Haroldo de Andrade e Ari Barroso na cortina do passado

Pedro do Coutto

Na tarde de terça-feira, primeiro de março – não pude comparecer pois estava de viagem – foi celebrada na Igreja N. S. da Glória, a do Largo do Machado, a missa pelo terceiro aniversário de morte do grande Haroldo de Andrade, que divide com Ari Barroso, a escala mais alta atingida pelo rádio brasileiro. Durante dezessete anos, participei de sua mesa de debates, líder absoluta de audiência na Rádio Globo, depois na emissora que batizou com seu próprio nome.

Viajou com o vento, para a eternidade em 2008. Participando atualmente, aos domingos, dos debates que seu filho, Haroldo Junior, comanda na Rádio Tupi, lembrei-me dele com saudade e de sua importância como radialista e comunicador.

Abri a cortina do passado, verso de Aquarela do Brasil, ao mesmo tempo samba e sinfonia, e o vi ao lado de Ari Barroso. Tive a certeza: foram – e são – as duas maiores figuras do rádio do país. Com uma diferença.

Ari Barroso, gênio absoluto, fica na história mais como artista do que como radialista, embora sua fama venha em grande parte dos tempos em que narrava futebol na Rádio Tupi e depois na televisão. Morreu relativamente moço, em 64, legando para as gerações pérolas da música popular brasileira. Quem não conheceu sua paixão pelo Flamengo? Suas discussões apaixonadas, seu programa de calouros que revelou tantos talentos? A cantora Dolores Duran, entre eles.

Haroldo de Andrade não era um artista, deixa suas impressões digitais na história como radialista. Houve no rádio alguns personagens de grande sucesso. Cesar Ladeira e Heron Domingues, como locutores. Oduvaldo Cozzi como narrador de futebol, o homem que conseguiu destacar o caráter épico e dramático dos confrontos esportivos. Sob este aspecto, o futebol deve muito a ele. Tornou-se ao mesmo tempo testemunha e personagem.

João Saldanha teve uma grande fase. Primeiro na Nacional, depois na Rádio  Globo. Foi o homem que levou a tática do futebol ao povo, traduzindo-a clara e simplesmente. Parecia estar sentado na mesa de um bar a nosso lado.

Entretanto em matéria de participação de grande amplitude, atuação múltipla, ninguém superou a categoria, a personalidade, a força de expressão de Haroldo de Andrade. A voz, inconfundível, o timbre, a inflexão certa para cada tema e momento, a integridade, o espírito de justiça, a oportunidade da informação sempre isenta, imparcial , correta. Limpa como o cristal que possuia na garganta. Mas ele não era só voz. Era também emoção. O povo participava de seusprogramas, rostos na multidão vivendo na aventura dele a sua própria aventura todos os dias pelo ar.

Quando me dirigia à Rádio Globo, vários motoristas dos táxis que me levavam estavam sintonizados nele. Sintonizados? Sim. Não eram apenas ouvintes. Eram participantes de uma edição diária que se estendia por três horas. Ele dava mais audiência, das 9 às 12, do que todas as demais emissoras reunidas.

Não sei até hoje porque a direção da Globo de 2002 resolveu dispensá-lo, rompendo um contrato de 33 anos seguidos e culminando com o evidente prejuízo das duas partes. Difícil compreender. Mas  assim é a vida. Assim sucedem-se coisas sem explicação. Uma delas na Televisão Globo, maior rede do país e uma das três maiores do mundo. Quando a direção geral decidiu afastar Bonifácio Sobrinho, o Boni, pai, colocou em seu lugar Marluce Dias Pereira que jamais sequer entrara num estúdio de TV. Mas esta é outra questão. O que passou, passou.

Mas Haroldo e Ari ficaram para sempre. Abro a cortina do passado e os vejo como monumentos da comunicação brasileira, as duas maiores figuras do rádio de todos os tempos.

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