Guerra prematura entre Ciro e Lula pode ser decisiva no resultado dessas eleições

Blog do XANDRO: 05/02/2010

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Ascânio Seleme
O Globo

Todo mundo no PT sabia que seria difícil evitar um confronto com Ciro Gomes, mas também não se esperava que partissem do próprio PT as pedradas que desencadeariam a tormenta. O ideal era que o confronto ocorresse apenas na campanha, talvez nos debates, na propaganda de TV, nas entrevistas dos candidatos.

Mas, não, os ataques que ajudam a desmontar a história alternativa que o partido pretendia contar sobre os seus quatro mandatos no governo do Brasil foram iniciados depois das agressões da militância petista a Ciro na manifestação do dia 2 de outubro. Era tudo o que ele precisava e queria. Imaginem se o quadro seria o mesmo se no palanque da Avenida Paulista Gleisi e Haddad tivessem dado as mãos a Ciro.

LEITE DERRAMADO – A estratégia agora no PT, com o leite derramado prematuramente, é evitar danos maiores. A primeira ordem do comando, de não responder a eventuais ataques, caiu antes mesmo de ser implementada. A afirmação de que Lula contribuiu de maneira decisiva para o impeachment de Dilma, que passou anos falando mal dela e de seu governo, foi prontamente respondida por Dilma.

E, mais grave, pelo próprio Lula, que mordeu a isca. Falou, de maneira inapropriada para um momento grave como este, que Ciro deve ter sequelas no cérebro em razão da Covid, mas não fez referência direta à acusação de que falava mal de Dilma. Talvez para não ser pego na mentira, vai que alguém gravou.

Os ataques de Ciro são de quem conhece muito bem Lula e o PT. Quando partem de Bolsonaro ou de seus aliados, as investidas têm muito menor eficiência do que quando disparadas por gente que já foi de dentro.

JUNTO COM SANTANA – Ciro foi da casa, sabe muito bem com quem está lidando, conhece concretamente os métodos petistas e percebe cada dissimulação, todas as tergiversações. Mais grave, Ciro sabe se expressar. Bolsonaro, não. E Ciro tem agora João Santana, outra fonte inesgotável de informações que podem complicar muito a candidatura petista até a eleição do longínquo outubro de 2022.

Aliás, o tempo é outro problema para o PT. Se serve para Lula viajar e negociar alianças ao centro e à direita, serve também para aos poucos ir manchando sua aura de político perseguido, desmanchando a imagem de um homem indefeso que foi fustigado, condenado e preso por um juiz politicamente comprometido e um Ministério Público corrupto e interesseiro. O manto de santo com que se vestiu Lula pode virar farrapos numa campanha tão longa.

HORA DO IMPEACHMENT – Teoricamente, esta ainda era a hora para se pressionar com todas as forças democráticas pelo impeachment do presidente, denunciado por mais de 30 crimes de responsabilidade. Foi o PT que minou a causa ao abandoná-la.

Logo o PT que pediu o impeachment de todos os presidentes não petistas desde a redemocratização. Ninguém escapou da saga petista, nem mesmo o acima de qualquer suspeita Itamar Franco. Contra todos se empenhou e mostrou seus dentes. Já com o Bolsonaro, apesar do discurso inicial, aquietou-se porque, por seus cálculos corretos, com ele no páreo fica mais fácil a eleição de Lula.

Lula foi chamado de corrupto, arrogante e egocêntrico. Dilma de incompetente. Sobre o PT, Ciro disse ver um grupo de fanfarrões e hipócritas neoliberais. Difícil dizer o que dói mais na alma petista, ser chamado de corrupto ou de neoliberal.

PT CENTRO-ESQUERDA – Deixando à parte todos os conhecidos exageros retóricos de Ciro Gomes, o fato é que o PT ao longo dos anos foi se transformando de um partido socialista-marxista em um agrupamento de esquerda social democrática, o que não é ruim, absolutamente, até ser hoje de centro-esquerda, como ensinou o professor Fernando Haddad.

Falta um ano para eleição, tempo demais nos cálculos petistas para ficar vendo seu telhado ser ameaçado pela chuva de pedras que já começou a pingar. A ordem de não reagir a Ciro Gomes terá de ser atendida, sob pena de Lula perder a polarização que pretende exclusiva com Bolsonaro.

De sua parte, Ciro sabe que é improvável tirar Lula do segundo turno. Seu objetivo é dividir a esquerda até onde conseguir e caminhar sobre os votos do centro para alijar Bolsonaro da disputa final. Também aí terá de ralar muito. De qualquer forma, a guerra prematura à esquerda está aberta e pode ser útil aos demais.

6 thoughts on “Guerra prematura entre Ciro e Lula pode ser decisiva no resultado dessas eleições

  1. Ciro / Santana. Doravante Ciro será o ventriloco do Santana. Será orientado nos mínimos detalhes. Faz parte da farsa que Ciro representa. Deixou toda sua identidade de lado. O importante é vencer, o resto é o resto.

  2. Para quem gosta de fuxico, taí um prato cheio, mas para quem quer solução para a política, o país e a população, isso não passa de mais perda de tempo versus tempo perdido, mais material para alimentar o velho FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assom o País”.

  3. Hahahaha… o PT centro-esquerda. Será se o autor do texto é idiota mesmo em acreditar em tamanha baboseira ou acha que nos somos idiotas? O PT é tão de centro, quanto a Manuela D’Ávila é religiosa. Mas o professor Haddad disse que sim. Gzuis…

  4. Como todo mundo já sabe o destino do mito está umbilicalmente ligado ao bom desempenho da economia. Se o crescimento econômico acontecer já no primeiro trimestre já era, o mito se reelege. O que resta à oposição é esperar e rezar pelo pior, aumentos do desemprego e da inflação, caso contrário, terceira, quarta ou quinta via, só para 2026. E dependendo das “pesquisas” o Luladrão nem dê a cara a bater, é velho e sabe que é feio sair da política derrotado.

  5. Ascânio Selene escreve muito bem. Seus artigos no O Globo, às quintas e sábados são sempre muito bons.
    Na prática, os ataques de Ciro, vêm causando e causarão estragos relevantes na campanha eleitoral do PT. Do jeito que está, não há mais espaço para conciliação.
    O resultado será os dois morrerem na praia e Bolsonaro vencer de novo, por incapacidade de união do campo progressista, digo isso, porque nem Ciro nem Lula são de esquerda, como gostam de dizer enganando o distinto público, contribuinte eleitor.
    Bolsonaro está rindo de orelha a orelha com essa briga de garotos malvados, que querem ganhar de qualquer jeito as disputas mais irrelevantes, quanto mais a mais importante: o cargo de presidente do Brasil.
    Bolsonaro vem destruindo os possíveis candidatos. Afastou Mandetta, Moro, Dória, Wilson Witzel, Rodrigo Maia e agora está olhando feio para Rodrigo Pacheco presidente do Senado, que está mordendo a mosca azul antes do tempo, empurrado por Gilberto Kassab presidente do PSD.
    Observo esse quadro com certa tristeza, pois prejudica o Brasil. Antes do tempo, todos só pensam na eleição, a começar pelo presidente Bolsonaro. E aí, culpo o presidente Fernando Henrique Cardoso, que lutou desesperadamente pela emenda da reeleição, enfim aprovada, que lhe deu mais quatro anos de mandato, a partir de 1998. FHC ficou oito anos no Poder desde 1994. Passou a faixa presidencial para Lula em 2002. Lula se reelegeu em 2006 e ficou no Poder até 2010.
    Reeleição de mandatos, de presidente, governador e de prefeitos, são um câncer, que devem ser extirpados.

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