Guerra Santa eleitoral

Sebastião Nery

Gilberto Freyre, pai da sociologia e da antropologia brasileira, que longamente resistiu à ditadura de Getúlio Vargas, foi candidato à Constituinte em 45, em Pernambuco, pela Esquerda Democrática, banda socialista da UDN, que depois virou Partido Socialista Brasileiro.

Foi o orador oficial do comício que recebeu Luiz Carlos Prestes em Recife, “a cidade vermelha”, logo depois que ele saiu da cadeia. E deixou a multidão em silêncio, quando o saudou citando o filósofo Unamuno:

– Ave ferida, pelicano rasgado em pleno peito.

A Liga Eleitoral Católica (LEC), irada, vetou sua candidatura.

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GILBERTO FREYRE

Monsenhor Sales, vigário de Soledade, todo rendado, todo massageado, cabelos emproados e oratória barroca, sempre que via dona Madalena, mulher de Gilberto Freyre, nas missas, entre os fiéis, desancava-o no sermão, condenando sua candidatura como “comunista”.

Gilberto Freyre foi tolerando e monsenhor Sales subindo de tom. Até que um dia deu esta declaração ao Diário de Pernambuco:

– Eu não digo que Monsenhor Sales não deva usar algum carmin. Mas que use tanto quanto está usando é demais.

Monsenhor Sales se calou, Gilberto Freyre se elegeu, apesar da Liga Eleitoral Católica.

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IMPOR CANDIDATOS

A Liga Eleitoral Católica foi uma tentativa frustrada, inquisitorial, meio medieval, da Igreja Católica, nas décadas de 30 e 40, até as eleições de 50, de impor e vetar candidatos em época de eleições.

Em 32, nos preparativos das eleições de 3 de maio de 33 para a Constituinte de 34, Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, e Sobral Pinto, membros do católico Centro Dom Vital, fundado pelo poderoso ativista cultural Jackson de Figueiredo, propuseram ao cardeal do Rio, dom Sebastião Leme, a criação de um partido político católico.

Dom Leme não aprovou a idéia e propôs a “formação de um organismo eleitoral sem caráter partidário, que atuasse como grupo de pressão”. Foi então criada a LEC, dirigida por uma Junta Nacional, cujo presidente era Pandiá Calógeras e Alceu Amoroso Lima secretário-geral.

Fazia listas aprovando e vetando candidatos. O eleitorado não tomava conhecimento. Foi assim em 33, depois na Constituinte de 45 e em 50, quando impugnou em vão a candidatura de Café Filho à vice-presidência da República com Getúlio Vargas.

Não deu certo. O eleitorado não rezava pela mesma cartilha deles.

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