Geração sem medo está nascendo para o mundo

Fabio Nassif (Correio da Cidadania)

Desta vez deveriam ter de 15 a 20 mil pessoas na rua. Um ato que caminhava de maneira organizada até a polícia interromper e iniciar a guerra. Toda tentativa de intimidação foi simplesmente ignorada pela manifestação. Quando se tem certeza de uma luta, não se recua diante de palavras que estamos acostumados a ouvir.

Chamou a atenção a quantidade enorme de policiais infiltrados. Eram eles que jogavam fogos a sinalizadores enquanto a absoluta maioria do ato gritava “sem violência!”. Este método estatal é antigo, muito antigo, mas o Brasil permanecia fingindo que deixou de existir. Assim como o desejo de realização de uma manifestação vitoriosa acabou novamente sendo verbalizada espontaneamente pelos manifestantes, estimulados por uma preocupação coletiva em torno da nossa pauta.

Obviamente, a repressão estava decretada. Não só pela ânsia de soldados mal pagos, treinados para reprimir a qualquer custo, mas respaldado pelos governos municipal, estadual e federal.

Haddad declara que não vai abaixar a tarifa e que considera as manifestações violentas. Alckmin vomita as mesmas palavras de sempre, pela punição, repressão e criminalização. E José Eduardo Cardozo, o “professor” de direito que, além de encabeçar o anúncio oficial do genocídio indígena com as mudanças no método de demarcação de terras, afirma que o governo federal está à disposição para ajudar na repressão.

REPRESSÃO

A repressão foi tremenda. Aliás, por curiosidade, quanto se gasta para reprimir uma manifestação? Helicópteros, 700 soldados, balas de borracha, bombas, cavalos, combustível… Gasta-se o quanto os governantes acharem necessário para proteger o Estado.  Gasta-se cotidianamente contra os pretos, pobres e periféricos. A manifestação se dispersou e se juntou mais de uma vez. Está certo, nem a polícia sabia para onde dispersar. Talvez a intenção nem fosse esta. Mas também os manifestantes não viam sentido em fazê-lo voluntariamente. Afinal, estamos certos. Agora, é hora novamente de lutarmos sem trégua pela libertação dos nossos.

Pois então. Do outro lado, até a mídia, atingida pelas balas de borracha, passa a questionar os motivos de tanta intransigência dos governos. Ora, a pauta voltou ao seu lugar! Já não é lunático pedir a revogação dos aumentos. E mais, já não é aceitável tamanha violência estatal.

Mas o emocionante nesta jornada toda, para além da gostosa e distante sensação de nos juntarmos a jovens e trabalhadores de todo o mundo que estão em luta, é saber que o Estado e a mídia burguesa estão formando uma geração de ativistas. Saber que as lutas contra o aumento ocorreram em diversas outras cidades como Porto Alegre, Natal, Maceió e Rio de Janeiro nos dá força. Saber ainda que uma manifestação foi realizada em Curitiba, simplesmente em solidariedade às demais, é arrepiante.

DEMOCRADURA

É muito possível revertermos o aumento. Porém, mesmo sob uma derrota triunfal, uma geração está sendo forjada pela experiência prática sobre o que é nossa democradura, a necessidade da organização coletiva e da disputa de uma sociedade inteira que, mesmo não entendendo essas cabeças juvenis, sabem que elas têm razão. Ah, e uma geração com um repúdio gigante à mídia da ordem.

No Chile, diante das massivas manifestações estudantis, diz-se que esta é uma geração sem medo, pois não viveu os tempos sombrios da ditadura oficial e tampouco está adaptada à ordem. E é a própria geração esmagada pela ditadura e depois pelo discurso neoliberal quem chega a esta conclusão, contribuindo assim para repassar o bastão da história. E isto se transforma em solidariedade, inclusive dos familiares e conhecidos dos manifestantes.

É cedo pra dizer isso do Brasil. Muito cedo. Ainda viveremos muita barbárie fruto da desigualdade social, adormecida enjoativamente pelo discurso da pátria de chuteiras e por uma sensação de estabilidade. Mas não é exagero afirmar que não somos a geração amorzinho, da conciliação de classes e da organização orquestrada pelo capital. E de repente, nos vácuos da calmaria e do senso comum, nasceremos para o mundo.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

12 thoughts on “Geração sem medo está nascendo para o mundo

  1. Logicamente que os mandatários, principalmente em SP, baterão os pés para não baixar o valor da passagem, pois “venderam a vitória nas eleições (e almas) ao capetalismo” patrocinador, e agora ele (o “capetalismo” selvagem)chegou para cobrar o acordo!

  2. O PAÍS DO FUTEBOL NÃO AGUENTA MAIS TANTA “BOLA” NAS COSTAS! XÔ! JOSEPH GOEBBELS BLATER! VÁ MANIPULAR OUTRO EMERGENTE! AQUI O POVO DESPERTOU!

  3. Pingback: Referendo: Hora de perguntar ao povo o que ele quer | andradetalis

  4. Gerações sem medo já nasceram. Aguardem para ver o que acontecerá no Brasil. Mesmo com copa, olimpíadas e carnaval. Com o advento da internet, nenhum governo fascista tem meios de conter as ações populares. O povo já está catalogando tudo. Os ladrões, traidores e fascistas serão sepultados com o dinheiro que roubaram do povo. Eis uma profetada do profeta Paulo Solon. E nem chega a ser previsão (detesto a palavra profecia). Trata-se de visualizar o que já está ocorrendo. O povo está despertando. A pancada vai ser forte e não poderá falhar. Tal como bater com o martelo no chão.
    Observem bem o que já está ocorrendo. É a Primevera Brasileira.
    Há tempos eu disse na Tribuna impressa que o povo iria se rebelar, mais cedo do que tarde. Responderam que o povo não tem armas para enfrentar a tirania fascista brasileira e a constante rapinagem do patrimônio público. Mas, ao mesmo tempo em que assim supõem, os que gostariam que isso fosse verdade se contradizem, já que sempre evocam a existência do que chamam de complexo industrial militar. Só que esquecem que tal complexo é que vai fornecer armas para o povo. Exatamente como está fazendo com o que chamam de rebeldes na Síria. Como foi que o povo de lá subitamente se armou?
    Certa vez fui à casa de um amigo meu, médico e advogado em Coimbra. Brasileiro ex-Oficial de Marinha que havia tido seus direitos políticos cassados no Brasil pós 1964. Ele recebeu, enquanto eu lá estava, um prelado do Vaticano. Este bispo chegou paramentado e portando uma maleta. A dona da casa, esposa de meu amigo, insistiu para guardar a maleta lá dentro para podermos jantar. Mas o prelado não a soltou, de modo algum.
    Mais tarde meu amigo me falou: sabe o que tinha naquela maleta? Dinheiro. Muita grana. Dinheiro para financiar a compra de armamento para os crioulos na África em luta contra seus dirigentes tiranos.
    Não se preocupem. O povo está despertando contra a bandidagem política que o explora no Brasil. Armas? Surgirão da noite para o dia.

  5. Como pensam as elites mundiais.

    Como sabemos o império Romano se manteve no poder por muito tempo com a política do pão e circo.

    Têm-se tentado aplicar esse mesmo princípio em nossa realidade atual.

    Porém os tempos mudaram devido aos avanços da tecnologia e da ciência.

    As necessidades do povo se tornaram mais amplas e vivemos uma nova “política de dominação” que se manifesta de forma cada vez mais clara.

    Para se manter no velho jogo do poder é preciso hoje ampliar as antigas concepções. Pão e Circo já não bastam. O povo necessita de novos elementos:
    -Pão (alimento)
    -Status (o velho circo, com uma nova roupagem)
    -Saúde (que significa ter um mínimo acesso as benécies da ciência)
    -Moradia (um lugar para repousar, enquanto se espera a morte).

    Esses elementos foram analisados minuciosamente pelas classes dominantes, que buscam nos dar esse “pacote básico” para que não enxerguemos a realidade.

    Educação e cultura não são necessários, pois podem nos levar a questionar a base de todo esse sistema. Esse é o motivo pelo qual os sistemas educacionais estão cada vez mais sucateados.

    Para levar a cabo essa contínua dominação, é necessário que se dê ao povo:
    1° – Pão. Ou seja, na produção de alimentos. Vejam bem, ignora-se a qualidade destes (transgênicos, agrotóxicos, hormônios, etc…), mas desde que sejam produzidos em grande escala para serem empurrados goela abaixo na população(ração?).

    2° – Status. Eis o elemento mais complexo, visto de baixo, mas extremamente simples e inteligente se visto de cima. Consumo! Tudo se resume a isto. Como incitar o consumo das massas para manter o sistema funcionando? Incute-se o seguinte pensamento no povo:
    “Meu objetivo de vida é ter mais do que você! Se não tenho, vivo de minhas fantasias de grandeza, julgando que provavelmente você é pior do que eu em algum aspecto”. Esse pensamento reside nas mais profundas intenções do “homem moderno”. Para isso, ele precisa ter pelo menos um elemento que o diferencie dos outros. Esse elemento o fará diferente, um ser melhor, que possa ser aceito e admirado pelos outros. Hoje temos todas as várias tralhas tecnológicas, o acúmulo de bens, poder, e tudo o que esteja ligado a nossa essência egoísta para servir a esse propósito.

    3° – Saúde. Hoje também traduzida como qualidade de vida, pelos mais abastados. Enfim, para não se revoltar, os pobres precisam ter acesso ao mínimo de saúde pública (o que está difícil no Brasil). Para os que tem alguma condição, essa saúde também toma o aspecto da qualidade de vida. O culto ao corpo tão vigente nos dias de hoje que gera ainda mais consumo.

    4° – Moradia. Um lugar para ficar. Não importando se pagamos um absurdo de juros, nem se pagamos o que o imóvel realmente vale… Esqueçam! A reforma agrária jamais será realizada no Brasil. Sorte de quem teve ancestrais mais “gananciosos”, esses podem usufruir hoje de grandes propriedades improdutivas que impõe um mísero destino a grande parte do povo.

    Que cada um analise a si mesmo… Se tivermos todos esses itens, ainda teremos motivos para nos revoltar?

    Para a grande maioria, a resposta é não!

    Somos assim! Toda a nossa aspiração de vida pode se resumir a estes 4 pontos.
    Porém com essa postura, por ignorância, aceitamos intrinsecamente conviver com a desigualdade no mundo.

    Aceitamos que jamais poderemos realizar determinados sonhos que outros podem, muitas vezes devido a corrupção de que foram capazes.

    Aceitamos ser servos de um sistema que nos escraviza em determinado modo de vida, onde não recebemos todo o retorno pelo nosso trabalho. Chegamos ao ponto de nem mesmo perceber como isso é absurdo!

    Fazendo uma atualização do discurso da servidão voluntária (Ethienne de La Boétie), aceitamos que poucos tenham tudo e que uma maioria não tenha nada, desde que não nos faltem esses 4 pontos básicos.

    A classe dominante sabe que apenas a classe mediana pode fazer alguma diferença para mudar, e foca seus esforços no obumbramento dessa classe.
    A classe mais baixa é vista exclusivamente como “gado”, escravos ou massas de manobra.

    Porém, o mundo não é tão “perfeito” assim.

    A complexidade de todo o sistema faz com que manter esse esquema esteja cada vez mais difícil… E todos estão percebendo isso.

    Mais uma vez surge o clamor por renovação…

    Vem ai uma nova revolução…

  6. Então a revolta vai ser mais efetiva do que parecia, prezado Seytrym.
    Mas não se trata somente do povo do Rio de Janeiro. Todas as capitais e grandes cidades estão começando a se movimentar. Está findando aquela história de que o povo se contenta com pão e circo. Nem futebol nem carnaval vão segurar o povo no Brasil

  7. Não adianta tapar o sol com a peneira e fazer propaganda dizendo que, quem ganha 100 ou 200 reais não é mais pobre.
    O povo acordou com esse movimento que visava atacar políticos pelo aumento das passagens de ônibus.
    Vendo a festa do seu dinheiro sendo roubado em construções de estádios que custariam 500 e custaram mais de 1 Bi, e onde nem existe futebol, ponte no sul, custando dez vezes mais que uma da China que é 10 vezes maior, inflação voltando, dinheiro do povo brasileiro entregue por este governo para Fidel, dívida de outros países sendo perdoadas, Petrobrás comprando refinaria de 300 mi por mais de 1 Bi, refinarias sendo doadas para outros paises, etc, etc, etc., o povo não aguentou e partiu para as ruas.
    Enfim, a mentira tem perna curta.

  8. Dinheiro tem, e muito. Dinheiro deste mesmo povo que é assaltado por impostos altíssimos, de países socialistas, porém ser reverter em benefícios sociais como transporte, saúde descente, educação de qualidade, segurança, etc.

    Aqui se cobra impostos até de alimentos e remédios.
    Um pobre com o dinheiro que daria para comprar quase 2 pães, leva um. Só mesmo num país com um estado apodrecido pela mentira e corrupção, isto acontecer.
    Hediondo.

  9. Que povo, Mauro? Por enquanto somente a classe média conforme dizem. Afinal, só ela pode ler jornais, adquirir revistas, acessar a internet e participar de rodadas como internautas. Lembre-se que nossa TV entretém o povo com programas de duvidosa qualidade. Mas o bicho vai pegar mesmo quando a classe média mostrar ao povão e convencê-lo de que está sendo manipulado via programas de curto vôo. Aí, sim, a “cobra vai fumar”. E esse dia chegará se nossos governantes acreditarem que tudo podem e mantiverem o mesmo padrão de governo.

  10. Caro Fabio Nassif, saudações
    A impressão que temos é a de que estamos diante do surgimento de um mundo novo. Se ele será admirável ou não … não sabemos. Quais os seus contornos e direcionamentos? Ainda é cedo para dizer. Com o surgimento do facebook, do twitter, do skype e do whatsapp, todos se comunicam com todos em segundos, em todo o mundo. E a voz comum é a de que “como está é que não pode continuar”. As reivindicações são muitas e todas justificadas, justificadíssimas. Não há líderes, nem políticos, mas há os aproveitadores (claro).
    O caos social existente no Brasil é quase que total. Ou mesmo … total. Já não há democracia no Brasil, nos Estados Unidos e em praticamente nenhum outro país. Vemos os Estados (os povos) sustentando como sempre as “livres iniciativas”, os vagabundos de plantão, que enriquecem às custas dos Trabalhadores.
    Tudo isto tem que ser objeto de discussão, de debates!!! Estão apresentando aos jovens um sistema que só produz imensas desigualdades, que isola os honestos e dignos dos bons resultados conseguidos pelas indústrias e consequentemente a repulsa e o repúdio vão se tornando maiores.
    Por que??? Por que??? Só alguns filhos do Rei podem receber os recursos do Estado … para não pagar nunca??? Isto funciona assim em todos os países que privilegiam esta hedionda forma e compreensão de governar.
    As cobranças tendem a se intensificar!!! As mentes dos jovens não se acomodarão!!! Eles estão se perguntando: “por que somos obrigados a herdar esta porcariada toda??? que mundo é este que estão nos entregando??? e … o que podemos e devemos fazer … e já!, para mudar esta droga???” Eles têm pressa!!! Eles não querem saber de teorias nem do que dizem os livros dos mestres, blablabla. Eles só querem dizer e estão dizendo claramente, é: EXIGIMOS MUDANÇAS JÁ!!!
    São muitos os anos de roubos, de canalhices, de “malversação dos dinheiros públicos” (argh!), de hospitais públicos genocidas, de professores ganhando salário mínimo, de favelas sempre surgindo e espalhando criminosos (pela ausência do apoio do Estado), de subemprego, de entrega das nossas empresas a outros países, sempre em condições danosas para o Brasil … e de tantos e tantos outros “vandalismos” praticados contra o povo.
    Haverá sensibilidade para conversar com esta Geração Sem Medo??? Haverá sentimento??? Haverá coragem e disposição para ouvir os jovens???
    Os governantes OFERECERÃO CONDIÇÕES DIGNAS para estes jovens brasileiros, que num futuro próximo estarão governando??? Terão como estudar e se diplomar em alto nível??? Terão como formar suas famílias e bem educar seus filhos???

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *