Fritado em fogo lento, Rossi deixa o Ministério da Agricultura justamente quando a Polícia Federal abria o inquérito. É muita coincidência, não?

Carlos Newton

A solução é antiga e foi utilizada no final do ano passado por Erenice Guerra. Quando estava na Casa Civil de Lula e foi flagrada em atos de corrupção com a família (marido e filhos), Erenice logo criou uma comissão para apurar as denúncias. Não deu em nada, até hoje ela está impune, recebeu apenas uma advertência.

Na véspera de ser abandonar o cargo, o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, cada vez mais sujo e que vinha sendo fritado em fogo lento, imitou Erenice e nomeou três integrantes para a comissão de sindicância que apuraria as denúncias de irregularidades.

Enquanto Rossi encenava essa peça de ficção, a Polícia Federal abria um inquérito de verdade para investigar as denúncias de irregularidades no Ministério da Agricultura. Ao contrário do que fez quando as acusações atingiram o Ministério dos Transportes, desta vez, na Agricultura, a PF instaurou uma investigação formal, de número 1.526. No caso do Ministério dos Transportes, a PF sustentou que não havia necessidade de abrir uma nova investigação porque já havia muitos casos de fraudes em licitações de obras em rodovias em apuração pelo país. Era chover no molhado, como se dizia antigamente.

Na Agricultura, as novas denúncias em apuração atingem diretamente o gabinete de Wagner Rossi. Na segunda-feira, a Polícia Federal já colheu o depoimento de Israel Leonardo Batista, ex-chefe da comissão de licitação e principal acusador de Rossi, até então um ministro do tipo Sergio Cabral e que também adora passear em jatinho de empresário.

Batista confirmou as declarações que dera à revista “Veja”, acusando o lobista Júlio Fróes de circular com desenvoltura no Ministério e ainda pagar propina a servidores por conta de licitações armadas pelo próprio lobista, que tinha mesa junto aos servidores da comissão de licitação. O local privilegiado e o direito de circular pelo ministério foram assegurados ao lobista pelo então secretário-executivo da Agricultura, Milton Ortolan, demitido depois que a denúncia veio a público. Mas Rossi ainda tentou ficar no cargo, alegando que não tinha nada a ver com isso e que o lobista só circulava livremente pelo Ministério porque “a portaria era muito permissiva”, vejam só quanta desfaçatez.

No depoimento à PT, Batista disse que ouviu o lobista conversar com Ortolan ao telefone e se referir ao “chefão nº 1”, mas não soube dizer se essa expressão era usada para identificar o ministro Rossi. Ele repetiu, no entanto, que foi chamado a uma sala da assessoria parlamentar no oitavo andar do ministério, onde recebeu uma pasta. Depois de sair da sala, viu que na pasta havia notas de R$ 50. Batista diz que não aceitou o dinheiro e devolveu sem contar. Outros servidores também teriam recebido pasta semelhante, mas ele não soube precisar quem.

A investigação da Polícia Federal vem sendo conduzida pelo delegado Leo Garrido de Sales Meira. Foi ele quem tomou o depoimento de Batista, ex-chefe da comissão de licitação, que atua hoje na mesma função, só que na Telebrás. Batista sustenta que é vítima de perseguição porque não quis participar do esquema.

Depois do depoimento, em entrevista publicada pelo jornal “Folha de S. Paulo”, Batista voltou a dizer que o lobista Júlio Fróes atuava de forma irregular na pasta e que as fitas do circuito interno podem comprovar se ele e Rossi se conhecem. Diante dessa informação, os líderes do PSDB na Câmara, Duarte Nogueira, e no Senado, Álvaro Dias, apresentaram na Procuradoria Geral da República uma representação contra o ainda ministro Wagner Rossi.

Os tucanos pediram um mandado de busca e apreensão das imagens do circuito interno de TV do ministério. Como se diz, uma imagem pode valer mais do que mil palavras. Foi aí que Rossi decidiu pedir demissão.

Acusado pelo ex-diretor financeiro da Conab (Companha Nacional de Abastecimento), Jucá Neto, de ser “o chefe da quadrilha”, Rossi não tinha mesmo salvação. Sua saída do ministério era apenas questão de tempo.

***
A CULPA É DA IMPRENSA

Leia agora a carta de demissão do ministro da Agricultura, Wagner Rossi, em que ele culpa a imprensa:

Neste ano e meio na condição de ministro da Agricultura do Brasil, consegui importantes conquistas. O presidente Lula fez tanto pela agricultura e a presidenta Dilma continuou esse apoio integralmente.

Fiz o acordo da citricultura, anseio de mais de 40 anos de pequenos e médios produtores de laranja, a quem foi garantido um preço mínimo por sua produção.

Construí o consenso na cadeia produtiva do café, setor onde antes os vários agentes sequer se sentavam à mesma mesa, com ganhos para todos, em especial os produtores.

Lancei novos financiamentos para a pecuária, recuperação de pastagens, aquisição e retenção de matrizes e para renovação de canaviais.

Aumentei o volume de financiamento agrícola a números jamais pensados e também os limites por produtor, protegendo o médio agricultor sempre tão esquecido.

Criei e implantei o Programa ABC, Agricultura de Baixo Carbono, primeiro programa mundial que combina o aumento de produção de alimentos a preservação do meio ambiente, numa antecipação do que será a agricultura do futuro.

Apoiei os produtores de milho, soja, algodão e outras culturas que hoje desfrutam de excelentes condições em prol do Brasil.

Lutei por nossos criadores e produtores de carne bovina, suína e de aves que são protagonistas do mercado internacional.

Melhorei a atenção a fruticultura, a apicultura e a produtos regionais, extrativistas e outras culturas.

Apoiei os grandes, os médios e os pequenos produtores da agricultura familiar, mostrando que no Brasil há espaço para todos.

Deus me permitiu estar no comando do Ministério da Agricultura neste momento mágico da agropecuária brasileira.

Mas, durante os últimos 30 dias, tenho enfrentado diariamente uma saraivada de acusações falsas, sem qualquer prova, nenhuma delas indicando um só ato meu que pudesse ser acoimado de ilegal ou impróprio no trato com a coisa pública.

Respondi a cada acusação. Com documentos comprobatórios que a imprensa solenemente ignorou. Mesmo rebatida cabalmente, cada acusação era repetida nas notícias dos dias seguintes como se fossem verdades comprovadas. As provas exibidas de sua falsidade nem sequer eram lembradas.

Nada achando contra mim e no desespero de terem que confessar seu fracasso, alguns órgãos de imprensa partiram para a tentativa de achincalhe moral: faziam um enorme número de pretensas “denúncias” para que o leitor tivesse a falsa impressão de escândalo, de descontrole administrativo, de descalabro. Chegou-se à capa infame da “Veja”.

Tudo falso, tudo rebatido. Mas a campanha insidiosa não parava.

Usaram para me acusar, sem qualquer prova, pessoas a quem tive de afastar de suas funções por atos irregulares ou insinuações de que tinham atuado com interesses menos republicanos nas funções ocupadas. O principal suspeito de má conduta no setor de licitações passou a ser o acusador de seus pares. Deram voz até a figuras abomináveis que minha cidade já relegou ao sítio dos derrotados e dos invejosos crônicos. Alguns deles não passariam por um simples exame de sanidade.

Ainda assim nada conseguiram contra mim. Aí tentaram chantagear meus colaboradores dizendo que contra eles tinham revelações terríveis a fazer, mas que não as publicariam se fizessem uma só acusação contra mim. Torpeza rejeitada.

Finalmente começam a atacar inocentes, sejam amigos meus, sejam familiares. Todos me estimularam a continuar sendo o primeiro ministro a, com destemor e armado apenas da verdade, enfrentar essa campanha indecente voltada apenas para objetivos políticos, em especial a destituição da aliança de apoio à presidenta Dilma e ao vice-presidente Michel Temer, passando pelas eleições de São Paulo onde, já perceberam, não mais poderão colocar o PMDB a reboque de seus desígnios.

Embora me mova a vontade de confrontá-los, não os temo, nem a essa parte podre da imprensa brasileira, mas não posso fazer da minha coragem pessoal um instrumento de que esses covardes se utilizem para atingir meus amigos ou meus familiares.

Contra mim nem uma só acusação conseguiram provar. Mas me fizeram sofrer e aos meus. Não será por qualquer vaidade ou soberba minha que permitirei que levem sofrimento a inocentes.

Hoje, minha esposa e meus filhos me fizeram carinhosamente um ultimato para que deixasse essa minha luta estóica mas inglória contra forças muito maiores do que eu possa ter. Minha única força é a verdade. Foi o elemento final da minha decisão irrevogável.

Deixo o governo, agradecendo a confiança da presidenta Dilma, do vice-presidente Michel Temer, do presidente Lula e dos líderes, deputados, senadores e companheiros do PMDB e de todos os partidos que tanto respaldo me deram.

Agradeço também a todos os leais colaboradores do Ministério da Agricultura, da Conab, da Embrapa e de todos os órgãos afins. Penso assim ajudar o governo a continuar seu importante trabalho, retomando a normalidade na agricultura.

Finalmente, reafirmo: continuo na luta pela agropecuária brasileira que tanto tem feito pelo bem de nosso Brasil. Agradeço as inúmeras manifestações de apoio incondicional da parte dos líderes maiores do agronegócio e de suas entidades e também aos simples produtores que nos enviaram sua solidariedade.

Deus proteja o produtor rural e tantos quanto lutem na terra para produzir alimentos para o mundo. Deus permita que tenham a segurança jurídica necessária a seu trabalho que o Congresso há de lhes garantir. Lutei pela reforma do Código Florestal. É importante para o Brasil. Outros, talvez mais capazes, haverão de continuar essa luta até a vitória.

Confio que o governo da querida presidenta Dilma Rousseff supere essa campanha sórdida e possa continuar a fazer tanto bem ao nosso país.

Sei de onde partiu a campanha contra mim. Só um político brasileiro tem capacidade de pautar “Veja” e “Folha” e de acumular tantas maldades fazendo com que reiterem e requentem mentiras e matérias que não se sustentam por tantos dias.

Mas minha família é meu limite. Aos amigos tudo, menos a honra”.

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