Há 50 anos: pantomima ou tragédia? (III)

Carlos Chagas

Por volta do meio-dia daquele 25 de agosto, sexta-feira, cinquenta anos atrás, no palácio do Planalto começavam  a transpirar rumores sobre a renúncia do presidente Jânio Quadros. Os reporteres Ari Ribeiro, do Estado de S. Paulo, e Edisio Gomes de Mattos, do Jornal do Brasil, sentiram que alguma coisa  acontecia,  depois de pequenos contatos com o secretário-particular, José Aparecido de Oliveira, e o secretário de imprensa, Carlos Castello Branco. Avisaram suas matrizes e a Rádio JB, no Rio, foi a primeira a divulgar a existência de crise.

O presidente já se retirara da sede do governo, despedindo-se das secretárias e funcionários de seu gabinete com um significativo “desculpem-me, desculpem-me”.  Passou pelo Alvorada para pegar Dona Eloá e algumas malas que ela conseguira preparar, depois de avisada pelo telefone, e seguiu para a área militar do aeroporto da capital. José Aparecido ia junto, mas os jornalistas, ainda não. 

Antes de embarcar,   havia ordenado ao major Amarante, ajudante-de-ordens, que voltasse rapido ao Planalto para trazer a faixa presidencial, que havia esquecido. Assim foi feito, sem que ninguém imaginasse porque um presidente  renunciante queria levar consigo o signo maior do poder.

Ao subir as escadinhas do avião, Jânio  virou-se histrionicamente para o horizonte e falou alto, para os poucos que lá estavam pudessem ouvir e registrar: “Adeus, cidade maldita! Jamais porei os pés aqui!”.

No começo da tarde, com o presidente  voando para São Paulo, o marechal Odilio Denis, o almirante Silvio Heck e o brigadeiro Grun Moss  estavam reunidos no ministério do Exército, na Esplanada dos Ministérios. Depois do choque, partilhavam de razoável indignação:  como aquele homem pudera fazer uma coisa dessas? Onde estava o seu sentido de responsabilidade? Não imaginava a convulsão que causaria no país? Era doido mesmo e melhor para todos que fosse  embora!

Daquela demorada análise da situação foram surgindo algumas decisões imediatas, como colocar as forças armadas de prontidão em todo o país, e  outras   embrionárias, como a de que o vice-presidente João Goulart não poderia assumir, “pois era comunista”.

Almoçavam o deputado Pedro Aleixo, líder do governo na Câmara, alguns amigos e o presidente da Light, quando toca o telefone. Da sala da UDN,  Aliomar Baleeiro avisa Aleixo, que perplexo retransmite a informação aos demais. O presidente da Light se abre: “Antes de vir para cá eu já estava sabendo”.

Em sua sala,  na presidência da Câmara dos Deputados, Raniéri Mazzilli inteira-se dos boatos quando, do ministério do Exército, o marechal Denis  pede-lhe respeitosamente  que vá ao seu gabinete. Ao lado estava o deputado José Maria Alckmin, informado da renúncia, e eles combinam que Mazzilli irá no carro oficial, mas, logo atrás, em outra viatura, sem ser percebido,  Alckmin, para ficar na espreita. Caso o presidente da Câmara não voltasse, ou demorasse muito, a sagaz raposa mineira entenderia ter sido ele detido e tomaria as providências cabíveis. Quais, ninguém soube, até porque não existiam. Iria o Congresso prender os três ministros militares?

A conversa durou pouco. Denis, Heck e Moss participaram a Mazzilli que ele deveria assumir de imediato  a presidência da República, dada a viagem de João Goulart ao exterior. Era o substituto constitucional. Sem abrir o jogo, os ministros ponderaram as dificuldades para Jango ser empossado. O presidente da Câmara entendeu tudo, mas fez que não. No estacionamento do ministério, José Maria Alckmin junta-se a ele e vão conjecturando sobre o que fazer.

Como presidente do Senado e do Congresso, Auro de Moura Andrade toma as primeiras providências. Tinha-se tornado de aliado a adversário e,   naquele período,    a desafeto de Jânio Quadros. Eram ainda tempos em que dirigentes parlamentares tinham autoridade e mandavam. Auro telefona para o administrador do aeroporto de Brasília e determina-lhe   anunciar, pelos alto-falantes, que todos os deputados e senadores prestes a viajar a seus estados retornassem ao Congresso. Ao mesmo tempo, proíbe o embarque de congressistas até com a suspensão dos vôos, se necessário.  Sextas-feiras são  sextas-feiras, na capital, o aeroporto estava cheio  de representantes do povo. Todos voltaram.

Por volta de três horas da tarde o presidente do Senado é informado de que o ministro da Justiça irá visitá-lo em poucos minutos. De modo formal,  Pedroso Horta entrega a Auro uma folha de papel  com a frase mais simples e mais explosiva de quantas ele havia conhecido: “Neste dia  e nesta hora, por este instrumento, renuncio à presidência da República. As) Jânio Quadros.”

Por que Horta seguia instruções precisas de Jânio, para só no meio da tarde  fazer a comunicação? Porque àquela hora, imaginara o presidente, não haveria quorum no Congresso e  a questão ficaria para segunda-feira, quando então o país estaria convulsionado e, pensava ele, com o povo nas ruas exigindo o seu retorno. Claro que como ditador ou sucedâneo.

Acontece que o sagaz político tinha sido  péssimo advogado, sem que seus auxiliares suprissem a deficiência. A renúncia não tinha que ser apreciada, muito  menos  votada. Tratava-se de  ato unilateral que produzia  efeito imediatamente comunicado. Deputados e senadores nada teriam a fazer senão ouvir e preparar-se para os próximos lances constitucionais.

Auro de Moura Andrade ainda tentou obter informações ou análises de Pedro Horta, mas ele foi formalíssimo, dizendo haver cumprido sua  missão de entregar o documento e  retirar-se.

O presidente do Senado comunica-se com o presidente da Câmara enquanto os corredores,  gabinetes e plenários do Congresso encontram-se fervendo. Os consticionalistas do PSD, com Gustavo Capanema e Oliveira Brito à frente, são peremptórios: Jânio não é mais presidente, pelo menos logo depois da leitura da renúncia.

A sessão especial do Congresso, convocada e realizada de forma meteórica, limita-se à leitura do pequeno texto, por Auro de Moura Andrade, que em seguida convida os presentes a comparecerem  ao palácio do Planalto para prestigiarem a posse de Raniéri Mazzilli na presidência da República. Poucos parlamentares protestaram, a perplexidade era geral. Os governistas, como Pedro Aleixo, sentiam-se desprestigiados, pois deveriam ter sido informados com antecedência pelo presidente, para prepararem a defesa e a preservação do poder. Agora, tudo ficaria em mãos do PSD, partido derrotado nas urnas por Jânio mas elevado ao poder por um golpe do destino.

Na base aérea de Cumbica, onde aterrissara o avião presidencial, Jânio é informado pelo rádio do piloto do que acontecia em Brasília.  Nega-se a deixar a aeronave, cujo calor do estacionamento torna-se  insuportável. Está avançado em doses de uísque, não quer  falar com ninguém e fica sem ação ao saber que o Congresso está reunido para consagrar  sua fuga do poder. Como poderia ter acontecido aquele desastre? O que falhara? Quem o traira, se  todos ignoravam a trama de um homem solitário?

Do outro  do mundo, em Cingapura, depois de um tour noturno pela cidade, João Goulart  recolhera-se à sua suite. São quatro da madrugada lá, mas aqui, quatro da tarde do dia  anterior. O senador Barros Carvalho, integrante da comitiva, é acordado por telefonema de um repórter da Associeted Press, de Paris. A telefonista do hotel não quis passar a ligação para a cabeceira do vice-presidente. Assim, escolhera alguém  da comitiva.  O  senador acorda o deputado Franco Montoro, do PDC, e ambos tomam coragem para despertar João Goulart. De imediato reúnem-se todos na suite de Jango, assustados.  Barros Carvalho liga para o serviço de bar. Pede que subam taças e  garrafas de champagne. A euforia sucede o susto e alguém faz o primeiro brinde, ao novo presidente do Brasil. Jango, velho vendedor de bois, apesar de seus 43 anos, prefere brindar ao imponderável. Inicia-se outro capítulo de uma das mais trágicas novelas de nossa História, mas seu relato fica para outro dia. (final)

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