Francisco e Josué

Ricardo Dantas Faria

A eleição do papa Francisco e todo o simbolismo envolvendo o nome que o cardeal Bergoglio determinou ser chamado, além da isenção de vaidades um tanto incomum entre seus pares, trouxeram novamente à tona o maior drama de nossa sociedade – a pobreza.

Veio-me logo à lembrança uma das figuras mais injustiçadas deste nosso Brasil, e que foi muito mais além nessa questão. Um intelectual cujo trabalho não se restringiu ao conforto dos gabinetes, e que teve a coragem não de se ater aos pobres de um modo corriqueiro, mas de trazer à baila, em toda a sua crueza, a miséria e o fenômeno da fome que, conforme por ele mesmo assinalado, era alvo do silêncio conspiratório da elite social do país.

Refiro-me a Josué de Castro. Relendo seus textos, sou afetado por um misto de admiração e angústia.

Admiração por alguém que ousou, do alto do seu saber, denunciar sem medo de réplica o palavreado inútil dos estudiosos de até então, por demais distantes do que, em verdade, interessava aos famélicos – dar um fim a desgraça de cada dia, materializada na dor da fome que transcendia o físico e, simultaneamente, corroía a alma.

Angústia, porquanto passados mais de sessenta anos, a rigor nada mudou. Nada! Perdoem-me os que acreditam que as bolsas disso e daquilo são uma solução Porque a cada vez que vejo crianças brincando na terra seca entre carcaças de animais, “alimentando-se”, quando muito, de um pouco de garapa, meu sentimento imediato é o de repulsa. Repulsa porque compartilho, com os que têm o poder de fazer algo e não o fazem, a qualidade de humano. E um sentimento de impotência que, por piegas que pareça, tende a me levar, num átimo, das lágrimas à raiva. Raiva de certos cínicos que sabem que, para assenhorar-se do poder, nada oferecem além de paliativos – afinal, é do desespero de muitos desses humildes que eles obtêm a sua eternização na política.

Que olhemos para trás. Que não sucumbamos à falácia de que o Brasil é o país do futuro, porque o futuro, a rigor, é uma incógnita para seres e nações. Que voltemos o nosso olhar, mesmo que brevemente, para o passado E que não deixemos morrer a obra de tantos que foram silenciados porque chegaram tão perto da verdade, e cujas sementes continuam aí, ainda possíveis de se semear.

Reflitamos. Às vezes dói. Mas nos revigora.

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