Gisele Bündchen: toda seminudez será sempre aplaudida

Pedro do Coutto

É evidente que a iniciativa da ministra Iriny Lopes foi o que de melhor e mais intensamente poderia ter acontecido para ampliar a repercussão e irradiação da peça publicitária da lingerie Hope, estrelada pela topmodel Gisele Bündchen. Um biquíni, um belo corpo, uma postura sensual. E daí? Qual o problema de, por esse meio, uma empresa anunciar roupas femininas? Absolutamente nenhum.

A atitude da titular da Secretaria de Política Para Mulheres não faz o menor sentido e até desqualifica cultural e politicamente sua autora, sobretudo porque provavelmente terminará envolvendo negativamente o governo Dilma Rousseff. Talvez até a presidente da República tenha que intervir no problema criado desnecessariamente.

Primeiro, porque a Constituição Federal veta toda e qualquer censura. Segundo, face a um arcaico moralismo. Ridículo, inclusive. A sensualidade faz parte da natureza humana. Portanto, do comportamento social coletivo. Todos, cada qual à sua maneira, recorrem a um processo de sedução. Como classificou Freud em sua obra, de forma consciente, subconsciente e até inconsciente. O gênio de Viena, ao longo dos séculos 19 e 20 (ele faleceu em 1939), dedicou grande parte de seus livros para interpretar e traduzir claramente o impulso que move todos nós.

A sedução está nas páginas, nas aulas, nas telas, na literatura, nas urnas, nas ondas sonoras, nas festas.. Está fortemente marcada na atmosfera cotidiana, como definiu Sartre. Trata-se, disse ele, de uma essência que rege a existência.

O título deste artigo – claro – inspira-se no grande Nelson Rodrigues, cujo centenário de nascimento ocorre em 2012 e será marcado, como a Folha de São Paulo publicou recentemente, por uma grande exposição de sua arte na capital paulista. “Toda Nudez será Castigada”, êxito absoluto em 65, no teatro com Cleide Iáconis, e no filme de Arnaldo Jabour, com Darlene Glória, um dos grandes desempenhos do cinema.

Viajei no título para aterrisar no tempo de 2011. Vou explicar por que. O falso moralismo que resistiu até a década de 50 já estava ultrapassado pela realidade dos fatos, quando veio o movimento que conduziu à ditadura militar com início em 64. Não havia edifício democrático e sim uma lista de restrições, como afirmou o deputado Ulisses Guimarães.

As restrições atingiram e sufocaram a arte. A liberdade, a criação, o talento. São inúmeros os casos. Os mais emblemáticos: a proibição do “Último Tango Em Paris”; da primeira versão da novela “Roque Santeiro”; da peça “Liberdade, Liberdade”, de Millor Fernandes; do livro “O Casamento”, de Nelson Rodrigues. Tem mais uma, esta absolutamente incrível: o Ministério da Justiça, Armando Falcão à frente, governo Geisel, impediu que a Rede Globo transmitisse um espetáculo de ballet, em Moscou, pela passagem dos 200 anos do Teatro Bolshoi.

São fotografias do passado. Mas quando se pensava que o obscurantismo não poderia mais ressurgir, eis que entra em cena a ministra Iriny Lopes. Qual política pública, de seu elenco de políticas, se relaciona com a mulher na minimetragem publicitária de Gisele Bündchen no papel principal? Em que ponto da alma a sociedade feminina pode ser atingida pelo anúncio? Não se pode entender, já que se procura uma resposta lógica e não se encontra. Defesa da instituição familiar? Não faz sentido. Defesa da economia popular, já que Gisele afirma ter estourado seu cartão de crédito e o do marido? Tampouco.

A ministra Iriny Lopes esquece a propaganda, esta sim, nociva, pelo empréstimo bancário a aposentadas. Juros mensais de 2,4%, quando o ajuste do salário mínimo em janeiro do ano que vem vai ficar em 15 pontos. Metade do valor agregado daqueles juros. E a propaganda em que um homem por não gostar mais de seu automovel ateia fogo nele (carro) para comprar outro. Isso sim, é absurdo, mas mesmo assim não merece censura.

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