e carnavalesco Clóvis Bornay que fosse à Paris e desse de presente ao Museu do Louvre, ou ao Museu Nacional Moyen-Age ou ao d’Orsay a primorosa fantasia de Luis XIV, que suas delicadas e hábeis mãos confeccionaram aqui no Rio, em Copacabana. Ele aceitou e foi. Fomos nós: ele e eu.
    CLÓVIS BORNAY – Foram quatro dias em Paris. Tudo por minha conta. Viagem solitária, sigilosa, sem divulgação e sem espalhafato, como ele próprio pediu. Clóvis era disciplinado. Não costumava ir dormir tarde. Ficamos hospedados numa propriedade de minha família, vendida anos e anos depois e o produto da venda doado a uma instituição internacional de socorro a vitimados de guerras. Café da manhã, em casa. Almoço e jantar nos restaurantes. Mostrei-lhe Paris. A fantasia foi doada. Detalhista e de grande cultura, Bornay reparou que uma das roupas de Luis XIV expostas, salvo engano, no Louvre parecia não ser a original do chamado Rei Sol:
    “Naquela época o ponto da costura, o plissado e o esplendor (aquela parte alta, pesada, em quase circunferência e que emoldura a cabeça do rei) eram mais delicados e de acabamento artesanal. Em todo caso vamos acreditar que esta da vitrine seja a verdadeira”, reparou Bornay.
    No regresso, já dentro do avião, perguntei: “gostou de Paris e pretende voltar?”. “Gostei. Mas não pretendo voltar. Achei os franceses impregnados de ‘remplis de soi-même’. Prefiro o Rio, nossa gente e nossas mulatas. Sou do samba. Copacabana é o meu lugar. A (rua) Prado Junior e seus quarteirões são mais animados, mais movimentados e mais quentes do que o Quartier Latin e o Boulevard St-Germain”.
    E naquela época nem existia ataque terrorista! Tudo era tranquilo e sem medo! Hoje, Clóvis Bornay (10.1.1916 – 9.10.2005), nem aceitaria ir lá pela primeira vez. Com certeza.

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