Herança gaúcha

Sebastião Nery

Antonio Carlos de Andrada, presidente (governador) de Minas em 1930, juntou-se ao Rio Grande do Sul, na Aliança Liberal, para derrubar o paulista Washington Luís e entronizar o gaúcho Getulio Vargas. Pedro Aleixo, correligionário de Antonio Carlos, desconfiava da jogada:

– Por que o senhor está se unindo aos gaúchos?

– Na vida, a gente tem que saber escolher as companhias na hora certa. Para brigar num bar, chamo os filhos do Mendes Pimentel. Para ir ao teatro, vou com o Ataulfo de Paiva. Para tomar o poder, tomo com os gaúchos.

(Esse Mendes Pimentel, de filhos valentes, foi um ilustre e também valente jurista de Minas. Quando Getulio deu o golpe de novembro de 37, Mendes Pimentel era diretor da Faculdade de Direito de Minas. Telegrafou a Francisco Campos, mineiro e ministro da Justiça, propondo que, em lugar da Polaca, a Constituição por ele fabricada à semelhança da Constituição fascista polonesa, bastava Getulio assinar um decreto de dois artigos: Art. 1º – Fica revogada a lei que aboliu a escravatura no Brasil. Art. 2º – Os brancos passam a ser também escravos.)

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ANTIDEMOCRIA

Os gaúchos que me perdoem, até porque são tantas as exceções, como o nunca assaz louvado senador Pedro Simon. Mas o currículo da maioria dos líderes e dirigentes políticos do Rio Grande do Sul, no último século, nada tem a ver com democracia. Pelo contrário. Consideram-na incômoda, descartavel e às vezes até desprezível. Não preciso citar muitos:

1 – Julio de Castilhos, fundador, em 1879, do Partido Republicano Riograndense, com Assis Brasil e Pinheiro Machado. Positivista, militarista e florianista, proclamada a República, redigiu o projeto da Constituição gaúcha e “instaurou no Estado um Executivo forte, em detrimento do Legislativo, que tinha sua ação limitada ao setor orçamentário”.

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DE CASTILHOS A BRIZOLA

2 – Pinheiro Machado, discípulo, aliado e braço direito de Julio de Castilhos, foi senador durante décadas, comandando do Rio o Rio Grande.

3 – Borges de Medeiros sucedeu Julio de Castilhos no governo gaúcho, onde ficou 30 anos, de 1898 a 1928, com pequenas interrupções.

4 – Getulio Vargas todo mundo sabe. Foi 15 anos ditador.

5 – João Goulart acabou contribuindo para o golpe de 64, querendo sabotar as eleições de 1965, com medo de que Carlos Lacerda vencesse:  – “Ao Lacerda não passo o governo. Não vou trair o velho Getulio”.

6 – Discípulo de Vargas, Brizola era contra a existência do Congresso:  – “Basta uma Comissão Legislativa, com 10% deles. Nenhum deles foi um democrata. Pagaram ou o País pagou por isso.

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TARSO GENRO

Muita leviandade de Lula pôr, logo no Ministério da Justiça, o ministério da ordem, da lei e das instituições, o Tarso Genro, um ministro da desordem, visceralmente antidemocrata e, disfarçado atrás de uma linguagem pedante, tortuosa, defendendo seu “fascismo de esquerda”.

Ministro da Justiça, cuja tarefa fundamental é dar segurança jurídica e política ao governo, era exatamente Tarso Genro quem provocava, a toda hora, turbulências institucionais, com suas teses esdrúxulas e mal formuladas. O País acabou com saudades do mestre Marcio Thomaz Bastos.

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“EL CAUDILLO”

Leite Filho é um veterano jornalista cearense, há décadas em Brasília. Sério, estudioso, competente, conhece muito bem a alma da República. E dos homens.

O título do livro que escreveu e o PDT  lançou em 2008 diz tudo: “El caudillo”. Uma biografia de Leonel Brizola, “caudillo” como “caudilho” foram seus mestres, da mesma linhagem, todos filhos e netos de Julio de Castilhos.

De 45, ajudando a fundar o PTB na Ala Moça do partido, e 47, já eleito para a Constituinte gaúcha, depois deputado federal, prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul, comandante da Cadeia da Legalidade e da resistência à tentativa de golpe de 61, deputado pela Guanabara, até a pregação das reformas sociais em 63, exilado pelo golpe de 64, a volta para o Rio, a derrota para a presidência da República pelo sistemático isolamento político, é toda a história da vida pública de Brizola.

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