Gravação mostra que o PM João Dias Ferreira foi pressionado por um major a não denunciar o governador Agnelo Queiroz por corrupção.

Carlos Newton

Impressionante a denúncia dos repórteres Filipe Coutinho e Lúcio Vaz, da Folha de S. Paulo, mostrando que o policial militar João Dias Ferreira, preso na semana passada pela corregedoria da corporação, foi pressionado por um major e desistiu de acusar o governador Agnelo Queiroz (PT), investigado por irregularidades quando era ministro do Esporte.

João Dias Ferreira é dono de duas ONGs acusadas de desviar dinheiro do Esporte. O policial foi preso e solto na semana passada na sede do governo do Distrito Federal, após jogar R$ 159 mil na mesa de funcionários e agredir duas pessoas – entre elas, um policial.

A reportagem assinala que, após ser preso pela corregedoria da PM, Ferreira foi pressionado por um colega de corporação a não falar sobre a origem do dinheiro, que seria um “cala-boca” de integrantes do governo para que ele não delatasse o hoje governador Agnelo Queiroz. A Polícia Militar já investiga o caso, que ocorreu por volta das 7h de quinta-feira – João Dias Ferreira foi preso por volta das 16h de quarta.

A Folha teve acesso a um diálogo de 25 minutos entre João Dias e integrantes da corregedoria da PM. A conversa se deu após o advogado do PM, André Cardoso, deixá-lo sozinho – ele acompanhou o policial por 14 horas naquele dia.
Há dúvidas sobre o autor das ameaças. Segundo o corregedor da PM, coronel Jahir Lobo, a conversa teria sido com o major Márcio Barbosa, enquanto os advogados de João Dias dizem que foi com o major Elisnei Dias. Mas o corregedor garante que o major Elisnei não estava presente durante a conversa.

No diálogo, o major tentou frear Ferreira quando ele começou a falar de irregularidades cometidas por pessoas ligados ao governador. O major disse que o delator seria “réu confesso” caso falasse de Agnelo Queiroz.

“Você está ingressando no campo da política onde os administradores não são eternos. […] Dá um tempo, pensa o que você vai fazer, para decidir se é réu confesso e cometeu corrupção passiva. […] Isso aqui não vai para a imprensa, o sistema aqui é diferente. Você está trazendo um esquema de corrupção, que é principalmente sua”, disse.

Na conversa, o major deixou a entender que Ferreira poderia ter tratamento diferenciado. “Nossa corporação, lamentavelmente, tem dois tratamentos. Não sei se você está entendendo, uma turma é tratada de uma forma e outra tratada de outra forma.”

O major disse ainda que Ferreira deveria se concentrar apenas no caso de lesão corporal. “O ideal, do ponto de vista jurídico, é lesão corporal leve. No Código Militar, de repente, você não fica nem hoje lá dentro”, disse o major. “Estou te dando subsídios para seu advogado te tirar”, completou.

A conversa foi interrompida uma vez, quando o major atendeu o telefone. “Estou tentando, estou tentando”, disse.
O advogado André Cardoso afirmou que a gravação “confirma que houve uma tentativa de abafar, por parte da autoridade constituída”. “Isso não é correto. Não posso dizer se foi algo político ou corporativo. Meu cliente está sendo pressionado”, disse o advogado.

Na mesma manhã, segundo o corregedor, o major Márcio Barbosa afirmou que Ferreira desistiu de delatar Agnelo Queiroz e de apresentar mais detalhes do caso que havia contado horas antes, quando foi prestado depoimento sobre lesão corporal.

“Ele não deveria ter instigado João a não falar. Já foi aberto inquérito policial militar para ouvir o major e chamaremos João Dias para prestar o depoimento que havia prometido, agora na presença do Ministério Público Militar”, disse o corregedor.

Procurada pela Folha, a assessoria do governador do Distrito Federal disse que ele não iria se pronunciar, alegando que o caso está a cargo da corregedoria da PM, que está tomando providências.

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