Gustavo Franco diz que a crise européia afetará pouco o Brasil. Para o ex-presidente do BC, o Brasil precisa é acelerar o crescimento, mas não consegue.

Em entrevista ao site IG, o professor de Economia Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, faz interessantes reflexões sobre o momento econômico internacional e seus reflexos no Brasil. Veja abaixo parte da entrevista de Franco aos repórteres Mariana Sant’Anna e Valmir Moratelli.

Diante da possibilidade da Europa ter uma década perdida, em contraste com a do Brasil, como o senhor vê o impacto para a economia brasileira?

Gustavo Franco: Bom, primeiro, não vamos exagerar a prosperidade brasileira. O Brasil tem crescido, o que é muito bom, mas a uma taxa um tanto anêmica. Na média, nos últimos dez anos, nós estamos crescendo menos do que 4% ao ano. Não é uma taxa de crescimento de se orgulhar.Está muito inferior ao padrão dos BRICs. Pode-se até dizer que estamos perdendo tempo e oportunidades, porque não estamos conseguindo empreender as reformas e as melhoras na política econômica que nos colocariam num patamar de crescimento parecido com a China. Estamos fracassando nisso.

Então não seremos afetados?

Gustavo Franco: O fato de a Europa ficar estagnada nos próximos dez anos vai mudar muito pouco a nossa perspectiva, já que o que faz o Brasil ficar meio trancafiado num crescimento baixo não tem nada que ver com a Europa, tem que ver com coisas nossas mesmo. Desde que não haja um episódio agudo de crise, como foi o último trimestre de 2008, a crise europeia não vai ter maior impacto aqui no Brasil.

O senhor acredita que há solução para a crise?

Gustavo Franco: Claro que há. Não tem mundo sem crise, nem crise sem solução.

Os governos estão na direção correta?

Gustavo Franco: Está convergindo para a solução, sim. A dificuldade é a velocidade. É uma dificuldade que tem que ver com a própria construção europeia, supranacional, mas também é um modo de ver a dificuldade decisória naturalmente produzida pela democracia. Os chineses têm uma crítica constante ao ocidente, aos Estados Unidos em particular, no sentido de que a democracia atrapalha as decisões pertinentes para o crescimento. Mas sabemos que na China não há direitos trabalhistas, não há proteção ao meio ambiente, não há várias coisas que são próprias do regime democrático. A Europa, dentro dos quadrantes de uma democracia, está andando na velocidade e na urgência possíveis. Claro que às vezes caminha num gelo muito fino e os mercados financeiros acham que é lento.

O senhor vê a inflação com preocupação?

Gustavo Franco: Vejo com preocupação, sim, porque temos uma composição de políticas econômicas que vejo como equivocada. Boa parte dos nossos problemas está exatamente aí. Temos uma política fiscal excessivamente expansionista, com taxa de crescimento do gasto público muito alta. Para compensar essa distorção, temos que praticar as maiores taxas de juros do mundo. Isso cria a armadilha do crescimento baixo. Mas se nós tentarmos sair dessa armadilha mexendo para baixo nos juros sem alterar a política fiscal, vamos provocar mais inflação e não vamos gerar um crescimento que não seja uma espécie de voo de galinha.

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