Gaspari acende uma bola de cristal para a sucessão de 2012 nos EUA

Pedro do Coutto

No seu sempre brilhante e culto espaço no Globo e na Folha de São Paulo, no caso que vou focalizar edição de 4 de setembro, Élio Gaspari reserva um bloco para falar da sucessão de 2012 nos EUA, quando Barack Obama disputa a reeleição à Casa Branca. Dá destaque a um estudo do professor da Universidade da Virgínia, Larry Sabato, pesquisador de tendências e especialista em interpretar resultados eleitorais. Larry Sabato, inclusive, possui um site na Internet chamado A Bola de Cristal de Sabato.

Gaspari assinala que os estudos da bola de cristal que iluminou no artigo são de altíssima precisão.Acredito. Sou um entusiasta de pesquisas  e histórias de voto. Aliás um dos primeiros jornalistas brasileiros, na época no Correio da Manhã, a focalizar a importância e os êxitos incontestáveis do Ibope. Comecei a acompanhá-los a partir da sucessão de 55. Mas o Ibope é 13 anos mais antigo. Nos seus quase oitenta anos de existência, o índice de acertos passa de 97%. Que mais fazer? Ao lado do Ibope, o Datafolha, o Gallup, o Vox Populi, o Sensus.Nas últimas eleições presidenciais, o acerto foi pleno. Dilma 56, Serra 44. Mas não é esta a questão.

O fato é que, com razão, Sabato separa as votações proporcionais dos pleitos majoritários. Parte agora de uma plataforma comparativa entre os votos com que os Republicanos venceram em 2010 a disputa para a Câmara dos Representantes, 44,6 milhões de votos, com os obtidos por Obama em 2008, quando se elegeu, alcançando 69,5 milhões de sufrágios.

Tudo bem, a vitória do Partido Republicano no exercício passado não assegura a legenda a vitória em 2012. Sem dúvida. Porém isso não significa que Obama esteja desde já com a recondução garantida, porque a margem de votos a seu favor, na sucessão de Bush, foi maior do que a levou  a oposição à vitória no ano passado. Uma coisa não tem muito a ver com a outra. Basta considerar as opções existentes na disputa pela Câmara comparando-a com as duas únicas das eleições presidenciais.

Larry Sabato acentua que, num país em que o voto não é obrigatório, para as eleições parlamentares, incluindo portanto as do Senado, a abstenção atinge 60%. Só 40% votam. Mas nas eleições para a presidência, é o contrário: votam 60 e não comparecem 40%. Entretanto, não é este o ponto básico que, me parece, Sabato não analisa tão objetivamente. O voto parlamentar é uma coisa. O majoritário para o governo de Washington outra. Os candidatos ficam face a face. É mais reduzida a dimensão do voto parlamentar. Os deputados e senadores não têm nas mãos a caneta mágica. O presidente da República tem.

Se Shakespeare tivesse escrito hoje a peça Ricardo Terceiro, acredito que seu talento insuperável o levaria a trocar o cavalo pela caneta: meu reino por uma caneta. A caneta é a síntese do poder. E isso muda profundamente o panorama visto da ponte de hoje para se fazer comparações políticas amanhã. Pessoalmente, torço pela vitória de Obama, pelo que ela traduz de ruptura histórica, aliás já concretizada há três anos, e sua visão social que o conduziu a estender o direito à assistência médico hospitalar a 30 milhões de americanos, dez por cento da população, que não contavam com seguro algum. Com ele no governo, o estado assumiu a obrigação inerente a si mesmo. Tudo bem.

Estou na arquibancada das eleições americanas, as quais acompanho desde a vitória de Roosevelt em 44, a última disputa de sua vida, final da segunda guerra. Mas não devo confundir meu desejo com o quadro da realidade. Não são os votos que alcançou nas urnas de 2008 que vão garantir ao senador por Illinois, como Lincoln, novo passaporte para o poder. Tudo vai depender do adversário ou adversária e de sua capacidade que, em 2008 se revelou fantástica, de emocionar o eleitorado. É isso aí. Só há dois únicos caminhos para o poder. O voto ou as armas. Com o voto, sempre.

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