Governo Bolsonaro se condena ao tentar escapar das acusações da CPI da Covid pelo silêncio

Charge do Zé Dassilva (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Os pedidos de indiciamento contidos no relatório do senador Renan Calheiros pelos atos e omissões do governo Bolsonaro durante a pandemia do coronavírus atingiram pontos específicos contra os quais o presidente da República e a sua equipe de governo tentam se livrar, não pela contestação, mas pelo silêncio. O Palácio do Planalto, revela reportagem de Julia Lindner, Natália Portinari, Paulo Capelli, Eduardo Gonçalves e Melissa Duarte, O Globo de quinta-feira, destaca os pontos fundamentais do relatório focalizando direta e concretamente a responsabilidade de Jair Bolsonaro e de seu governo na calamidade que atingiu o país.

Dimitrius Dantas, Daniel Gullino e Bruno Góis, também de O Globo, revelam que o Planalto cogita entrar com uma ação na justiça para tentar arquivar e assim anular o relatório da CPI presidida pelo senador Omar Aziz. A meu ver, não existe confissão mais forte do que essa, sobretudo porque o chefe do Executivo e a sua equipe não pensam em rebater as acusações e apresentar a sua versão sobre os fatos. Pelo contrário. O governo tenta abafar as acusações. Logo, não tem argumentos que ele próprio julga capazes de se opor aos fatos relacionados no relatório Renan Calheiros.

ALTERNATIVA – Claro que haverá votos em separado na CPI por parte dos senadores que apoiam o governo. Mas não há dúvida, no entanto, que o relatório será aprovado e depois encaminhado ao Plenário do Senado Federal. Deve ser encaminhado também ao procurador-geral da República, mas provavelmente a CPI deve ter em mente alguma alternativa caso Augusto Aras não dê sequência ao processo.

Relativamente ao recurso à justiça, o qual o Palácio do Planalto pretende ingressar, não vejo possibilidade de vir a ser aceito. Se por outro motivo não fosse pelo Supremo Tribunal Federal, seria a única escala do Judiciário a que o governo pudesse recorrer. Mas se trata de um absurdo recorrer contra um relatório, pois o recurso natural contra o relatório é a apresentação de argumentos sólidos e versões lógicas para contestar seus pontos.  A CPI acusa o governo de omissão na compra de vacinas, como foi o caso da não aceitação da oferta inicial da Pfizer e da desconfiança colocada à eficiência da Coronavac, vacina chinesa, que terminou sendo aplicada em massa e com sucesso no país.

O presidente da República é também acusado de combater o uso de máscaras e o afastamento entre pessoas como meio de cortar a transmissão do vírus. Além disso, colidindo com as orientações científicas, defendeu o uso da cloroquina e o que classificou de tratamento precoce. Houve a falha terrível do abastecimento de oxigênio a hospitais de Manaus. Na esfera do Ministério da Saúde, há a sombra da suspeita de um projeto de corrupção em larga escala com a compra da Covaxin, vacina indiana.

INTERMEDIÁRIA – Ao invés da aquisição direta das vacinas surgiu a empresa Precisa como intermediária da transação. O preço proposto foi de US$ 1,5 por unidade, enquanto o preço do mercado internacional é de US$ 1 a unidade. Havia assim um sobrepreço de 50% numa compra que passaria de R$ 1,5 bilhão. Fechando o círculo de absurdos surgiram ainda as fake news no sistema da internet tentando colocar versões que se chocavam com a realidade.

José Matheus Santos e Marcel Vizzo na Folha de S. Paulo focalizam ataques desferidos por Bolsonaro contra a CPI e a sua afirmação de que não tem culpa de coisa alguma. O episódio extremamente grave contribui para ampliar o desgaste do governo e assim tornar ainda mais remota a possibilidade de Bolsonaro ser reeleito em 2022. O presidente da República não conseguirá com o programa de auxílio de R$ 400 por mês até o final de 2022 compensar a reuína que, com o relatório da CPI, ampliou-se ainda mais. Hoje, provavelmente, os principais jornais do país devem expor as respostas do governo às acusações que na realidade têm base na própria atuação do Executivo.

VACINAÇÃO – A disposição demonstrada por Bolsonaro contra as medidas lógicas de combate à pandemia não encontraram e não encontram respaldo popular. Tanto que mais de 100 milhões de brasileiros e brasileiras se vacinaram com a primeira e a segunda dose e continuam se vacinando. Logo, manifestam concretamente a rejeição ao tratamento defendido originalmente pelo governo e pelo presidente da República que até agora, neste momento, continua no fundo da questão contrária à vacinação executada em massa em todo o planeta.

A CPI do Senado, de fato, transformou-se num espelho da mais clara realidade que envolve o governo e o país em prejuízo da população. Inclusive, envolve o país no plano internacional, como a GloboNews revelou no final da tarde de quarta-feira ao relacionar os noticiários dos principais jornais do mundo.

DERROTA DE LIRA – A Câmara dos Deputados rejeitou na quarta-feira o projeto de emenda constitucional defendido pelo deputado Arthur Lira reduzindo o poder do Ministério Pública Federal. Promotores e procuradores opuseram-se compactamente contra a iniciativa que no fundo voltava-se para proteger acusados de prática de corrupção. O projeto necessitava de 308 votos a favor, quorum das emendas constitucionais. Mas, ficou abaixo desse limite, atingindo 297 apoios de deputados. O presidente da Câmara, Arthur Lira, passou a examinar uma tentativa absurda, como assinalaram no O Globo Bruno Góis e Evandro Éboli.

Como a rejeição refere-se ao substitutivo do deputado Paulo Magalhães, Arthur Lira admite a hipótese de vir a colocar na pauta o projeto original. Trata-se simplesmente de um absurdo completo, pois no momento em que o substitutivo entrou em votação, e não recebeu emendas aditivas ou modificativas, a proposição original está superada, pois a preferência dada ao substitutivo significa evidentemente a rejeição do texto básico da matéria.

SEM MANIFESTAÇÃO –   Se assim não fosse, os defensores do texto original teriam se manifestado pela inversão da própria pauta. Como isso não ocorreu, nem os contrários ao substitutivo apresentaram emendas e destaques, prevaleceu o substitutivo. Rejeitado esse, matéria igual só poderá ser examinada a partir da legislatura que começa em 2023 com o resultado das urnas de outubro de 2022. Foi mais uma derrota do governo Bolsonaro e do deputado Arthur Lira na esfera parlamentar.

Na economia, o ministro Paulo Guedes revela-se favorável ao auxílio emergencial de R$ 400 através do programa que substituirá o Bolsa Família e passa a admitir que o teto orçamentário deste ano seja ultrapassado, uma vez que o pagamento, não se sabe como, deverá ter início em novembro. Manoel Ventura, Daniel Gullino, Geralda Doca e Fernanda Trisotto, O Globo, expõem claramente as dificuldades e contradições tanto por parte do ministro Paulo Guedes quanto por parte do governo.  Ao anunciar a decisão, o ministro João Roma não tinha informações para explicar a nova engrenagem e execução da iniciativa.

7 thoughts on “Governo Bolsonaro se condena ao tentar escapar das acusações da CPI da Covid pelo silêncio

  1. Eu leio todo dia o Globo, Folha e Estadão, gosto de saber o que a bandidagem convertida está tramando. A digitais fedorentas deles me propicia aplicar o esforço reverso.
    Comem o guardanapo e limpam a boca com o bife e ainda fazem pose de gourmets diplomados.

  2. O deputado Arthur Lira têm sistematicamente atropelado o Rito das votações na Câmara dos Deputados.
    É escandaloso, o que ele vem fazendo. Lira não aceita as votações que vão de encontro aos seus interesses paroquiais.
    Na votação do Voto Impresso, ele perdeu e em seguida colocou em vota na calada da noite, numa manobra inusual. Perdeu novamente.
    Na PEC do amordaçamento do MP, Lira também perdeu, por 11 votos. Vai voltar a carga, no segundo turno da votação. Por que essa perseguição contra o Ministério Público? Chega a ser vergonhoso. Talvez, porque ele esteja sendo investigado.
    Que diferença de Lira para Ulisses Guimarães. Um homem pequeno diante de um gigante.
    Os pais devem tirar as crianças da sala, quando ele aparece nas telas dando entrevistas, com aquela pose de mandão.
    Quanto retrocesso neste país. Bolsonaro manobrou para Arthur Lira substituir Rodrigo Maia. O presidente não acerta uma, tem dedo podre para indicação política.
    Ainda bem, que o Senado, têm dado sinais de equilíbrio. Porém, o bolsonarismo está trabalhando para ter uma bancada expressiva no Senado, em um provável governo Bolsonaro, caso vença a eleição em 2022.

  3. A CPI fez um bom trabalho. Isso ninguém pode negar, a não ser, os que defendem de olhos fechados o governo Bolsonaro. Para os defensores do Mito, não há erro nenhum, tudo é perfeito. Só os outros é que erram. Algo dá errado e está dando muito errado, sem saída, botam a culpa na esquerda, em Cuba, na Venezuela, em Moscou, na China, na Argentina e até no Biden.
    Isso é de uma crueldade com a razão e a natureza dos fatos, que elevam o nível de pobreza da população. Os preços dos alimentos estão na estratosfera e aumenta o número de pedintes nas ruas.
    Se pelo menos tivéssemos oferta de emprego para o trabalhador deixar de precisar de Auxílio, de Bolsas, tendo dignidade para alimentar suas famílias, sinceramente, aplaudiria qualquer governo, inclusive o de Bolsonaro, sem maiores delongas. Governo bom é governo que cuida das pessoas humildes, de preferência oferecendo a vara de pescar, o trabalho digno, é isso.
    A mim não interessa se o governo seja de direita, de centro ou de esquerda, mas, que dê ao seu povo oportunidade de ser feliz, estudar, trabalhar e pouco de alegria nos finais de semana. Tá faltando isso, então, não está nada bom.

  4. Agora deu!
    Bolsonaro é auto condenável. Tudo que faz ou não faz, se condena.
    Vai ver ele leu Universo em Desencanto e se tornou um masoquista por pura rebeldia.
    Bolsonaro é a antítese do Professor Pangloss, aquele que vivia no melhor dos mundos, ele faz o mundo pior para viver dentro.
    Essa imprensa me lembra Suassuna no Auto da Compadecida onde um fazendeiro queria tirar um a tira de couro nas costa de Chicó.
    Se pegar os esfoladores da Globo, Estadão e Folha que com sangue nos olhos e faca nos dentes querem tirar o escalpo e todo couro do presidente como se ele fosse um cabrito pra assar no natal.

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