François Hollande e a batalha contra o ‘capitalismo alemão”

Eduardo Febbro

PARIS – François Hollande não teve tempo de provar o traje presidencial. Logo após ser eleito, a Alemanha ativou sua ofensiva contra o novo presidente francês para freá-lo em suas tentativas de renegociar o pacto fiscal europeu com o qual Berlim impôs aos países da União Europeia uma camisa de força de ajustes e austeridade. A vitória de François Hollande contra o liberalismo de arrochos de Nicolas Sarkozy e da chanceler alemã vai redesenhar o mapa da Europa. Berlim, porém, resiste a que Paris modifique a orientação econômica de seus aliados da União Europeia. O respaldo que os franceses deram à candidatura de Hollande é também um « não » à forma pela qual estava se construindo a Europa.

A França, quinta potência mundial e segunda economia da Eurozona, tem agora como presidente um homem que desde muito cedo questionou a filosofia alemã do ajuste sem crescimento. Hollande conquistou a maioria com um programa de corte progressista baseado nas ideias de justiça social, Europa, educação, trabalho e juventude. A reforma bancária, a fiscal e a renegociação do tratado orçamentário idealizado pela Alemanha são os eixos do seu programa. O questionamento do pacto fiscal europeu e os ajustes e a austeridade que o acompanham foi a medida que lhe deu mais credibilidade.

Hoje, essa opção configura o primeiro confronto com o capitalismo alemão.
Angela Merkel enviou uma primeira mensagem : a responsável alemã disse que receberia Hollande « com os braços abertos ». A frase, amável, tem seu contraponto acrescentado pelo portavoz do governo alemão, Steffen Seibert, que explicou que o pacto fiscal era « inegociável ». Enrique Barón Crespo, eurodeputado socialista, disse à Carta Maior, que a palavra « inegociável não figura no dicionário da União Europeia ». A imprensa alemã alega que a linha de austeridade de Angela Merkel ficou enfraquecida pelas derrotas dos candidatos governistas na França e na Grécia.

O socialista francês armou uma bomba relógio quando propôs que o Banco Central Europeu tenha um novo papel, que, ao invés de emprestar dinheiro aos bancos a 1% para que estes emprestem a aos Estados com um juro maior, trate diretamente com os Estados. Além disso, propôs uma taxa sobre as transações financeiras, que o banco Europeu de Investimentos (BEI) dê crédito para as empresas e que se criem eurobônus para financiar as infraestruturas.

A palavra eurobônus faz a chanceler alemã congelar de raiva. Esta medida supõe que a dívida se torne comunitária. Hollande quer que o crescimento e o emprego sejam uma questão institucional europeia e não só a férrea disciplina no gasto público que impõe o pacto orçamentário. « Eu vou renegociar o pacto. Merkel sabe disso », disse Holande. O presidente eleito quer uma Europa mais fiel às origens da construção europeia, ou seja, mais humanista, menos tecnocrática, menos obediente aos humores e interesses dos mercados, orientada para as necessidades humanas e não unicamente as do sistema financeiro. Até algumas semanas, nenhuma dessas medidas agradava a Alemanha.

A maioria obtida por Hollande e o apoio a suas ideias que começou a vir de outros governos, inclusive adversários, desenha uma mudança, talvez menos brusca do que aponta o discurso do François Hollande candidato.

O seminário britânico The Economist qualificou as ideias de Hollande de « perigo para a Europa ». Não obstante, com o passar dos dias, muitos analistas apoiaram o novo presidente em sua ideia de colocar sobre a mesa a variável do crescimento. « Há muitos dirigentes europeus que estão agurdando o resultado das eleições francesas para iniciar uma nova discussão », disse Hollande há alguns dias. Angela Merkel deu total apoio a Nicolas Sarkozy durante a campanha eleitoral e até se negou a receber François Hollande quando ele era candidato. Agora lhe abrirá as portas como presidente e terá que negociar uma agenda distinta daquela que vem impondo há anos : renegociar o pacto fiscal, estabelecer um pacto de responsabilidade e crescimento com o objetivo de escapar da recessão e diminuir o desemprego.

Na visão de Hollande, a Europa tem que ser o motor do crescimento e não seu coveiro. Para isso, é preciso implementar um plano de investimentos massivo que tire os cidadãos do poço. A visão sobre o crescimento de Merkel e Hollande são diametralmente opostas : na visão dos alemães, o crescimento passa por mais reformas estruturais – a do mercado de trabalho, por exemplo –e nãoe por investimentos massivos, que é a opção de Hollande. Berlim assegura que embora o pacto fiscal seja inegociável, em troca, pode discutir o crescimento. Mas a forma pela qual coloca esse debate se dá segundo os critérios da Alemanha. O hegemonismo de Berlim em defesa de seus próprios interesses não leva em conta a vontade popular.

No ano passado, quando o ex-primeiro ministro grego Girogos Papandreu propôs um referendo antes de se submeter aos ditames do Fundo Monetário Internacional e à troika europeia, a Alemanha disse que as eleições « eram perigosas ». Alguns dias depois, Papandreu apresentou sua renúncia. A variável, agora, mudou : seu aliado obediente, Nicolas Sarkozy, com quem formava a dupla « Merkozy », não está mais no poder. Ele foi substituído por um novo chefe de Estado que chegou ao poder com um discurso anti-austeridade. Os analistas destacam que, se persistir em suas prerrogativas, a Alemanha corre o risco de ficar, muito em breve, isolada entre a pressão da opinião pública e o protesto de outros países europeus que se somarão a França. A batalha contra o capitalismo alemão não começou em Berlim, mas sim na França.

(Transcrito de Carta Maior)

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