Helio Fernandes relembra o AI-5, que passou Histria apenas como sigla. Foi to selvagem, cruel e ditatorial, que no precisava mais nada.

O comentarista Jose Guilherme Schossland oportunamente nos envia essa prola, um artigo de Helio Fernandes publicado no ano passado sobre o aniversrio do AI-5, que completa hoje 43 anos.

***

Helio Fernandes

Esse 13 de dezembro inesquecvel. No apenas para os atingidos, cassados, presos e desaparecidos, mas tambm para todo o pas. No comeou nesse dia 13, vinha de antes, muito antes, na vontade de alguns, e na execuo de alguns outros. E a palavra execuo define e desarvora tudo.

Acho, no tenho certeza, que a primeira vez que escrevo sobre esse documento nico na Histria do Brasil, Monarquia ou Repblica. Vou me prender, que palavra, apenas a fatos, nenhuma divagao, anlise anterior, suposio ou seja o que for. Aqui, o que aconteceu a partir da divulgao desse Ato Institucional nmero 5, que como todos sabemos, se transformou histrica e ditatorialmente apenas numa sigla.

Retrocesso no tempo, apenas de uma semana, com duas participaes de Djalma Marinho, extraordinria figura. No dia 5 de dezembro de 1968, eleio para presidente da Cmara, Djalma contra Nelson Marchesan, do Rio Grande do Sul, apoiado pela ditadura.

Eu era to amigo de Djalma que no pude deixar de ir a Braslia. Assisti pessoalmente o massacre do deputado do Rio Grande do Norte. Ele era presidente da Comisso de Constituio e Justia, que uma semana depois julgaria a licena para processar o jornalista-deputado do MDB, Marcio Moreira Alves.

Trocaram todos os oposicionistas da Comisso, ofereceram a Djalma Marinho no s a vitria para presidente da Cmara, mas o que ele quisesse. Os homens como Djalma jamais querem alguma coisa, resistncia o nico objetivo, a recompensa. A obrigao do dever cumprido, sem lamento, ressentimento, aborrecimento, mas tambm sem dar a impresso de herosmo.

No dia seguinte vim para o Rio. Tudo o que atingiria a muitos (cassao, priso, censura, mais perseguio) j acontecera ao reprter h muito tempo. Tambm no podia fazer nada, a censura era brutal e de corpo presente, existiam quase tantos censores (policiais) quanto reprteres, um clima apavorante.

No dia 12 foi votada a licena para processar o jornalista, apenas um pretexto para ENDURECER o mais possvel. Posso dizer com total segurana, no se esperava a derrota do governo ditatorial, a mobilizao foi espantosa. At o senador Daniel Krieger, um homem de sensibilidade, teve que trabalhar pela CASSAO do deputado. Embora senador e a votao fosse na Cmara, foi requisitadssimo, principalmente pelo carrasco-mor, o Ministro da Justia, Gama e Silva.

Queriam terminar tudo no dia 12 mesmo, Costa e Silva estava no Rio, no Laranjeiras, deu ordens ao Chefe da Casa Militar, Jayme Portela, D-U-R--S-S-I-M-O: No quero ver ningum, nem atender telefone. (Ainda no havia celular, claro).

Costa e Silva ficou no segundo andar, com dois amigos civis, sem cargos no governo. Viu filmes (bangue-bangue, que adorava) at por volta de 3 da manh. No dormiu, lgico, quem dormiria com quase todos os oficiais das trs Armas contra ele?

S atendia o general Portela, que lhe dizia invariavelmente: Gama e Silva precisa falar com o senhor, com urgncia. O presidente desligava, ou dizia: Amanh, amanh resolveremos. O Ministrio da Justia, ponta de lana dos militares mais ansiosos ou exaltados, no parava de agir, se considerava o mentor de tudo.

No dia seguinte, 13 de dezembro, Costa e Silva determinou ao Chefe da Casa Militar, que convocasse reunio ministerial no prprio Laranjeiras, s 13 horas. Discutiram pouco, no houve debate, todos estavam A FAVOR, mesmo alguns que no passado combateram ditaduras ostensivas ou no.

Costa e Silva, surpreendentemente ou para se vingar, j que sabia que estava praticamente deposto pelo Alto Comando, dizia o nome do Ministro e perguntava: Como vota o senhor Ministro?. S o coronel Passarinho, narcisista e exibicionista, fingiu que pensava, demorou um pouco, e explodiu: Presidente, VOTO A FAVOR do Ato Institucional, S FAVAS COMO OS ESCRPULOS.

O documento j estava redigido, Costa e Silva assinou tudo, o que fazer? s 20,30, em cadeia da Agncia Nacional, o AI-5 foi lido pelo locutor Alberto Cury, irmo de Jorge Cury e do cantor Ivon Cury. Era o fim de um perodo, a imposio de um regime que sacrificou a todos, incluindo o prprio presidente. Que no sobreviveu, morreria menos de um ano depois, j fora considerado INCAPACITADO.

Eu estava em casa, naquela poca existiam jornais MATUTINOS e VESPERTINOS. Os matutinos saam entre meia-noite e 1 da madrugada, os vespertinos (Tribuna, Globo, Correio da Noite) comeavam a circular ao meio-dia. Trabalhvamos at as 6 da tarde, voltvamos s 6 da manh, fechvamos, rodvamos e circulvamos, por volta de meio dia.

Ouvi a leitura do documento, comecei a me vestir. Rosinha me perguntou: Voc acabou de chegar, vai sair?. Abraando-a carinhosamente (o que at hoje redundncia ou pleonasmo), respondi: Serei preso imediatamente, prefiro ser preso no jornal. Alm do mais, tenho que tomar vrias providncias.

J ia saindo, o telefone tocou, Rosinha atendeu, disse: Helio, o Carlos Lacerda. Peguei o telefone, disse: Voc talvez seja a nica pessoa que eu atenderia, estou indo para o jornal, no Rio devo ser o primeiro a ser preso, a Tribuna fica a 100 metros da Polcia Central. O ex-governador, simplesmente: E eu?.

Respondi sem qualquer dvida: Carlos, voc ser preso e cassado. A, do outro lado, um rugido e a resposta: No vou ser preso nem cassado, voc est acostumado a adivinhar e acertar, mas essa voc vai errar completamente. Desliguei, o que fazer?

Cheguei ao jornal por volta das 10 horas da noite. s 11 horas e quase 45 minutos, fui preso. Levado para a Polcia Central, quando entrava naquele edifcio ttrico e assustador, o relgio macabro marcava exatamente meia noite, os dois ponteiros se divertiam. O reprter no demonstrava, mas como em outras oportunidades, assustadssimo e com medo, mas no deixando ningum perceber.

Me levaram para o Regimento Caetano de Farias, fiquei satisfeitssimo: eu no fora o primeiro a ser preso, entrei num matagal sujssimo (mas enorme, o que era timo), de l do fundo surgiu a figura de Osvaldo Peralva. Grande jornalista, Redator-Chefe (como se chamava na poca) do Correio da Manh, intimssimo amigo, ficamos conversando, no havia onde dormir. At a manh do dia seguinte, j 14, no apareceu mais ningum.

s 8 horas da manh, quem chegava, evidentemente preso? Carlos Lacerda. Me abraou como se no tivssemos falado na vspera, garantiu: Est bem, Helio, voc acertou pela metade, estou preso mas NO SEREI CASSADO.

Respondi sem hostilidade, mas sem mascarar a realidade: Est certo, trouxeram voc para c, apenas por diverso.

Fomos todos levados para uma estrebaria (o quartel era um centro hpico), dormamos no cho, no era o mais importante. Chegaram dois advogados que no conhecamos. s duas da tarde, uma festa: a entrada de Mario Lago, que foi preso no Teatro Princesa Isabel. Estava de saiote (fazia um personagem da Esccia), foi logo dizendo: Aqui s quem me conhece o Helio e o Carlos Lacerda, estou vestido assim, mas no sou viado. (Na poca era dito assim mesmo).

Eu e Lacerda tivemos momentos timos, de recordaes, e pssimos, de crtica minha a ele. Lacerda s ficou do dia 14 at 22, eu, Peralva e Mrio Lago ficamos at o dia 6 de janeiro, Dia de Reis. Os ditadores, geralmente, entre uma tortura e outra, so muito catlicos.

Carlos Lacerda mandou um filho falar com o Cardeal (amigo dele), outro conversar com o general Sizeno Sarmento (que fora Secretrio de Segurana dele governador), e o terceiro foi a So Paulo ver o que Abreu Sodr, grande amigo dele (e governador) podia fazer.

***

PS Um dia disse a ele, que no gostou: Carlos, preso no pede nem concede nada. Resiste e pronto. Passamos Natal e Ano Novo l, Lacerda no.

PS2 No dia 30, soubemos, Lacerda foi cassado, nenhuma surpresa, s para ele. No dia 2 de janeiro de 1969, viajou para a Europa, ficaria l mais ou menos 3 ou 4 anos. Teve a generosidade de ir se despedir de mim e de Mario Lago.

PS3 Nunca mais participou de nada, voltou em 1973, se enclausurou na Nova Fronteira, editora que adorava. Nunca mais nos vimos. Morreu em 1977, de forma estranhssima, da mesma morte sem explicao vlida que atingiu Juscelino e Jango.

PS4 Tinha 63 anos. Na priso, num momento de calma, confessou: Vou viajar, s volto poltica para ser presidente. Morreu dois anos antes da ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA.

PS5 O pas paga at hoje, nunca se reabilitou. Apesar de muitos acreditarem que tudo vai bem, e que Dona Dilma ser a salvao da lavoura, como se dizia antigamente.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.