Haiti: exploração da miséria gera negócios

Paulo Peres

Em janeiro de 2010, um terremoto de altas proporções atingiu o Haiti, vitimando cerca de 200 mil pessoas. Essa catástrofe, que deixou famílias humildes sem o mínimo necessário para sua sobrevivência, inclusive alimentação, comoveu o mundo, que tinha do Haiti a imagem de um povo muito pobre, que durante décadas foi vítima de uma ditadura feroz.

Dois anos depois, a grande imprensa sonega informações de que o atual presidente da Republica, Michel Martelly, tem encontrado dificuldades para restabelecer a normalidade na vida social dos haitianos, principalmente, devido aos lucros auferidos com a exploração da miséria no país. Devido a essa situação, a Cruz Vermelha Internacional gastou até agora no Haiti apenas 48% dos recursos recebidos por ela para socorro de emergência ao Haiti.

O jurista Dalmo de Abreu Dallari explica que “somente agora surgem revelações extremamente importantes sobre o funcionamento dos mecanismos implantados para, supostamente, promoverem a reconstrução do Haiti, paralelamente à prestação de assistência para o enfrentamento das situações de emergência. Elas mostram a existência de uma burguesia rica, incluindo empresários de vários setores, que há muitas décadas exploram a situação de pobreza e dependência da grande maioria da população, ganhando dinheiro mediante a imposição de trabalhos em condições análogas à da escravidão e vivendo em mansões luxuosas, dotadas dos mais avançados recursos da tecnologia”.

“Isso pode explicar os gravíssimos desvios ocorridos na utilização dos generosos recursos recebidos de todas as partes do mundo para assistência às vitimas do terremoto de janeiro de 2010. Esses recursos, segundo Bill Clinton, ex-presidente dos Estados Unidos e encarregado pela ONU de coordenar a assistência às vitimas do Haiti, montaram a mais de cinco bilhões e meio de dólares americanos. Surpreendentemente, informa-se que nada menos do que trezentos e trinta e nove bilhões de dólares foram entregues aos Estados Unidos para cobrir suas despesas militares no Haiti”, salienta Dalmo Dallari.

Além disso, prossegue o jurista, “temerosos de que a tradicional pobreza da população, mais a ocorrência de um movimento de inspiração comunista tentando a derrubada do primeiro ditador Duvalier, isso somado ao estimulo à reação contra os privilégios injustos da burguesia durante a campanha eleitoral do padre Jean-Bertrand Aristide, e mais o desespero decorrente da catástrofe sísmica, temerosos de que tudo isso, somado ainda à proximidade de Cuba, pudesse inspirar uma ação comunista no Haiti, os Estados Unidos deslocaram para lá um poderoso e custoso dispositivo militar.E logo que surgiu o dinheiro, trataram de cobrar o reembolso desses custos”.

Outro dado expressivo, revela Dalmo de Abreu Dallari, ” é o registro de que empresários estabelecidos no Haiti queixaram-se de que Bill Clinton reuniu investidores estrangeiros para discutir a reconstrução do Haiti e a destinação dos elevados recursos provenientes de doações originárias de todo o mundo. E não foi convidado qualquer empresário haitiano ou instalado no Haiti, ficando a impressão de que a reconstrução estava sendo entendida como a restauração da situação anteriormente existente, sem considerar a necessidade e a possibilidade de correção dos tremendos desníveis econômicos decorrentes de uma história de colonização e dominação oligárquica e de dar prioridade aos verdadeiros interesses do povo do Haiti”.

Esperamos que, a presidente Dilma Rousseff em sua viagem para o Haiti, tenha tido conhecimento deste tipo de negócios, pois segundo, a presidente, no que depender do Brasil, o apoio aos haitianos será ampliado. “A ideia é intensificar as parcerias em vários setores – tecnológico, agrícola e energia”, anunciou.

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