Guerra de versões

Carlos Chagas

A História revela a existência de documentos secretos assinados por personagens que, na realidade ou na imaginação, sentem-se ameaçados de morte e passam para o papel suas versões a respeito de crises ou acusações sofridas por eles. Caso morram em circunstâncias pouco claras, ou mesmo, se desaparecerem, estarão cobertos por declarações de próprio punho, geralmente guardadas na caixa-forte de bancos ou entregues a parentes, com ordens para divulgá-las na hipótese de ter acontecido o pior.

O general Golbery do Couto e Silva foi um deles. Depois de seu rompimento com o presidente João Figueiredo, por conta do escândalo do Riocentro, temendo pela própria vida, deixou longo depoimento detalhando responsabilidades no episódio. Como morreu de causas naturais, ignora-se o paradeiro de sua denúncia, entregue em Nova York à sede de um banco dirigido por amigos seus.

Vem agora Marcos Valério e, cedendo ao avanço da tecnologia, teria deixado quatro cópias de um vídeo onde joga barro no ventilador, a respeito do mensalão. Teria dado os nomes de todos os envolvidos, bem como detalhado suas andanças por Brasília e seus palácios. Só quem pode atestar a existência do vídeo é o próprio publicitário e mais os técnicos contratados para a gravação, além de sua mulher.

A partir das versões que correm a respeito, tocou horror na capital federal. Valério teria acusado o ex-presidente Lula de mentor de toda a lambança? Disporia de documentos envolvendo líderes do PT, a começar por José Dirceu? Proclamando sua inocência, apontaria culpados?

O ônus da prova cabe a quem alega, contrapondo-se afirmações de um lado e de outro. O personagem esteve no gabinete do então presidente da República? Quando? Jamais Lula o recebeu? Frequentou a Granja do Torto? Dispõe de atos de ofício incriminando antigos governantes? Terá sido apenas um boy de luxo de líderes partidários ou um dos cabeças que assaltou cofres públicos e subornou deputados?

A guerra continuará de versões enquanto não aparecer esse vídeo, se é que existe, ou até que Valério se disponha a conceder uma entrevista, que seu advogado jura jamais ter sido dada.

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GUERRA SANTA OU GUERRA INÓCUA?

Tem a Igreja Católica o direito de abrir guerra contra a Igreja Universal do Reino de Deus e outras organizações religiosas e financeiras, mas apenas se for no plano teológico. Levar o conflito para o processo eleitoral terá sido um pouco demais, em especial quando D. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, determinou que nas missas de domingo, em todas as igrejas da cidade, os padres se posicionassem contra a candidatura de Celso Russomano a prefeito.

Houve tempo em que a Igreja Católica atuava em todas as eleições, recomendando e vetando candidaturas aos fiéis, pretensamente quando estivessem em desacordo com a doutrina do Vaticano. Os anos passaram e já não há mais listas dirigidas ao eleitorado. Passou a época em que candidatos desquitados e casados de novo não podiam ser votados, sob pena do fogo eterno para seus eleitores. Não deixa de ser estranha, assim, a intervenção do prelado.

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