Geneton Moraes Neto e a história do ataque aéreo para matar Brizola em 1961

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Brizola, na rádio instalada no Palácio, defende a posse de Jango

Fernando Brito
Blog Tijolaço

Não fui seu amigo pessoal, mas devo a ele a parte mais valiosa do documentário que fiz sobre a resistência legalista de Brizola em 1961. Quinze anos atrás, um simples telefonema fez com que ele me cedesse uma fita cassete que era uma preciosidade. Uma, das muitas que ele recolheu naquilo que escolheu fazer: reportagem sobre a História brasileira.

Era o depoimento do escritor Oswaldo França Júnior, nos anos 60 piloto da Força Aérea Brasileira, narrando os preparativos e a frustração do bombardeio ao Palácio Piratini, de onde Leonel Brizola, governador gaúcho, comandava a resistência ao golpe para impedir a posse de João Goulart, em 1961.

É coisa que muita gente não faz ideia ou acha apenas “lenda” política. Reproduzo o texto feito por Geneton, com todo o mérito que tem de fazer um registro primário da história que muitos não acreditam que este país viveu e que ele, repórter da história brasileira, não deixou que se perdesse:

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O ESCRITOR RECEBE UMA MISSÃO: MATAR BRIZOLA
Geneton Moraes Neto.

A História poderia ter tomado um rumo diferente em 1964 se tivesse havido uma resistência igual à que Leonel Brizola comandou em 1961 para garantir a posse do então vice-presidente João Goulart na presidência da Republica depois da renuncia de Jânio Quadros. Com um microfone nas mãos, Brizola comandara em 1961 uma campanha pela legalidade: se a presidência estava vaga,o vice Goulart é que deveria assumir. Não era o que os militares queriam. Mas foi o que aconteceu.

A resistência legalista de Brizola em 1961 por pouco não acaba em bombas e balas. Piloto da FAB que anos depois ficaria famoso como escritor, o mineiro Oswaldo França Junior recebeu, com os colegas, uma missão que, se executada, poderia resultar na eliminação física do ex-governador Brizola sob um monte de escombros, num palácio bombardeado.

Oswaldo França Junior tinha um demônio dentro de si. Queria um exorcista. Todas as tentativas de traduzir o demônio em palavras foram frustradas. Bem que tentou, mas não conseguiu transformar em texto a incrível experiência quer viveu nos tempos em que era oficial da Forca Aérea Brasileira, no começo dos anos sessenta. Extremamente rigoroso com o que escrevia, a ponto de só aproveitar dez de cada cem paginas que produzia, Franca Junior despejou na lata de lixo as tentativas de relato da época.

Se transformadas em livro, as confissões do ex-primeiro-tenente França Junior poderiam ter virado best-seller político: basta saber que ele participou diretamente de uma operação secreta para bombardear o Palácio onde estava o então governador Leonel Brizola, em Porto Alegre. França Junior estava pronto para levantar voo num dos aviões que despejariam bombas sobre o Palácio. Nesta entrevista, ele revela com todos os detalhes como a operação foi preparada.

Diante do gravador, Oswaldo França Junior relatou com desembaraço o que jamais conseguiu escrever. Uma coisa é certa: França Junior é seguramente o único escritor em todo o mundo que recebeu uma ordem expressar para bombardear um palácio e matar um governador. Expulso da Aeronáutica pelo Ato Institucional Número 2 como ‘’subversivo’’, França Junior virou corretor de imóveis, vendedor de carros usados, dono de carrocinhas de pipoca e até administrador de uma pequena frota de táxis, antes de ficar conhecido nacionalmente com o romance ‘’Jorge,um Brasileiro’’, em 1967.

Vai falar o escritor que, como piloto, esteve a um passo de se envolver numa carnificina a mando dos superiores:

 

GMN: Você é seguramente um caso único de escritor que recebeu ordens expressas para eliminar um governador de Estado num bombardeio a um palácio. Você pode revelar em que circunstância exatamente foi dada a ordem de eliminar o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola?

França Junior : ‘’Você quer saber em que circunstâncias… Eu servia no Esquadrão de Combate, em Porto Alegre. Era a unidade de combate mais forte que existia entre o Rio de Janeiro e o Sul. Era o 1º do 14º Grupo de Aviação. A gente usava um avião inglês que, na FAB, recebeu o nome de F-8.  (Nota do Tijolaço: era o Gloster Meteor, jato  posterior à 2a. Guerra) Logo depois da renúncia de Jânio Quadros, em 1961, Brizola fez a Cadeia da Legalidade através das emissoras de radio e se entrincheirou no Palácio do Governo, em Porto Alegre. O comandante do meu esquadrão nos reuniu e disse: ‘’Nós acabamos de receber uma ordem para silenciar Brizola. Vamos tentar convencê-lo a parar com esse movimento de rebeldia. Se ele não parar com essa campanha, vamos bombardear o Palácio e as torres de transmissão da rádio que ele vem usando para fazer a Cadeia da Legalidade. Vamos fazer tudo às seis da manhã. Vamos tentar dissuadir Brizola até essa hora. Se não conseguirmos, vamos bombardear’’.

Nós ouvimos essas palavras do comandante. Todo oficial tem uma missão em terra, além de ser piloto de esquadrão. Eu era chefe do setor de informação. Recebi ordens de calcular o quanto de combustível ia ser usado e quanto tempo os aviões poderiam ficar no ar. Dezesseis aviões foram armados para a operação. Pelos meus cálculos, a gente ia pulverizar o Palácio do Governo! O armamento que a gente tinha em mãos era para pulverizar o palácio. Um ataque para acabar com tudo o que estivesse lá. Não ia haver dúvida. Os aviões foram armados. Nos  preparamos. Colocamos as bombas e os foguetes nos aviões. Ficamos somente esperando chegar a hora, quando o dia amanhecesse.

Mas criaram-se aí vários impasses, vários problemas sérios.  Durante o tempo em que ficamos esperando, todos sabíamos que iríamos matar muita gente. Num ataque como aquele ao Palácio, bombas e foguetes cairiam na periferia. Muitas pessoas iriam ser atingidas. Além de tudo, Brizola estava com a família no Palácio, cercado de gente. Havia gente armada lá,mas não ia adiantar nada, diante do ataque que iríamos deflagrar com nosso tipo de avião. Podia ser que um ou outro avião caísse, o que não impediria de maneira nenhuma o ataque e a destruição do Palácio. E aí começou o questionamento.

O militarismo tem dois alicerces básicos: a disciplina e a hierarquia. Você não pode mexer nesses dois alicerces. Toda a carreira, todos os valores, todo o futuro do militar é garantido em cima desses dois suportes. Você, quando é militar, sabe exatamente o que vai acontecer com você daqui a dez, vinte anos, baseado nessa hierarquia e nessa disciplina. Isso dá uma segurança e um “espírito de corpo’’ bem desenvolvidos.

Mas, diante de nós, os tenentes que íamos fazer o ataque e não estávamos incluídos na alta cúpula, apresentou-se uma incoerência:  se o presidente da Republica, chefe supremo das Forcas Armadas, renunciou, automaticamente quem deve assumir é o vice-presidente. Nos perguntávamos ali: por que o Estado Maior – que não fica acima do Presidente da República – pode determinar que um vice-presidente não pode assumir? Então, há uma incoerência interna na hora de obedecer a uma ordem assim. Por quê? Porque aquela ordem, em principio, já quebrava a hierarquia, a base do sentimento militar.

Nós começamos a pensar. Mas íamos decolar, sim, para o ataque! Durante a noite, no entanto, houve um movimento inteligente, partido principalmente do pessoal de base. O avião de caca só leva uma pessoa, o piloto. Mas é necessário ter uma equipe grande de apoio no solo. E essa equipe de apoio, formada principalmente por sargentos, impediu a decolagem dos aviões. Os sargentos esvaziaram os pneus. E trocar de repente todos os pneus dos aviões de combate é um problema técnico complicado e demorado. Os aviões, assim, ficaram impedidos de decolar na hora do ataque.

Houve uma movimentação. E o Exército ajudou a controlar a divisão interna na Base Aérea. O Estado Maior mudou a ordem,para que nós decolássemos para São Paulo. E para a viagem de Porto Alegre para São Paulo, os aviões não poderiam decolar armados. Por quê? O avião de caça é uma plataforma que você eleva para transportar armamentos. Ali dentro só existe lugar para colocar combustível e arma. O piloto vai num espaço pequeno.  Então, tiraram os armamentos dos aviões para encher de combustível. Somente assim seria possível chegar a São Paulo. O Estado Maior estava centralizando o poder de fogo para que, se houvesse uma guerra civil, eles estivessem bem equipados’’.

GMN – Como militar, você cumpriria sem discussão essa ordem de bombardear o Palácio e eliminar fisicamente o governador?

França Junior: ‘’Naquelas circunstâncias de Porto Alegre, eu obedeceria, sim. Obedeceria! Um ou dois meses depois eu iria questionar. Por quê? Porque ali foi um ponto de ruptura, um divisor de águas. Naquela crise, em que passamos a noite inteira nos preparando para bombardear o Palácio do Governo, surgiram vários questionamentos. Somente de madrugada é que houve o problema da sabotagem dos aviões. Agora nem tanto, mas antes você só era preparado para lutar contra o inimigo externo. E de repente nos chegou aquela ordem para bombardear Brizola de uma hora para outra. Não houve nem uma preparação psicológica nossa. Você, então, começa a se questionar: por que é que as pessoas estão fazendo aquilo? Por que a realidade brasileira é essa? O militar, em qualquer crise política, não é como o civil – que pode fazer a opção sobre se vai participar ou não. O militar é obrigado a participar – e de arma na mão!’’.

GMN – Você é que escolheu as bombas que seriam usadas para matar Brizola?

França Junior: ‘’Não. Ajudei a verificar o volume de combustível nos aviões. Nós iríamos usar bombas de 250 libras. E 15 foguetes. Cada avião iria levar quatro bombas de 240 libras, além de quatro canhões. Eu digo: a gente ia pulverizar tudo! O armamento que iríamos usar não era para intimidar…’’.

GMN – Quando estava fazendo os cálculos de combustível e de armamentos,você pensava em quê?

França Junior –“O questionamento vem surgindo aos poucos A primeira impressão é que tinha acontecido algo sério e nos não tínhamos ainda acesso às informações sobre o que havia ocorrido. Haviam, provavelmente, descoberto ligações de Brizola ou de um grupo grande. O bicho-papão, na época, eram os comunistas. Então, eles devem ter descoberto uma trama tão diabólica e tão generalizada que estavam tomando uma atitude séria para impedir que o presidente assumisse.

A experiência que vivi foi inusitada, porque você julga que uma guerra civil pode surgir de um encadeamento de fatos que leva anos – mas não de uma hora para outra, como ali: uma pessoa vem e dá uma ordem. Se o pessoal de apoio da Base Aérea de Porto Alegre não tivesse impedido a decolagem dos aviões, nós teríamos decolado e destruído o Palácio. Não tenha dúvida! Isso forçosamente teria desencadeado um problema seriíssimo no Brasil’’.

(entrevista enviada pelo comentarista Mário Assis Causanilhas)

13 thoughts on “Geneton Moraes Neto e a história do ataque aéreo para matar Brizola em 1961

  1. Em verdade, quem evitou a morte do Brizola e de inúmeras pessoas foram os sargentos que esvaziaram os pneus dos aviões. Esses sargentos devem ter sido presos e torturados e chamados de comunista.
    A intolerância contra o Brizola era pelo fato dele ser um nacionalista (defensor dos interesses nacionais), humano, sua política era voltada para os trabalhadores e os mais pobres.
    Políticos como o Brizola é raro surgirem.

  2. Achei interessante o depoimento desse comunista histórico dizendo que o Brizola tentou derrubar Jango. Ao que ele diz, até torturou um terrorista que colocara uma bomba para matar Jango. É que Joel Câmara era o chefe de segurança de Jango. Cada um assuma a verdade que achar mais verossímil. Se esse Sr. está mentindo e alguém tiver argumentos para me convencer disso, por favor compartilhe.

    https://www.youtube.com/watch?v=hX18NCOdgnQ

    https://www.youtube.com/watch?v=QJtu0V2oVjY

  3. O Brasil deve muita coisa a alguns poucos, como Sérgio Macaco, do Parasar, que se recusou a explodir o Gasômetro.

    Histórias assim todos deveriam conhecer.

    Outro dia, ao ver a entrevista de Geneton com o Gal. Leônidas, não tinha achado nada demais o fato do general intimar Sarney a assumir a presidência. Só me toquei quando entrei na TI e li aqui que Tancredo não havia tomado posse, portanto, não tínhamos vice ainda. Eu o considerava presidente, mas legalmente ele não era.

    O Capitão Sérgio Macaco foi um herói.

    • Uma dúvida: Tancredo e Sarney foram eleitos pelo voto indireto. Se Sarney não tomasse posse teriam que realizar eleições diretas, ou o presidente da Câmara cumpriria todo o mandato?

      Às vezes penso que foi melhor o Sarney ficar pra acalmar os ânimos.

  4. Quem deu a ordem para bombardear o Palácio Piratini foi o então chefe de gabinete do Ministro da Guerra Orlando Geisel, futuro ministro do Exército de Médici e irmão mais velho de Ernesto. O Ministro da Guerra que queria dar o golpe era o Odylio Denys (pai do Rubem Denys, chefe da Casa Militar de Sarney), que antes havia sido o principal auxiliar do Marechal Lott durante o golpe preventivo para garantir a posse de Juscelino na novembrada de 55. Para quem quiser ouvir o depoimento de Osvaldo França Júnior segue o link abaixo, a partir dos 6 mins. e 40 segs. .

    http://www.tijolaco.com.br/blog/33027-2/

  5. Carlos Frederico Alverga, você contribui sempre para esclarecer os mais novos frequentadores do Blog, passagens dramáticas de nossa história política. Conheço Fernando Brito que foi asssessor de Brizola ainda muito jovem. Foi muito importante a reprodução da entrevista de Geneton como todas que fez em sua vida. Os fatos existiram mas como você sabe Alverga, todos os fatos geram versões que se completam. Vou a seguir dar uma versão para complementar o que foi dito.

  6. Em 1961 quando da renúncia do presidente Janio Quadros, a sociedade esperava a posse pacifica do vice-presidente João Belchior Marquês Goulart. Mas os militares impediram sua posse. Leonel Brizola governador do Rio Grande do Sul, ao certificar-se do impedimento deu uma declaração: “Se os militares rasgarem a Constituição, levantarei o povo gaucho em armas”. Começou a mobilização com o povo acorrendo ao Palácio Piratini. O clima de revolta tomou grande dimensão. Brizola telefona para o general Machado Lopes que no segundo telefonema diz a Brizola que perguntava o que estava pensando: Governador sou um soldado não posso resolver assim, fico com o Exército. Brizola retrucou dizendo que defenderia intransigentemente a Constituição.

  7. Depois de requisitar a Rádio Guaiba e comunicar ao povo gaucho o que estava acontecendo.Brizola pediu as famílias que se afastassem com suas crianças do centro de Porto Alegre. Apelou para que viessem até ao Palácio os que estivessem dispostos a lutar. A proclamação calou fundo na mente o no sentimento sentimento do povo gucho e entrou pelos quartéis adentro. Em frente ao palácio 100.000 mil pessoas se concentram pedindo armas.

  8. Ok Aquino, obrigado pela atenção. Aproveito para recomendar dois novos livros interessantes sobre Brizola, um de autoria de seu filho mais novo João Otávio contando suas impressões sobre a atividade política do pai e outro de Clóvis Brigagão, ex assessor internacional do PDT e que cobre o período da vida política de Brizola que vai da expulsão do Uruguai em setembro de 77, passando pelo exílio em Nova Iorque e Lisboa, abordando os contatos que Brizola fez em 79 com os principais líderes da social democracia européia da época, tais como Mário Soares (Portugal), Felipe Gonzalez (Espanha), Miterrand (França) entre outros. Abraço do Alverga.

  9. Brizola pos a Brigada Militar Gaucha de prontidão rigorosa e tentou falar com alguns generais que não vinham ao telefone. Continuou telefonando e falou com o general Oromar Osório, que já se definira em favor da legalidade e pediu ao governador que pusesse à sua disposição trens e caminhões, porque sua Divisão, sediada em Santiago, já estava “limpa e sobre rodas”. Na manhã de 26 de Agosto, sem dormir Brizola recebe um telefonema de um rádio-amador, nervoso e alarmado. Ouvira instruções do Ministério da Guerra em Brasília, no sentido que o III Exército silenciasse de qualquer forma o Governo do Rio Grande do Sul. As instruções eram duras: o III Exército deveria usar toda força necessária, inclusive a Base Aérea de Canoas. Brizola agradeceu o aviso, mas, achou a informação fantasiosa. Mudou de opinião quando outros radios-amadores a confirmaram.

  10. Alverga, estive no escritório de Trajano Ribeiro que me disse o dia que seria lançado o livro sobre Brizola escrito por Clóvis Brigagão. Logo que saiu o livro em 2015 comprei. Obrigado, valeu.

  11. Houve revolta na Base aérea de Gravatai, Quartel-General da V Zona Aérea, contra as ordens do Ministério da Guerra para bombardear o Palácio Piratini.Os aviões foram impedidos pelos sargentos de levantar vôo. Os ânimos se agravaram entre oficiais e sargentos só amainando quando se decidiu que os partidários dos três Ministros militares podiam seguir para o centro do País num avião de passageiros. O General Machado Lopes comandante do III Exército que já tinha aderido ao governador Brizola. Imediatamente nomeou o para o Comando da V Zona Aérea o tenente-coronel da FAB Alfeu Monteiro, morto a tiros imediatamente após o golpe de 1964.

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