Greves explodem no país: onde está o ministro Brizola Neto?

Pedro do Coutto

Reportagem de Flávia Foreque, Márcio Falcão e Kely Matos, Folha de São Paulo de sexta-feira, focalizou as greves de servidores públicos, universidades e empresas estatais elétricas que eclodiram no país e se arrastam há mais de uma semana de negociações sem êxito. A foto é de André Borges. No texto, acentuada a participação do Secretário Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e da ministra do Planejamento, Miriam Belchior. Mas onde aparece o ministro Brizola Neto, titular do Trabalho? Em lugar algum. Ausente.

Uma ausência incompreensível, já que o movimento grevista na Eletrobrás, Agência Nacional de Energia Elétrica, além de outras reguladoras, envolve milhares de empregados celetistas. Portanto situa-se na esfera do Ministério do Trabalho. A pasta existe para uma série de atividades, entre elas a intermediação de conflitos salariais.

Os servidores do sistema Eletrobrás reivindicam 10% de reajuste. A empresa fixou-se em 5%. Brizola Neto deveria entrar na bola dividida para pelo menos colocar em prática um cálculo de aproximações. Não creio que seja tarefa difícil. A Petrobrás, por exemplo, antecipou-se a qualquer movimento e liberou um aumento efetivo de vencimentos aceito pelos sindicatos que atuam na área do petróleo.

Conceder aumento real não possui maior importância econômica se comparado aos prejuízos de toda ordem causados à atividade estatal. O fornecimento de energia não foi afetado, mas os investimentos sim. Geram atraso nas obras e são vários os empreendimentos de grande porte em curso no país. A greve atinge também a esfera dos projetos. Perda de tempo. Quanto vale isso?

O confronto entre capital e trabalho, seja o capital privado ou estatal, não pode ser reduzido a uma luta de força. Ele não se restringe a estas duas partes: projeta-se sobre a economia nacional. Pesa na atmosfera ´política. Sobretudo porque trabalhar com satisfação é uma coisa. Trabalhar sob desconfiança é outra. Neste segundo caso a produtividade cai. O prejuízo não é visível, mas é bem sensível. Fácil perceber a diferença entre o bom e o mau humor. Entre a boa vontade e a falta de empenho.

Situações assim verificam-se em lojas comerciais, inclusive grandes lojas de departamentos. Você entra, demora a ser atendido. Pergunta e a resposta custa a vir. Acontece muito. Clientes desistem. A causa está na falta de uma política de pessoal.

O treinamento também. Ele funciona bem quando existe reciprocidade entre a transmissão dos conhecimentos práticos, de um lado, e sua recepção e compreensão de outro. Para isso, nomeio, tem que estar presente a satisfação humana. Sem ela não há desenvolvimento – aí sim a palavra cabe – sustentável.

Se é assim nos empreendimentos particulares, tem que funcionar da mesma forma, por maioria de razão, nas empresas estatais. O país joga o destino de seu desenvolvimento na atuação delas. Até porque sem investimentos estatais, as aplicações particulares de capital se retraem. Claro. Pois se o poder maior se encolhe, como esperar que o poder menor se disponha a expandir programas?

Uma coisa leva à outra. E o salário é o ponto maior de convergência possível. Sobretudo porque é o único instrumento efetivo de redistribuição de renda. Se o salário perder para a inflação, como aconteceu no período FHC, nada feito. O Brasil anda para trás. Se fosse possível progresso sem salário, não haveria problema no mundo. Onde está o ministro do trabalho?

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