Globo retira propaganda para no repetir 1989

Pedro do Coutto

A direo da Rede Globo, a meu ver agiu certo ao retirar do ar a propaganda promocional pelos 45 anos da emissora, uma vez que dirigentes do PT identificaram semelhana com smbolos da campanha de Jos Serra. Interpretaram como um lance subliminar usado, alis, na reta final da sucesso de 89, quando o ento diretor de telejornais, Alberico Sousa Cruz, editou a seu modo o ltimo debate nacional entre Fernando Collor e Lula.

Alberico Sousa Cruz selecionou os melhores momentos de Collor, colocando-os em confronto com os piores instantes de Lula. Foi um escndalo a 48 horas das urnas. Uma propaganda mais que subliminar, at de efeito decisivo para o destino da sucesso. Claro que o ento diretor de telejornais s pde fazer isso porque Lus Incio da Silva no tinha ido bem no debate derradeiro, dirigido por Marlia Gabriela, com imagem gerada na Rede Manchete.

Nesse debate, nem Lula, nem qualquer dos jornalistas participantes cobraram de Collor a utilizao srdida de depoimento da Sra. Miriam Cordeiro, que recebeu para dar um depoimento sobre episdio de um passado distante envolvendo o nascimento da filha Lurian. Mas esta outra questo.

O fato que a Rede Globo no poderia ter agido da forma com que agiu, sobretudo depois do exemplo do caso Proconsult, ocorrido em 82, quando Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro. Armando Nogueira, diretor de Jornalismo nos dois episdios, foi demitido pelo diretor-presidente das Organizaes Globo no incio de 1990, logo aps a posse de Collor. Numa entrevista a Isto , Armando Nogueira fez vrias crticas atuao de Roberto Marinho, inclusive no episdio do Riocentro, quando a reportagem filmou a existncia de uma segunda bomba no carro do hoje coronel Wilson Machado, o que inviabilizaria a tese de um acidente. A edio das 13 horas mostrou a segunda bomba. Esta segunda bomba desapareceu da tela do Jornal Nacional, o de maior audincia, que comeava (e comea) s 20 horas e 15 minutos.

Com base certamente nesses precedentes, a Globo evitou envolver-se em novo conflito em torno de campanhas e resultados eleitorais. Foi a deciso final. Mas quem props e formulou a sequncia comemorativa com a participao de artistas do seu amplo elenco de qualidade inegvel? Inclusive porque ela chegou a comear a ser veiculada no domingo que passou, para ser suspensa na segunda-feira pela manh. A idia, portanto, como se constata, teve a durao de uma rosa.

Os canais de televiso so concesses do poder pblico. Assim, no devem agir para acrescentar campanha de qualquer candidato. Muito menos de forma subliminar, espcie de forma inclusive proibida pela legislao. Porm usada algumas vezes. Em 94, por exemplo, quando o presidente Itamar Franco empenhou-se pela vitria de Fernando Henrique Cardoso sobre o Lula do passado, como maneira de destacar a importncia do Plano Real, principal bandeira do candidato, o governo reduziu o preo da gasolina nas bombas de abastecimento. Eis a um exemplo de uma ao assumida para gerar efeito paralelo em outra rea, no caso as urnas do confronto.

Na mesma ocasio, outro exemplo de propaganda subliminar: a Revista Veja, para acentuar o efeito do Plano Real, diminuiu o preo nas bancas e nas assinaturas. Lus Incio Lula da Silva estava sendo cercado por todos os lados. Foi a sua segunda derrota. Perderia mais uma vez, em 98, antes das vitrias de 2002 e 2006. Agora est no poder. Em tal condio, os autores da idia mal-sucedida na prpria rede deveriam ter avaliado melhor as conseqncias. Pois os atos humanos, de modo geral, no se esgotam neles prprios. Tm reflexos e desdobramentos, consequncias. Reflexo negativo, neste momento, o que menos interessa Globo.


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