Governo britânico cai na real e já admite usar o Exército, se houver novos conflitos de rua. E por trás de tudo está o racismo.

Carlos Newton

Com o Parlamento em sessão extraordinária, o premier britânico David Cameron anunciou que enfim considera usar o Exército, se novos distúrbios assolarem o país, e prometeu compensar os comerciantes que sofreram saques. “É responsabilidade do governo assegurar que qualquer contingência futura seja avaliada, incluindo se há tarefas que o Exército pode assumir que possam liberar mais policiais para a linha de frente” – declarou Cameron, após a sessão no Parlamento.

Enquanto isso, a polícia de Londres faz buscas em casas de suspeitos de saques e vandalismo na periferia londrina. A tensão entre as comunidades negra e asiática em Birmingham não é nova e levou a um confronto em 2005, quando uma gangue asiática foi acusada de estuprar uma adolescente negra. O caso nunca foi provado, mas gerou violência entre os dois grupos e resultou no assassinato de dois homens.

Os analistas dizem que nada justifica tamanha revolta social, mas a resposta é justamente o contrário: tudo justifica, especialmente o racismo. Os ingleses dominaram o mundo, mas não se misturaram aos colonizados e até hoje os não-brancos estão segregados pela sociedade britânica. O racismo é evidente, flagrante, palpável. Os imigrantes e descendentes se amontoam em guetos, praticamente não há integração racial com os britânicos ou mesmo entre negros e asiáticos, como são chamados os indianos, paquistaneses e bengaleses.

A população negra no Reino Unido é composta tanto por pessoas vindas de antigas colônias britânicas na África, quanto de origem caribenha. No caso de Birmingham, o segundo grupo é predominante, composto principalmente por descendentes de jamaicanos. Há cerca de um milhão de negros no país. Em Birmingham, os caribenhos são quase 45 mil, correspondendo a 4,7% da população, enquanto os de origem africana somam pouco mais de 11 mil, ou 1,2%. Na década de 80, houve confrontos raciais envolvendo brancos e negros na cidade.

O termo asiático geralmente se relaciona a pessoas com origem no sul do continente (excluindo chineses e japoneses, identificados pela própria nacionalidade). Há mais de 2 milhões de asiáticos no Reino Unido (um milhão deles de origem indiana). Em Birmingham, os paquistaneses somam 66 mil pessoas ou 6,9% da população, seguidos por indianos (51 mil ou 5,3%) e bengaleses (12 mil, 1,3%). A imigração influenciou a culinária: pratos paquistaneses são populares na cidade.

O documentário “Who You Callin’ a Nigger?”, de Darcus Howe, já mostrou o racismo entre minorias no país, por ressaltar não só as tensões entre negros e asiáticos, como dentro dos próprios grupos raciais, dependendo do país de origem.

Mesmo antes dos distúrbios de 2005, já havia tensão entre as comunidades negra e asiática, baseada principalmente na rivalidade econômica local, combinada a disputas de gangues dos dois lados. Essa tensão se repete em outras partes do Reino Unido – onde, embora a taxa de casamentos interraciais esteja aumentando, ela permanece extremamente baixa entre essas duas comunidades.

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JULGAMENTOS SÃO IMEDIATOS

Uma grande diferença entre a Justiça no Reino Unido e no Brasil é que lá os julgamentos podem ocorrer logo após os crimes. Dois homens – um de 38 e outro de 18 anos – já foram condenados à prisão por um período entre dez e 16 semanas, pela participação nos saques em Manchester, no Norte do país.

Centenas de pessoas foram presas em todo o país. Alguns tribunais estão fazendo plantão noturno para lidar com o grande número de suspeitos – em sua maioria, acusados de saques em lojas ou furto de residências.

Uma das pessoas que sentaram no banco dos réus de um tribunal da capital britânica, em Highbury, foi um menino de apenas 11 anos. Detido na terça-feira, ele passou a noite na prisão. Segundo o jornalista da BBC Jon Brain, que acompanhou a audiência, o garoto vestia um blusão esportivo e mal tinha altura suficiente para alcançar o balcão de madeira do tribunal.

No entanto, de acordo com a promotoria, ele estava entre os saqueadores que destruíram lojas em Londres algumas noites atrás. Ele se declarou culpado por ter roubado um cesto de lixo de uma loja de departamentos no bairro de Romford, e será julgado por um tribunal para menores no fim deste mês.

Até lá, ele recebeu a ordem de obedecer diariamente a um toque de recolher das 18h às 6h do dia seguinte.

De acordo com a Polícia Metropolitana de Londres, a famosa Scotland Yard, 805 suspeitos estão presos na capital. Em Liverpool (noroeste), 25 pessoas – com idades entre 15 e 42 anos – já foram julgadas. Em Wakefield, no centro do país, uma mulher de 20 anos foi acusada de convocar um protesto na cidade por meio do site de relacionamentos Facebook.

Em Birmingham, segunda cidade mais populosa da Inglaterra, uma vigília foi organizada no início da noite, para homenagear três homens que foram mortos durante os tumultos. Eles eram muçulmanos e estão protegendo as lojas da comunidade islâmica. Foram atropelados enquanto faziam uma patrulha durante a onda de saques, e isso acirrou os protestos.

Agora, no desespero, o governo já pensa até em censurar a internet, era só o que faltava.

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