Guerra do Rio: há policiais que cumprem o seu dever e há os que se associam ao crime e traem a sociedade

Milton Corrêa da Costa

A polícia do Rio, em poucas horas, vivenciou, nesta quinta-feira, 09/11/, os dois lados da moeda. Uma quadrilha de policiais e traficantes – os agentes do estado escoltavam os bandidos e as armas na fuga da Favela da Rocinha – foram presos em flagrante, no bairro da Gávea, na Zona Sul do Rio, pela Polícia Federal, que cercava a localidade (uma UPP deve ser instalada brevemente na citada favela) após checar escutas e rastrear a tornozeleira eletrônica usada por um dos marginais da lei.

Ressaltem-se as chocantes fotografias dos dez integrantes da quadrilha (quatro são policiais. entre civis e militares, e um é ex-PM) presos e algemados postados no chão. Ou seja, quem tinha por missão servir e proteger a sociedade, optou por proteger o tráfico, num desvio de conduta de suma gravidade. A escolta – vejam o poder aquisitivo do tráfico na Rocinha – havia sido acertada pelo valor de R$ 2 milhões. Vergonhosa traição com todas as letras. Atitude desabonadora, indigna e inaceitável dos pseudos policiais.

No outro lado da moeda, como deveria de se esperar sempre da conduta policial, na missão de servir e defender a sociedade, momentos após a prisão da quadrilha de agentes do estado e traficantes, profissionais do Batalhão de Choque, uma unidade de elite da PM do Rio, lograram prender, no bairro da Lagoa, também na Zona Sul da cidade, escondido no porta-malas de um carro, o traficante Nem, o mais procurado bandido do Rio, chefe do tráfico da Favela da Rocinha, que responde a 10 processos e 20 inquéritos pelos mais diversos crimes cometidos.

Um dos ocupantes do carro, em que se encontrava o traficante Nem, inclusive um advogado (atenção OAB) teria oferecido R$ 1 milhão para que fossem liberados. Os policiais não aceitaram a proposta da propina e prenderam os quatro ocupantes do veículo suspeito em nome da lei e da ordem.

Não obstante a dever cumprido pela polícia, com uma prisão extremamente significativa no processo de enfraquecimento do poder paralelo do Rio, no dia anterior um esquema de corrupção, tendo a frente um delegado da Polícia Civil do Rio, chefe do Núcleo de Controle de Presos, resultou na detenção, até agora, de 15 pessoas, oito são policiais, acusados de negociar regalias para presos, mediante uma tabela de valores de propina, para que os detentos cometessem assaltos e outros crimes fora do cárcere. Inacreditável o ponto a que chega a fraqueza moral de agentes do estado.

Registre-se, que além do bárbaro assassinato da juíza Patrícia Acioly, em que é acusado como mentor intelectual do crime um oficial de alta patente da PM, dias atrás integrantes de uma Unidade de Polícia PacIficadora (UPP), localizada no Morro Do Fallet (centro do Rio), inclusive os oficiais comandantes diretos da Unidade, foram acusados de se associarem com traficantes da localidade, em troca de facilitação no combate ao comércio de drogas. Parece episódio de filme policial, porém, lamentavelmente, é um fato real.

A pergunta que fica é até que ponto a fraqueza moral de alguns policiais, sob o escudo dos baixos salários, os transformam em bandidos oficiais? São desvios de conduta inaceitáveis no exato momento em que a política de implantação das UPPs no Rio traz a real possibilidade, de além do resgate de cidadania dos até então oprimidos pelo terror do tráfico, da criação de uma polícia democrática, parceira, cidadã e sobretudo confiável. A ação dos integrantes do Batalhão de Choque da PM do Rio, aqui destacada, ao prender, em nome da lei e da ordem o traficante Nem, não é virtude, é rotina e sobretudo dever de policiais verdadeiramente vocacionados.

A sociedade, a destinatária dos serviços policiais, clama por uma polícia verdadeiramente confiável, não por uma instituição desacreditada. Os desvios de conduta de policiais têm que deixar de ser rotina. A sociedade assim o exige. Vale lembrar que ao ingressarem nas instituições policiais juram, perante o pavilhão nacional, defender a sociedade com o sacrifício da própria vida, não aviltá-la de forma tão grave.

Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro

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