Ganha quem ia perder

Sebastião Nery

A página 48 do livro diz assim:

1. –  “Juraci Monteiro (sic) (Não é Monteiro, é Montenegro. e sem “de”SN)  Magalhães foi um personagem importante na política brasileira e quase ninguém fala dele. Lembro-me de um caso importante envolvendo sua figura. Aconteceu em 45. O PSD precisava escolher um candidato para a Presidência da República em oposição ao brigadeiro Eduardo Gomes”.

2. – “Meu pai (Israel Pinheiro) era o presidente da Companhia Vale do Rio Doce e o piloto dele era o Peri, um engenheiro da companhia que também pilotava. Foi ele que me contou o caso e por isso estou relatando. Na época em que meu pai era secretário do partido, durante o período de escolha do candidato do PSD para a sucessão de Vargas, ele pegou o avião com o Peri e voou até Santa Catarina, em Florianópolis, onde estava o Juraci, no comando de uma divisão do Exército”.

1945  DUTRA

3. – “Meu pai viajou até lá para consultar Juraci a respeito do melhor nome para a candidatura à sucessão, sobre quem seria o melhor candidato para se opor ao brigadeiro na briga pela Presidência. Foi uma consulta política feita ao poder militar.  Israel Pinheiro representando o PSD e Juraci Magalhães representando os militares,  conversando para, juntos, chegarem a um consenso sobre a disputa eleitoral. A conclusão foi que o Dutra seria mesmo o melhor nome a ser apresentado. Na verdade, papai levou para o Juraci a questão da viabilidade da candidatura do Dutra e ele a apoiou afirmando ser o Dutra o único nome capaz de enfrentar o Brigadeiro”.

4. – “Dutra foi escolhido e ganhou. O estranho é que o Juraci era oposição, filiado à UDN, e apoiava a candidatura do Brigadeiro.Mais tarde, foi eleito deputado federal pela UDN e tornou-se grande líder do partido”.

ISRAEL FILHO

Ontem como hoje. Nossas fidelidades partidárias continuam eventuais, fluidas e, depois do macabro golpe militar de 1964, piorou mais ainda.  Essa historia, tão antiga e ainda tão atual como numerosas outras, está em um livro que é um brilhante painel  da política brasileira do ultimo meio século : – “Memórias de Israel Pinheiro Filho – 50 Anos de Historia Política” (Edição, aliás primorosa, com vasto e valiosíssimo  acervo fotográfico,  da Fundação Israel Pinheiro, de Belo Horizonte).

Neto de governador de Minas (João Pinheiro), filho de governador de Minas (Israel Pinheiro),  de Israel Pinheiro Filho  pode-se dizer com precisão que nasceu e vive entre o palácio e o palanque, no coração da mais aprimorada escola política do pais, que Minas sempre foi e continua sendo.

Com a tranquilidade e segurança de quem viu tudo de perto, quase sempre dentro de casa, desde a infância  até os vários mandatos, Israel Filho, aos 82 anos,  vai contando Minas como Minas foi e é. Passemos com ele da campanha e  eleição presidencial de 1945 para as de 1950.

1950  GETULIO

1.“Em março de 1949, o presidente da UDN Prado Kelly deixou claro que seu partido só negociaria com o PSD se fosse um candidato extrapartidário. Em junho, o governador gaúcho, o pessedista Walter Jobim, apresentou a Dutra uma proposta conciliatória, a chamada “Fórmula Jobim”, que preconizava a consulta a todos os presidentes de partidos a respeito da sucessão, incluindo-se Getúlio, chefe do PTB, e Ademar.

2. ”Aceita a “Fórmula Jobim”, Prado Kelly (presidente da UDN), Nereu Ramos (presidente do PSD) e Arthur Bernardes (presidente do PR) se comprometeram a ouvir  os partidos. Os entendimentos não evoluíram porque, entre outros motivos, Nereu Ramos reivindicava ser  o candidato”

1955  JK

3. “A “Fórmula Jobim” foi substituída pela “Fórmula Mineira”,  proposta ao PSD por Benedito Valadares, que também defendia um candidato de união nacional mas necessariamente pessedista e mineiro. A  “Fórmula Mineira” provocou o afastamento da UDN. Otávio Mangabeira, governador udenista da Bahia, rompeu com o presidente Dutra, declarando que o candidato de seu partido, como em 1945, seria o Brigadeiro”.

O PSD lançou Cristiano Machado e o PTB Getulio, que perdia longe, nos jornais e nas pesquisas e ganhou longe, disparado, nas praças e urnas. Como Juscelino Kubitschek, que em 1954 ia perder e em 1955 ganhou.

Alô, Eduardo Campos! No Brasil ganha quem ia perder.

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