Goelas abertas e garras afiadas

Carlos Chagas

Todo partido político tem direito a ser governo e ser oposição. Da mesma forma, apoiando a situação, é prerrogativa de todo partido político aceitar convocações para integrar o governo, ou até, se for  majoritário, participar de sua montagem. Assim deve ser vista a presença do PDT na administração Dilma Rousseff: integrou-se em sua campanha e,  com a vitória, recebeu convite para permanecer no  ministério, onde estava desde o governo Lula.

Se não vai bem um ministro indicado por um partido, como Carlos Lupi,  do PDT,  trata-se de questão afeta a quem chefia o governo, podendo trocá-lo ou mantê-lo. Até aqui, é cristalina a teoria. O diabo está na prática.  Porque apesar de natural a participação dos partidos  nos governos, nem de longe deve ser admitida a hipótese  de possuírem feudos nas administrações públicas.

Considerar-se donos de ministérios e senhores de suas estruturas torna-se inadmissível,  pelo menos nas democracias que se pretendem como tal. Também causa indignação quando os partidos, de goela aberta, tentam  mercadejar mudanças, exigindo trocar  ministérios.

È o que acaba de fazer, com alguma sutileza, o presidente do PDT, André Figueiredo. Ele sustentou que o Trabalho deveria ser entregue a outro partido, na reforma de janeiro, mas acrescentou que a Educação cairia muito bem para o seu partido, adequado a seu perfil, “ainda que pareça muito”.  Quer dizer, marcou o alvo,  deixando uma saída para o malogro da pretensão. Se ao menos Darcy Ribeiro estivesse vivo, ainda valeria o pleito, mas assim a frio a sugestão cheira mal.

Houve tempo em que as divisões eram regionais: a Fazenda ia para São Paulo, a Educação para a Bahia,  a Agricultura para Pernambuco. Os critérios mudaram, as cartas embaralharam mas os governos continuam perdendo o jogo.

Vale repetir mais uma vez o sonho de a presidente Dilma livrar-se da tutela dos partidos e compor um ministério com os melhores em cada setor, políticos ou não. O problema é que se assim agisse, correria o risco de perder a maioria parlamentar. Aos partidos, com raras exceções, interessa a manutenção de espaços de poder.

Lixam-se para planos ou programas de governo, não sendo o PDT caso único,  muito pelo contrario. PT e PMDB, entre outros, estão aí para não deixar ninguém mentir. Seus caciques ficam de olho não no que determinado  ministério poderá realizar, mas, prioritariamente, em suas verbas orçamentárias, nas empreiteiras que executam obras sob sua alçada, nos setores que poderão ser beneficiados, nas ONGs capazes de ser atendidas em troca do crescimento do partido.

É bom não esquecer que malogrou a última tentativa de montagem de um  ministério de luminares, entre nós. Foi no apagar das luzes do governo Fernando Collor, quando ele já se achava no rumo do pelourinho. Marcílio Marques Moreira, Célio Borja, Hélio Jaguaribe,  José Goldemberg e quantos outros formaram excepcional equipe, mas não dava mais tempo. Foi pena. 

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JUSTIÇA AINDA QUE TARDE

A reintegração de João Capiberibe no Senado exprimiu um ato de justiça, mesmo tardia.  Na Legislatura anterior ele havia sido afastado por decisão da Justiça  Eleitoral,  acusado de compra de votos, e nas eleições do ano passado, apesar  de o  mais votado no Amapá, não foi diplomado pela mesma denúncia. O problema é que ficou provado terem sido falsas as eleitoras-testemunhas que o denunciaram pela compra de seus dois  votos, imagine-se só, por 16 reais cada um.  Claro que tratou-se de perseguição política lá  naqueles ermos, onde ser socialista é um risco dos diabos.

Louve-se a iniciativa do presidente do Senado,  José Sarney, que apesar  de adversário de Capiberibe,  fez questão de dar-lhe posse. Poderia ter convocado a vice-presidente  Marta Suplicy  para a tarefa, mas preferiu cumpri-la.

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