Francisco de Assis pode inspirar Francisco de Roma

Leonardo Boff

Cresce mais e mais a consciência de que entramos numa fase perigosa da vida na Terra. Nuvens escuras nos ocultam as estrelas-guia e nos advertem para eventuais tsunamis ecológico-sociais de grande magnitude. Faltam-nos líderes com autoridade, palavras e gestos convincentes que despertem os seres humanos para o destino comum da Terra e da humanidade e para a responsabilidade coletiva e diferenciada de garanti-lo para todos.

É nesse contexto que a figura do bispo de Roma, Francisco, poderá desempenhar um papel de grande relevância. Ele, explicitamente, se religa à figura de são Francisco de Assis. Primeiramente, pela opção clara pelos pobres, contra a pobreza e pela justiça social. Essa opção, bem o viram teólogos da libertação, inclui dentro de si o Grande Pobre, que é nosso planeta superestressado, pois a pisada ecológica da Terra já foi ultrapassada em mais de 30%. Isso nos remete a um segundo ponto: a questão ecológica. Como devemos nos relacionar com a natureza e com a Mãe Terra? É nesse particular que Francisco de Assis pode inspirar Francisco de Roma. Há elementos em sua vida e prática que são atitudes geradoras.

Todos os biógrafos do tempo atestam “o terníssimo afeto que nutria para com todas as criaturas”; “dava-lhe o doce nome de irmãos e irmãs, de quem adivinhava os segredos, como quem já gozava da liberdade e da glória dos filhos de Deus”. Recolhia dos caminhos as lesmas para não serem pisadas; dava mel às abelhas no inverno para que não morressem de frio ou de escassez; pedia aos jardineiros que deixassem um cantinho livre, sem cultivá-lo, para que aí pudessem crescer todas as ervas, inclusive as daninhas, pois “elas também anunciam o formosíssimo Pai de todos os seres”.

Aqui, notamos outro modo de estar no mundo, diferente daquele da modernidade. Nesta, o ser humano está sobre as coisas como quem as possui e domina. O modo de estar de Francisco é colocar-se junto com elas para conviver como irmãos e irmãs em casa. São Francisco está mais próximo dos povos originários, que se sentem parte da natureza que dos filhos e filhas da modernidade técnico-científica.

Toda modernidade se construiu quase que exclusivamente sobre a inteligência intelectual; ela nos trouxe incontáveis comodidades. Mas não nos fez mais integrados e felizes porque colocou em segundo plano ou até recalcou a inteligência emocional ou cordial e negou cidadania à inteligência espiritual. Hoje, faz-se urgente amalgamar estas três expressões da inteligência se quisermos desentranhar aqueles valores e sentimentos que têm nelas o seu nicho: a reverência, o respeito e a convivência pacífica com a natureza e a Terra. Essa diligência nos alinha com a lógica da própria natureza, que se consorcia, inter-retroconecta todos com todos e sustenta a sutil teia da vida.

Francisco viveu essa síntese entre ecologia interior e ecologia exterior, a ponto de são Boaventura chamá-lo de “homo alterius saeculi” – “um homem de um outro tipo de mundo”, diríamos hoje, de outro paradigma.

Essa postura será fundamental para o futuro da nossa civilização, da natureza e da vida na Terra. O Francisco de Roma dever-se-á fazer o portador dessa herança sagrada, legada por são Francisco de Assis. Ele poderá ajudar toda a humanidade a fazer a passagem desse tipo de mundo que nos pode destruir para um outro, vivido em antecipação por são Francisco, feito de irmandade cósmica, de ternura e de amor incondicional.

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