Há juros bancários que atingem 30 vezes o valor da inflação

Pedro do Coutto

Toda vez que entra na ordem do dia do Conselho Monetário Nacional a questão dos juros pagos pelo governo através da Selic, os jornais, caso da Folha de São Paulo, publicam quadros comparativos que regem os índices do mercado. Impressionante. Reportagem excelente de Carolina Matos, Anderson Figo e Felipe Peroni (Folha de 17) focalizou o tema.

A taxa inflacionária de março de 2012 a março de 2013, portanto dos últimos doze meses, foi de praticamente 6,5%. Muito bem. Mas os juros do cheque especial vão à média de 8% mensais, mais que 170% ao ano. A diferença para o refinanciamento de compras por cartões de Crédito é muito pequena  (para mais).

Assim, os juros dos cheques especiais e dos cartões de crédito atingem, ao ano, um patamar trinta vezes maior, em números redondos, do que o índice oficial da inflação revelado pelo IBGE e pelo Banco Central. Os juros do crédito pessoal encontram-se em torno de 2,5% ao mês – a lucratividade do sistema bancário é incontestável. O crédito pessoal produz dessa forma, para a rede bancária, uma remuneração real cinco vezes maior que a inflação.

Esta exposição concreta dos fatos ganha espaço sempre que o CMN se reúne para debater a Selic. Não é a única face do problema. A outra é que os bancos não são devedores da Selic. Pelo contrário. São credores. Através da Selic, o Tesouro remunera os papeis que sustentam a dívida interna do país.

Até esta semana, os juros de 7,25% (ao ano) incidiam sobre 1 trilhão e 500 bilhões de reais, dívida interna líquida, montante revelado pela Folha de São Paulo, edição de 12 de Janeiro, reportagem de Martha Beck.

DÍVIDA INTERNA

Como a dívida interna líquida eleva-se (elevava-se em janeiro) a 1 trilhão e 500 bilhões, cada percentual de 0,1% representa uma despesa a mais no montante de 1 bilhão e 400 milhões. O governo passa a pagar mais aos bancos, aumentando portanto a despesa pública. Não vejo lógica na afirmação de que o crédito bancário tenha que subir para compensar um avanço, por menor que seja, na Selic. Ao contrário. A rede bancária passa a receber mais pelo mesmo serviço, o que deveria ser motivo para expansão dos financiamentos. Não para retração ou necessidade de compensar a diferença, repassando-a aos tomadores de crédito. Aliás, o maior tomador de crédito do país é o próprio governo.

Para um orçamento, como o de 2013, de 2,2 trilhões (D.O. de 30 de Janeiro), a parcela de 1 trilhão e 500 bilhões refere-se ao giro do endividamento, corrigido pelo índice Selic. O endividamento, inclusive, corresponde a praticamente trinta por cento do PIB, cujo total – 4,5 trilhões – corresponde a quase o dobro do total da lei de meios.

Por todos esses aspectos vale a pena ler a matéria de Carolina Matos, Anderson Figo e Felipe Peroni. Ler e refletir. Pois ela possui todos os dados essenciais e uma análise objetiva e clara do universo financeiro cujo sistema é comandado pelos Bancos. Com base nos números que se encontram ao alcance de todos torna-se fácil estimar o volume de lucro da rede bancária, mesmo considerando uma taxa de inadimplência que oscila em torno de 5%. Mas este é outro assunto.
O essencial é que sendo credores, e não devedores, da taxa Selic, os banqueiros passam a ser mais remunerados quando ela sobe. E não o contrário como alguns tentam fazer crer.

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