Gabeira propõe uma frente democrática para impedir novo golpe militar

Conversa com Bial | Fernando Gabeira avalia situação política da ...

Gabeira explica a estratégia de Bolsonaro, de forçar o golpe militar

Fernando Gabeira
O Globo

Acabou, porra! Esta frase de Bolsonaro, dita na porta do Palácio da Alvorada, me lembrou uma outra frase de um personagem de “Esperando Godot, peça de Samuel Beckett: “Acabou, acabamos.” Esta lembrança surgiu porque há alguns dias fizemos uma live, eu e o querido embaixador Marcos Azambuja, cujo título era: “Esperando Godot, a tempestade perfeita.”

Nesse encontro, promovido pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais, defendi a tese de que a tempestade perfeita no Brasil era produzida pela associação da pandemia com a presença de Bolsonaro no poder. Há outras combinações no mundo: nos EUA, por exemplo, coronavírus e racismo.

ACOSSADO PELO STF – Bolsonaro disse esta frase porque não quer respeitar as decisões do STF, onde, no momento, tem duas preocupações: um inquérito sobre sua interferência na Polícia Federal e outro sobre a máquina de fake news montada por gente muito próxima a ele.

Filho de Bolsonaro, Eduardo entra no nosso ônibus e diz: eu poderia estar fritando hambúrguer nos Estados Unidos, mas vim avisar que haverá uma ruptura, não é questão de se, mas de quando acontecerá.

Juristas ultraconservadores acham o artigo 142 como saída. Se Bolsonaro não aceita as decisões do Supremo, as Forças Armadas têm de funcionar como Força Moderadora, obrigando o Supremo a aceitar tudo o que faz Bolsonaro.

GOVERNO MILITAR – As Forças Armadas já mostraram até onde podem ir. Em primeiro lugar, ocuparam o governo. Isso era previsível, pois o espírito salvacionista que vem desde a Proclamação da República não morreu: só os militares conseguem dirigir este país caótico, pensam.

O mais grave é que as Forças Armadas, através de um general da ativa, ocuparam o Ministério da Saúde, encamparam a errática política de Bolsonaro e querem nos entupir de cloroquina. Ao aceitarem que caiam no seu colo milhares de mortes, mostram que topam tudo por seu capitão.

Como assim, nossas Forças Armadas? Outras forças também poderosas foram seduzidas por um simples cabo. A hora não é tanto de reflexões sociológicas, mas de organizar a resistência.

SEM TEMPO A PERDER – Simplesmente não há tempo a perder. O tempo que perdemos esperando o coronavírus chegar representou muitas mortes.

É hora de avisar a todos os brasileiros no exterior para que reúnam e discutam a necessidade de falar com partidos, organizações, imprensa, organizar núcleos de apoio na sociedade europeia e americana, entre outras.

As Forças Armadas não só encamparam a política da morte de Bolsonaro. Elas tiraram de centro da cena o Ibama e outros organismos que fazem cumprir nossa legislação ambiental, conquistada ao longo de anos de democracia.

AMEAÇA AMBIENTAL – O governo brasileiro vai se tornar uma grande ameaça ambiental e biológica simultaneamente. Lutar contra ele em todos os cantos do planeta é uma luta pela vida, pela própria sobrevivência. Esse será nosso argumento.

Internamente, será preciso uma frente pela democracia. Já temos uma frente informal pela vida, expressa no trabalho de milhares de médicos e profissionais de saúde, nos grupos de solidariedade que se formaram ao longo do Brasil. O que a frente pela democracia tem a aprender com eles? Em primeiro lugar, ninguém perde tempo culpando o outro pela chegada do coronavírus. Em segundo lugar, a gravidade da morte onipresente não dá espaço para confronto de egos.

Uma frente pela democracia não é uma luta pelo poder, mas sim pelas regras do jogo. Quem estiver interessado no poder que espere as eleições. Foi assim no movimento pelas Diretas.

FRENTE DEMOCRÁTICA – Hoje uma frente pela democracia transcende as possibilidades do movimento pelas Diretas. As redes sociais colocam na arena milhares de novos atores, alguns deles capazes de falar com mais gente do que todos os partidos juntos. O espaço para criatividade se ampliou. O papel de cada indivíduo é muito mais importante do que foi no passado.

Não tenho condições num artigo de falar de todas essas possibilidades. Mesmo porque eles não se limitam à cabeça de uma pessoa. A única coisa que posso dizer produtivamente agora é isto: não percam tempo. É urgente falar com amigos, estabelecer contatos, discutir como atuar adiante, como resistir ao golpe de Estado.

Posso estar enganado, mas jamais me perdoaria, com a experiência que tenho, se deixasse de alertar a tempo e também não me preparasse para esta que talvez seja a última grande luta da minha vida.

19 thoughts on “Gabeira propõe uma frente democrática para impedir novo golpe militar

  1. Amigos de Curitiba mandavam ás 20 horas de ontem a baderna, violência urbana, quebra-quebra, desordem total dos “esquerdopatas a favor do comunismo, corrupção e volta dos assaltos aos cofres públicos impunes” e nenhuma câmara da “Mídia Extrema” para falar do caos que virou Curitiba. Sorte que a Polícia Militar não se rende a Jornalista ou Doentes por Corrupção e Baderna e atuaram dentro da Lei impondo a Ordem e Garantia da Cidadania. Imaginem se fosse alguém das “ditas passeatas antidemocratas feitas por Homens de Bem”, os juristas formados nas orcrims paulistanas já estariam reunidos e nós estaríamos ouvindo os palavrórios diarreicos dos “capas pretas do século XXI” . Aquilo que assistimos e a Mídia Extrema não divulgou é caso de Cadeia !!! Silêncio da Mídia Extrema !!! Um Clube Paulista depois daquela “intifada da av. paulista de domingo” perdeu mais um patrocinador, e o Clube que mandar sua torcida para o terrorismo vai sentir esse mesmo peso. O Brasil não suporta e nem quer Comunista e Corruptos no Poder, e nenhuma pesquisa mentirosa vai mudar isso, ninguém vai financiar Organização Criminosa com nome de Empresa Midiática ou de Clube !

  2. Tudo bem; mas tirante o clã, não foi este excremento de stf e o excremento do congresso que deram a garantia para os hediondos corruptos de que nunca mais seriam presos após o habeas corpus que o tirarão da prisão preventiva???!!!
    A corrupção mata muito, mas muito mais do que este COVID-19. Não precisamos nem mais enumerar as desgraças que estes malditos trazem para o povo brasileiro.
    Podemos argumentar que não vai mudar nada; mas, garanto que se não fizermos nada, aí é que não mudará mesmo.
    Intervenção Militar já inclusive apeando do poder este clã que é tão fedorento quanto os citados acima.

  3. Admiro normalmente os artigos de Fernando Gabeira, todavia este transcende ao obsoletismo. Enterder que “A hora não é tanto de reflexões sociológicas, mas de organizar a resistência.” é muito saudosismo do período da Guerra Fria. Acorda, prezado jornalista. Estamos no século 21.

  4. Vamos fazer essa frente logo. Vou deixar o meu endereço aqui para receber doações:

    Rua dos Encalacrados, 666
    Madureira, Rio de Janeiro.

    Mandem um mínimo de 10$ por doação (só aceito dolar).

  5. Zero vontade de servir ao interesse dessa sociedade doente que apoia um governo que usa a estrutura do estado para dar emprego a gente despreparada.

    Os órgãos públicos estão todos sendo usados como cabides de emprego para pessoas sem a menor capacidade.

    Por que há tantos contratos irregulares?

    Simples. Quem está no órgão com poder para autorizar são comissionados. Quem forma as equipes de servidores são justamente estes, que na divisão de funções colocam outros comissionados para fazer a instrução desses processos.
    Peguem todos os esquemas denunciados. Sempre quem decide e participa do processo de escolha é um comissionado.

    • Muitos comentários sectarios, porém destituídos de análise.
      Sobre o texto em si, poucos argumentos.
      Gabeira acerta no arrazoado, acerca do risco de ruptura do Estado Democrático de Direito.
      Quem defende a Ditadura, a intervenção militar, joga contra o próprio time, que pretendem advogar aqui no palco da Tribuna.
      O presidente foi o vencedor da eleição e tem ainda mais de dois anos de Mandato, podendo concorrer a mais um período de quatro anos, a partir de 2023.
      Então, jogar no confronto, até tensionar a estrutura e romper o tecido social, o maior prejudicado será o presidente.
      As FA não querem , o Poder, pois o período de 21 anos de interferência, a partir de 1964 trouxe muito desgaste aos militares perante a sociedade. Mas, se as condições fáticas, assim os obriguem a intervir, o mandatário será um General no comando.
      Já houve um precedente, no ciclo militar a partir de 1964: um general de três estrelas, venceu nos quartéis, a eleição para presidente em substituição a junta militar, no final de 1969. Os generais de quatro estrelas não concordaram, sob a alegação de hierarquia.
      Foram buscar o comandante do Sul, Carrastazu Médice para um período de quatro anos, a partir de 1970. Em 1974 assumiu o general Ernesto Geisel. Depois veio o general Figueiredo, que quando escolhido por Geisel, tinha três estrelas. Geisel promoveu João Figueiredo a quarta estrela dando carona em três generais. Um deles, Hugo de Abreu, passou para a reserva, muito contrariado, escreveu vc o livro” O outro lado do PODER”.
      Fico por aqui. Se quiserem contestar, pelo menos sejam elegantes, por favor.

      • Olá, Roberto!
        Bom. Sobre o que falei sobre esquemas esses que autorizam contratações irregulares, a realidade fala por si. Todos que decidem processo de contratação, que colhem e analisam propostas, são comissionados.

        Sobre a questão de ameaça à Ordem Constitucional ela existe.

        E mesmo a comparação com a Alemanha, com as devidas proporções, também.

        A Constituição de Weimar não foi anulada nem derrogada. Continuou existindo. Mas tiraram o Poder do Tribunal Constitucional de dizer a última palavra. Passou-se ao Führer. Prevaleceu o entendimento de Carl Schimidt em detrimento de que defendia Hans Kelsen.

        Aqui no Brasil o movimento de extrema-direita é contra o STF não à toa. Querem censurá-lo e tomar a palavra sobre Constituição alegando que o tribunal não deve decidir sobre o que diz a Constituição acerca da organização do Estado e dos Poderes.

        Ora…
        Estão atentando contra um Poder. Se houvesse uma intervenção seria para garantirnão o Executivo.

        Não acredito que tenha a família Bolsonaro em mente e o alto círculo militar a pretensão de que militares fiquem no poder por mais 21 anos… não. Axho, sim, que o relacionamento destes com membros daquela família que foi real um dia seja para reestabelecer uma Monarquia, provavelmente Parlamentarista.

      • Só agora eu li seu comentário, Sr Roberto, meu aplauso. Não imagina o senhor como é reconfortante ler opiniões que vem ao encontro das nossas de uma maneira clara e elegante.

  6. Roberto Nascimento, perfeito teu comentário. Assisti a tudo isso de perto.

    De fato, a falta de uma estrela no general atrapalhou bastante o desenvolvimento do Brasil.

    Para que não ocorram dúvidas, estou me referindo ao general Albuquerque Lima, herói de guerra na campanha da Itália. Foi também o idealizador do Projeto Rondon.

    Foi sabotado por Orlando Geisel, que disse: “Albuquerque Lima não pode ser ‘presidente’, é general de três estrelas, como é que eu, de quatro estrelas, vou fazer continência a ele?”.

    Hoje generais de quatro estrelas fazem continência para um capitão reformado. Sinal dos tempos.

    No que diz respeito ao artigo do Gabeira, acho que ele adquiriu grande experiência pessoal com a vida que escolheu levar na juventude.

    Aliás, ele participou do sequestro do embaixador americano aqui no Rio de Janeiro, que foi trocado pela soltura de diversos presos políticos, dentre eles, José Dirceu.

    Anos depois, durante o governo Lula, José Dirceu não recebeu em seu gabinete Fernando Gabeira. Prova inconfundível de reconhecimento petista.

    Gabeira conhece bem o gênero humano, especialmente, o dos oportunistas políticos.

    Aliás, a proposta da Gabeira de que a hora é “de organizar a resistência” me fez recordar o que ocorreu na UNE em 31 de março de 1964.

    Um militante comunista que vivia doutrinando no prédio da UNE os jovens estudantes, na parte da manhã, acompanhava as notícias escutando um pequeno rádio de pilhas e, em determinado momento, disse para os jovens que eles ficassem organizando a defesa do prédio que ele ia na casa de outro militante buscar as armas. E foi, deixando o prédio.

    Pouco tempo depois o prédio da praia do Flamengo estava sendo incendiado e os jovens que haviam ficado “organizando a resistência” se não tivessem pulados os muros e fugido pelos imóveis vizinhos, teriam morrido queimados.

    E o militante de esquerda filósofo-doutrinador não voltou com as armas que disse que iria buscar até hoje … mais de meio século depois.

    • Que história incrível Celso. Acho que o conheci no almoço, no restaurante do Bonde da Lapa. Estava lá também o mestre Pedro do Couto e nosso Editor é claro.
      Eu não quis virar o nome do General Albuquerque Lima, em respeito ao filho, que as vezes comenta neste espaço democrático.
      A história do general Albuquerque e a do general Hugo de Abreu, me tocam especialmente no coração, pois se tivessem alcançado o topo, por competência e justiça, a nossa história seria outra.
      A inteligência é muito combatida no Brasil, pelos medíocres, que são a maioria, portanto, os que sobressaem, são perseguidos, porque atrapalham os interesses dos malvados e impatrioticos.
      Hugo Abreu teve um infarto fulminante de tanta perseguição, contra ele e a família. E olha, que ele interceptou e impediu um golpe preparado pelo Ministro do Exército da linha dura, contra o presidente, general Geisel. Ganhou de prêmio, a reserva.

  7. O artigo do Gabeira é sensacional. Seus comentários e intervenções na GloboNews são de uma clarividência solar.
    A Natuza Nery, dá gosto ver suas análises também, me desculpem o Camarote, o Merval, Cristiana Lobo, Demétrio, excelentes jornalistas, mas, Gabeira e a Natuza são horconcurs.

    Só um reparo, o general presidente foi Ernesto Geisel, muito mais humano do que o irmão Orlando.

  8. Caro Roberto Nascimento,

    A TI pode se orgulhar de ter um comentarista e articulista do teu valor, conhecimento, cultura, sensatez e equilíbrio.

    Gosto em demasia dos teus textos, pois além de ser elucidativos, trazem importantes informações e conteúdos históricos.

    Aprecio lê-los, pois escritos com maestria, pleno domínio do nosso idioma, palavras muito bem empregadas, frases concatenadas e posições definidas, além de eu admirar as tuas convicções e defesas que fazes das mesmas.

    Meu aplauso pelo comentário, pois elegante, refinado, educado e respeitoso, exemplo de como devemos postar as nossas opiniões sobre os variados temas que o Mediador nos coloca à disposição.

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.
    Te cuida, meu!

    • Que maravilha ler esse comentário sobre mim. Não vou esconder, que fiquei envadecido, principalmente vindo de você Francisco Bendl, que nos brinda aqui bom seus magníficos comentários e rua coragem no debate franco e sincero

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