Gilles Lapouge, um jornalista que analisou a História Universal nos tempos modernos

Imprensa francesa destaca relação de Gilles Lapouge com o Brasil

Amigo do Brasil, Lapouge foi um dos melhores jornalistas do mundo

Pedro do Coutto

A morte, essa situação limite entre a existência humana e a eternidade, chegou para o jornalista Gilles Lapouge há uma semana, aos 96 anos, 70 dos quais no O Estado de São Paulo, escrevendo artigos, reportagens, ensaios nas páginas do tradicional órgão de imprensa, onde começou em 1951 a convite, de Júlio Mesquita Filho.

Nessas sete décadas iluminou as páginas que produziu e, a partir da França, sua lente de alcance revelou e analisou os acontecimentos mundiais de grande impacto.

GUERRA E PAZLapouge cobriu a Guerra da Indochina, nome atual do Vietnã, Guerra da Argélia e do Marrocos francês. Na Indochina as forças francesas foram cercadas. Quanto a Argélia, a França enfrentou os argelinos e os franceses colonos da Argélia que não queriam sair do poder no norte da África. A Argélia, depois, motivou o atentado a De Gaulle no Arco do Triunfo. Mas este é outro capítulo.

No momento em que O Globo promove seminário sobre a função essencial do jornalismo, creio oportuno assinalar que o jornalismo, seja ele impresso, televisado ou através de meios eletrônicos, é por definição uma atividade múltipla, uma vez que a informação e análise atinge ao mesmo tempo todos os setores humanos.

Informação urgente no dia a dia, produzindo a história tanto do hoje quanto do amanhã, a interpretação está mais nas linhas impressas dos jornais. Como é o caso de O Estado de São Paulo.

VOCAÇÃO DE HISTORIADORNa edição de sábado, Pablo Pereira e Paulo Beraldo publicaram reportagem sobre Gilles Lapouge, também escritor e autor dos “Paraísos Perdidos” romance elogiado por Valérie Dumneige editora famosa na França.

Lapouge trabalhou no Estadão até o final de sua brilhante vida, vocação de historiador que se renova a cada 24 horas e que pode analisar acontecimentos como o retorno de De Gaulle ao poder, ascensão do socialista Mitterrand, os governos oscilantes da França de 1952 a 1958, quando De Gaulle retornou ao poder.

De Gaulle tinha sido declarado presidente por aclamação em 1945, depois da libertação do nazismo em 1944. Em 48 ele renunciou por divergências com a esquerda francesa. Mas tinha se entendido bem com as forças francesas de esquerda a partir de 1940, quando conduziu de Londres a heroica resistência contra Hitler.

HISTÓRIA VIVALapouge assistiu e comentou, após a crise da Argélia, a bomba atômica de Hiroshima, a morte de Stalin, ascensão de Kruschev que denunciou os crimes de seu antecessor. A crise dos mísseis em Cuba, a chegada do homem a lua, o primeiro astronauta no espaço. A UPI o apontou como o primeiro satélite humano do planeta. Lapouge ao percorrer as estradas de sua vida depositou no final da maratona seu legado intelectual, ético e moral.

Este patrimônio passa agora às mãos do jornal em que trabalhou por 7 décadas através da qual iluminou os acontecimentos e as contradições nacionais e internacionais. Deixou também um exemplo para seus filhos Renoir, Laure Marie, Mathilde e Jérome Garro. Nesse adeus repousa o trabalho refinado de um historiador do nosso tempo. Sua obra fica também eternizada para sempre.

5 thoughts on “Gilles Lapouge, um jornalista que analisou a História Universal nos tempos modernos

  1. Desembarcou no Brasil em 1951.
    Seu amigo, o historiador francês Fernand Braude indicou Gilles para o Diretor do Estadão, Júlio de Mesquita Filho. Escreveu para o jornal desde então, se tornando amigo de Júlio até sua morte em 1969.
    Lapouge, um jornalista múltiplo, refinado, culto, inteligente, escritor, um homem do mundo, como poucos. Sua cultura era enciclopédia.
    Nunca perdi nenhum de seus artigos, desde que passei a morar em São Paulo, de 2009 até 2012, quando lia todos os dias o Estadão, pois o jornal O Globo do meu Rio de Janeiro não tinha em todas as bancas de jornal.
    Se tornou em mim, um vício ler o Estado de São Paulo e obviamente os artigos do jornalista francês.
    Tem um em especial, na qual profético ele comenta sobre as Terras Raras.
    A clarividência de Lapouge é certamente uma dádiva divina. Sai da vida material e entra na categoria dos monstros sagrados do jornalismo, da Arte e da Cultura.
    Agora fará companhia, no céu com Sartre, Simone de Bevoair, Joel Silveira, Júlio Mesquita Filho. Será um fantástico sarau com certeza.
    Amava o Brasil, como Stefan Zweig também amou até ser encontrado morto com sua Charlotte em Petrópolis.
    Essa terra Brasilis tem um encanto sobrenatural para os que aqui chegam. Nós é que tratamos tão mal esse paraíso do mundo.
    A repercussão da morte de Gilles Lapouge foi ampla, geral e irretrista, aqui e na França.
    A Tribuna da Internet, através da pena do sensacional Pedro do Couto está de parabéns por lembrar desse grande ser humano.
    O Estadão de sábado dedicou duas páginas inteiras sobre Gilles, A 16 e A17.
    Ele merece.

  2. Houve um notável brasileiro que deu início à reportagem como história, ao mesmo tempo.
    E redigiu o mais importante livro que temos, comparado à Guerra e Paz, de Tolstoi.
    Refiro-me a Os Sertões, de Euclides da Cunha.

    Inicialmente, Euclides se objetiva na descrição do Sertão, o local onde será desenvolvido o enredo. Aponta para aspectos da paisagem desde o relevo, a fauna, a flora e o clima árido. Segundo ele, a paisagem do local distante do litoral, indica a exploração do homem durante anos.

    Já na primeira parte da obra ele aborda sobre os habitantes do local, o sertanejo e o jagunço, os quais fazem parte dessa paisagem. Sendo assim, nesse primeiro momento, apresenta uma região separada geográfica e temporalmente do resto do país.

    Na segunda parte da obra “O Homem”, Euclides se preocupa sobretudo, na descrição do sertanejo, do jagunço e do cangaceiro, bem como na resistência do povo em relação à terra, analisando, em consequência, a figura do líder do Arraial de Canudos, Antônio Conselheiro, desde sua genealogia e objetivos.

    Nesse momento da obra, percebe-se o determinismo racial, já que Euclides abrange as questões raciais que englobam o índio, português, negro, também formadas por sub-raças, o mestiço. Sendo, portanto, o homem como fruto do meio em que vive.

    Na Terceira parte da obra “A luta”, o autor descreve os embates que ocorreram entre o sertanejo (considerados os bandidos do sertão) e o exército nacional do Brasil.

    Aborda sobre as quatro expedições realizadas pelo exército nacional, enviados para destruir o Arraial de Canudos, que contava com cerca de 30 mil habitantes.
    A história termina com o trágico desfecho e a destruição de Canudos.

    Parabenizo Pedro do Coutto pela lembrança de um nome tão importante para o jornalismo, e suas coberturas em grandes acontecimentos.

    Porém me lembrei de Euclides pelo que redigiu com maestria inigualável, detalhes impressionantes, e fiel à verdade que a realidade brasileira e do interior do Brasil exigiam, e sem os recursos que o profissional elogiado em tela dispunha.

    Dessa forma, os três nomes mais importantes da literatura no Brasil, a meu ver, seriam:
    Euclides da Cunha, Gonçalves Dias e Castro Alves.
    Simplesmente inigualáveis.

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